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Grupos caçadores

Arqueólogos da UFPE descobrem sítio pré-histórico em Araçoiaba

O lugar, na terras de uma usina de açúcar, era usado como oficina por povos nômades para o fabrico de lâminas feitas de quartzo hialino

Publicado em 14/10/2015, às 08h08

Pesquisadores em busca de vestígios da pré-história em canavial no Grande Recife / Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Pesquisadores em busca de vestígios da pré-história em canavial no Grande Recife

Foto: Fernando da Hora/JC Imagem

Cleide Alves
cleide@jc.com.br

Arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) descobriram em Araçoiaba, município da Região Metropolitana do Recife, vestígios de grupos caçadores que viviam por aqui muito antes dos índios e da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, em 1500. Os principais indícios da presença dos povos nômades no sítio pré-histórico são fragmentos de raspadores e lâminas feitos de quartzo hialino encontrados debaixo de um canavial.

“É o que chamamos hoje de instrumentos de cozinha, seriam as facas do passado. A lâmina era usada para tirar a pele e cortar os nervos dos animais”, explica o arqueólogo Grégoire Van Havre, um dos coordenadores da pesquisa. “Localizamos, pela primeira vez, o que seria a oficina onde eles lascavam o cristal para fabricar as peças”, afirma a arqueóloga e coordenadora dos trabalhos, Cláudia Oliveira.

Durante a pesquisa de campo, encerrada sexta-feira passada (9), foram resgatados de mil a 1,5 mil pedaços de quartzo. Pelos cálculos iniciais, 5% a 10% desse volume correspondem às facas – uma lasca de um lado e retoques do outro, criando o gume. “Houve uma ocupação intensa na área, mas não podemos dizer ainda quando isso aconteceu e nem por quanto tempo”, declara Grégoire Van Havre.

Os caçadores, possivelmente, tiravam as lascas do cristal fazendo pressão com outra pedra mais dura ou com chifres de animais, diz o arqueólogo. “Havia outras matérias-primas disponíveis na área, como o quartzo róseo, o leitoso e o branco. Mas esses grupos se especializaram no quartzo hialino (transparente como vidro), o mais puro que existe, isso prova que eram profissionais”, afirma o pesquisador.

A oficina está situada num terreno de 800 metros quadrados, de propriedade de uma usina de cana-de-açúcar. “Chama a atenção uma concentração tão grande da pedra no local, talvez seja um núcleo de quartzo. É difícil encontrar cristais assim, grandes, transparentes, bem formados, com todas as faces naturalmente definidas. Isso é resultado de uma cristalização lenta”, avalia a geóloga da UFPE Lucila Borges.

Ela visitou o sítio arqueológico pré-histórico sexta-feira passada (9), a pedido de Cláudia Oliveira. E levantou a possibilidade de se tratar de um pegmatito, rocha ígnea cristalizada lentamente. “Para confirmar, falta encontrar feldspato e mica, o que pode ocorrer em outras partes do terreno”, comenta. O núcleo de quartzo, diz Lucila Borges, é uma concentração do cristal dentro do pegmatito.


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A pesquisa em Araçoiaba teve início em março de 2015, quando professores da UFPE passaram a acompanhar a obra de implantação de linhas de transmissão de energia na região. Os pesquisadores identificaram 16 sítios arqueológicos. Em três deles, batizados Sítio Rodrigues 1, 2 e 3, apareceram o material lítico. O oficina fica no Sítio Rodrigues 3.

“Estamos fazendo um trabalho de salvamento arqueológico, é o registro completo das informações, quando não é possível levar as peças para o laboratório na universidade”, informa Cláudia Oliveira. Ela pretende expandir os estudos em busca de novos sítios e mais dados sobre os grupos caçadores-coletores, para tentar recuperar a forma de produção dos artefatos.

De acordo com a professora, não é fácil datar material lítico. “Se acharmos uma fogueira, a datação é feita pelo Carbono 14. A mesma técnica pode ser aplicada para marcas de sangue nas lâminas. Não iríamos descobrir quando a pedra foi lascada, mas saberíamos o período em que o instrumento foi usado.”

Nenhum outro vestígio – cerâmica, osso, madeira ou carvão – aflorou no terreno. Apenas cristais. “Os grupos caçadores-coletores não conheciam a cerâmica”, observa Cláudia. Na Bahia, uma lâmina semelhante foi datada de 2 a 3 mil anos antes do tempo presente, pela fogueira associada ao achado, diz Grégoire.




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