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HOMENAGEM

Mães de luta: elas perderam os filhos, mas não desistiram da vida

As histórias de três guerreiras que fizeram da dor um ponto de partida para lutar por justiça

Publicado em 12/05/2018, às 20h21

Alecsandra, Grimauria e Eleonora: mães que se recusam a desistir de lutar por justiça / Fotos: Leo Motta/JC Imagem
Alecsandra, Grimauria e Eleonora: mães que se recusam a desistir de lutar por justiça
Fotos: Leo Motta/JC Imagem
Ciara Carvalho
ciaracalves@gmail.com

Enterrar um filho é dor que não se esgota. Eleonora perdeu José Ricardo há sete anos. “Ele teve afundamento do crânio de tanto que apanhou.” Há nove anos, Alecsandra dava adeus a André Roberto. “Eu sabia que iam matá-lo. Mas não pude evitar.” A ausência acompanha Grimauria há nove meses. “Ele foi um covarde. Tirou a vida de Gisely com um tiro na cabeça.” O tempo aqui diz quase nada sobre saudade. Ela existe, resiste, persiste como se hoje fosse. Ferida viva. Perder um filho é dor que não se enterra.

Eleonora criou um instituto que leva o nome do filho. Fez do enfrentamento à homofobia sua voz. A bandeira do arco-íris, posta sobre o caixão de José Ricardo, virou segunda pele. O jovem de 24 anos, ator, professor de dança, homossexual, foi assassinado a pauladas em outubro de 2010. Um crime de homofobia, a investigação policial apontou. O rapaz ficou desfigurado. No dia seguinte ao enterro, Eleonora estava na porta da Secretaria de Defesa Social (SDS): “Quem matou meu filho?”

Alecsandra não suportou ver o filho adolescente se envolver com o tráfico de drogas. Encontrou uma arma e um pacote de crack na gaveta de André Roberto e o mandou escolher: ou largava aquela vida ou saía de casa. Aos 14 anos, o filho caçula, logo ele, o mais tranquilo, juntou as roupas que tinha e foi embora, viver “aquela vida”. Nem assim, Alecsandra suportou ver o filho no tráfico. Ligou para a polícia e o denunciou. Apreendido, foram sete meses dentro da Funase. Quando saiu, tentaram matá-lo. Foi jogado, bicicleta com tudo, de cima de uma ponte. Sobreviveu. Uma semana depois, seis tiros certeiros. Alecsandra se recusou a desistir. Conhecedora, como poucos, das mazelas do sistema de reeducação de adolescentes infratores, virou ombros, coração, fala e escudo de mães cujos filhos, como o dela, foram parar dentro da Funase.

Grimauria, até pelo pouco tempo de convivência com a perda, ainda tateia, vasculha suas fortalezas para manter-se firme. É preciso ficar de pé, ir às audiências, cobrar a condenação do empresário que, em julho do ano passado, tirou a vida de Gisely Kelly, 37. O relacionamento entre os dois já durava dois anos, mas ela, a mãe, nunca aceitou. Nunca permitiu que ele fosse em sua casa. Não gostava da forma violenta como o namorado agia quando estava sob efeito de álcool. “Ele andava armado. Quando bebia, puxava a arma, mostrava para as pessoas. Isso não podia acabar bem.” O tiro à queima-roupa foi dado dentro do apartamento onde o casal vivia. Grimauria não vai descansar: quer ver o acusado levado a júri popular. “Ele precisa pagar pelo mal que fez à minha filha.”

RESISTÊNCIA

Eleonora Pereira da Silva, 53 anos, Alecsandra da Silva, 52, e Grimauria Tavares, 72, não se conhecem. Mas se reconhecem na resistência. Fizeram da dor, a maior de todas, um ponto de partida. Um grito de não. Não à homofobia, ao extermínio de jovens da periferia, ao feminicídio. Mães-protesto, se recusam a deixar a memória dos filhos aprisionada nas fotografias. Levantam cartazes, vestem camisa, pedem justiça. Não só para os seus. Mas para os filhos e filhas de outras mães. É pela luta que elas sobrevivem.



Não é fácil. Mas não há outro caminho. “Eu precisava defender a memória do meu filho. No início do inquérito, a polícia quis associá-lo à prostituição, resisti. Mudaram de delegada. Foram meses de investigação. Anos para ver os assassinos condenados pelo crime de homofobia. Quando a sentença saiu, não tinha mais como parar. Ir para casa e descansar. A luta do meu filho por respeito e dignidade era agora a minha luta”, conta Eleonora, no corredor do prédio onde mora hoje, depois que teve de sair do bairro onde vivia, quando o filho foi morto, a poucos metros de casa.

Não se trata de se esconder. Mas de ficar mais forte. “Tenho milhares de filhos para cuidar”, diz, ao falar do movimento Mães pela Igualdade, do qual faz parte e cuja militância move sua vida. Eleonora acabou de chegar de Angola. Passou mais de um ano no país africano contando a sua história e travando uma guerra contra a intolerância sexual que custou a vida de seu filho.

Hoje é o primeiro Dia das Mães que Grimauria passará sem o abraço e a alegria de Gisely. “Pode olhar, em todas as fotografias ela está sempre sorrindo, feliz. Ela era uma pessoa pra cima, cheia de vida.” Mas a lembrança da personalidade solar da filha ela prefere carregar na memória. Deixa as fotos guardadas, para não ter que ver, para doer menos. Aos poucos, os dias, os meses têm feito Grimauria ficar mais forte. A cumplicidade e união de outras mães, cujas filhas foram vítimas de feminicídio, têm sido um combustível para continuar. Ajudada, ela também quer ajudar. “Minha filha não foi a primeira nem será a última. Não quero só a justiça de Deus. Luto pela dos homens. É preciso condenar, mantê-los presos. Para ver se eles deixam de matar as nossas filhas.”

É por saber que dor de mãe nunca é solitária que Alecsandra transformou sua tragédia pessoal em um alerta, um pedido eloquente de socorro. Não mais para ela nem para o filho, mas para todos os jovens da periferia que, sem perspectiva, terminam se envolvendo, cada vez mais cedo, com o comércio das drogas. Já perdeu a conta dos desaforos e provocações que ouviu, ano após ano: “defensora de bandidos”, “marginais protegidos pela lei”, “já morreu tarde”. Dói ouvir, mas não se entrega. A todos, responde com a pergunta que deveria inquietar todas as mães: “Podia ser o seu filho”, “E se fosse o seu filho, o que você faria?”

Quando tem rebelião na Funase é para Alecsandra que muitas mães ligam. De tanto brigar, em ruas, portas e corredores, ganhou um apelido: “Mãe que grita no deserto”. Ela, com uma coragem que só as mães conseguem ter, novamente irradia esperança: “A gente não grita só. Nenhum grito é em vão”. E segue na luta, por seus meninos e suas mães.


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Comentários

Por Eugenio Galiza,14/05/2018

HEROÍNAS. Coração de mãe mesmo.



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