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Equidade no ensino do País

Para educadores, base comum vai proporcionar ao aluno conhecimentos necessários, além de estimular igualdade no ensino de todo o Brasil

Publicado em 12/07/2017, às 06h00

Chico Soares, conselheiro do CNE, acredita que base nacional comum vai formar alunos cidadãos / Isabelle Araújo/Ministério da Educação
Chico Soares, conselheiro do CNE, acredita que base nacional comum vai formar alunos cidadãos
Isabelle Araújo/Ministério da Educação
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Antes que o novo ensino médio possa entrar em vigor em todas as escolas públicas e privadas do Brasil, é preciso definir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) dos três últimos anos escolares. É ela que vai nortear todo o aprendizado e estabelecer as competências pessoais, sociais, cognitivas e comunicativas que os alunos de todo o país deverão desenvolver, conforme estabelecido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Atualmente, está em debate a BNCC relativa ao ensino fundamental – a primeira de uma série de audiências organizadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) para discuti-la foi realizada na última sexta-feira (7), em Manaus, aberta ao público. A expectativa é de que o trecho que diz respeito ao ensino médio seja enviado CNE e discutido ainda em 2017.

Desenvolver uma competência, de acordo com a LDB, é desenvolver um conhecimento mobilizado, operado e aplicado. É quando o saber se apresenta como solução para um problema prático ou uma decisão que precisa ser tomada. No caso, em vez de treze disciplinas curriculares, como funciona hoje em dia, é isso que os estudantes terão de desenvolver quando o novo ensino médio estiver em vigor.

Ou seja, no lugar de prever conteúdos dentro das matérias, como Geografia, História, Física, Química e Biologia, por exemplo, a BNCC propõe que os alunos dominem conhecimentos nas áreas de Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas, e de forma interligada. Sem as matérias compartimentalizadas, a ideia é promover um desenvolvimento global do aluno e estimular a aplicação do aprendizado escolar para soluções na vida real.

“A gente aprende para a vida. O problema na vida não vem isolado. Ele vem como aplicação”, explica o conselheiro do CNE, Chico Soares. “Não vem como nos livros, em que você estuda e depois vem o exercício de fixação. A vida mistura as áreas. Isso é muito forte na reflexão pedagógica atual. Essa estrutura de fazer conexões entre as diferentes áreas é uma tendência que veio pra valer. Ensinar compartimentado ficou para trás”, afirma.

“O aluno não vai ter um monte de disciplinas das quais ele não gosta, não quer ou não acha importante para a vida dele”, diz Guiomar Namo de Mello, educadora, presidente da Escola Brasilera de Professores (Ebrap) e consultora do MEC. “Você vai ter áreas e uma noção clara que de que você está se formando nas áreas, você não está formando especialistas. Você está formando um cidadão que precisa se apropriar desses conteúdos para sua vida”, explica.

A proposta é semelhante à já aplicada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), embora nem a BNCC, nem a reforma do ensino médio digam respeito à prova. Por enquanto, o Enem não sofrerá alterações. O conteúdo cobrado na prova só poderá ser mudado dois anos após a aprovação da base.



A BNCC vai orientar 100% dos currículos das escolas. No caso do ensino médio, uma parte (60%) será comum obrigatória (BNCC) a todas as escolas. Cada escola adequará seu currículo. A outra parte (40%) será flexível, contemplando itinerários formativos e de formação técnica, também de acordo com o currículo de cada escola. Os sistemas público e privado podem, ainda, incluir nos currículos características regionais e locais, conforme previsto na LDB. Isso mantém e estimula a autonomia das escolas.

“Trabalhar um conceito na base não significa trabalhá-lo de maneira igual em todo o Brasil”, sugere o presidente do CNE, Eduardo Deschamps. “A prática pedagógica pode ser diferente. Posso desenvolver determinada competência usando exemplos muito próximos da localidade onde o estudante está inserido. Não vai ser padronização da educação”, afirma.

Para Guiomar, o fato de a base não ser currículo é um dos pontos mais importantes para compreender a reforma do ensino médio. “A base diz o que a criança deve saber. Ela deve saber determinados conceitos de ciência. Se isso vai ser dado a partir de um material e de uma situação típica da floresta amazônica, da periferia de São Paulo ou dos pampas gaúchos, isso é uma questão do currículo”, continua Guiomar. “[A base] É uma referência dos conteúdos considerados essenciais para todos os brasileiros. Mas há muitas aprendizagens essenciais no Amazonas que não vão ser essenciais em Pernambuco. Como é a metodologia, em que contexto isso vai ser trabalhado, isso é questão de currículo. Não pode ser resolvido a nível nacional porque o Brasil é muito diverso”, continua.

A busca por uma igualdade na educação do país, um dos objetivos da BNCC, foi mencionado algumas vezes pelos educadores. “Existem diferenças brutais. O texto que vemos os alunos das escolas privadas tendo que compreender às vezes é muito mais simples do que é colocado em algumas escolas públicas”, afirma Chico Soares. Ele explica ainda como a base vai funcionar na prática. “Se o objetivo de aprendizagem é que aos 15 anos o aluno seja capaz de entender o editorial de um jornal, então a base vai dizer claramente qual a trajetória que ele tem que fazer para isso. Eu não posso negar para uma pessoa que ela chegue ao nível de leitura que a permita entender um editorial. Hoje isso acontece. O aluno chega aos 15 anos e não lê como deveria”, diz.

Outro motivo para que os currículos sejam diferentes, embora construídos sobre uma base comum, é poder contemplar o que é importante em cada local. “Se você vai ser mulher amazonense, então você tem idiossincrasias que não são de outras pessoas. Mas elas se constroem em cima de uma coisa comum. Se existe uma coisa que nos faz brasileiros, então essas coisas todos devem saber. Se você sai do Amazonas e vai para o Rio Grande do Sul, você vai dialogar e comunicar, porque você tem o conhecimento que seu colega tem”, exemplificou o conselheiro.

“Quando você define o que é essencial, e você trabalha a aplicação disso, desde que respeitadas diferenças que o Brasil tem, você tem muito mais probabilidade de ter uma educação que consiga, mesmo partindo de patamares diferentes, gerar resultados semelhantes”, finaliza Deschamps.


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