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Transporte

Caronas despertam projetos e negócios entre universitários recifenses

Entre aplicativos e redes sociais, o objetivo é sempre o mesmo: reduzir o congestionamento no Grande Recife

Publicado em 30/12/2016, às 13h56

O Bigu é um aplicativo de caronas pioneiro no Brasil / Paula Paixão/ Cortesia
O Bigu é um aplicativo de caronas pioneiro no Brasil
Paula Paixão/ Cortesia
Vinícius Barros

"Alguns quarteirões a mais não fazem diferença". A frase é do caroneiro Rodrigo Melo, estudante da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP), centro vinculado à Universidade de Pernambuco (UPE). Na instituição, ele fez parte do projeto 'Eu Caroneio', ação na qual os alunos condutores conectam-se aos alunos pedestres através de grupos no Whatsapp ou Facebook. Em uma cidade como Recife, que conta com uma frota de 404.903 carros, segundo dados do Detran-PE, iniciativas como a de Rodrigo são notáveis e cada vez mais importantes.

Para o estudante, as caronas surgiram sem que as redes sociais fizessem o intermédio. "Sempre gostei de interagir, conhecer pessoas e dar caronas foi o primeiro passo para me integrar. Além disso, acredito que se uma ação minha pode melhorar o dia de alguém, por que não fazê-la?", argumenta. "Foram duas fases distintas. No começo, o 'Eu Caroneio' era só uma página no Facebook, focado apenas em caronas. Com o tempo, as pessoas que moram perto umas das outras foram programando entre si. Já com o grupo no Whatsapp, os benefícios foram muito maiores porque ficou mais fácil de arrumar e confirmar as caronas", é o que aponta Victor Andrade, presidente do Diretório Acadêmico da FCAP. 

Segundo ele, esse projeto trouxe não só benefícios para quem queria uma ajuda para ir para aula ou voltar para casa. "Além das próprias caronas, o grupo no Whatsapp serve também para passar informações sobre o trânsito nos arredores, greve de ônibus ou protestos que acontecem perto da faculdade, como na Praça do Derby, por exemplo", comenta. O termo carona solidária se encaixa bem nas viagens dos caroneiros. Segundo Victor, nas regras do grupo não está prevista nenhuma cobrança de taxa. Caso haja, é um acordo firmado entre aqueles que dão ou pegam as caronas.

Caronas também inspiram pesquisas acadêmicas

Não é de hoje que as caronas são discutidas como maneira de diminuir o tráfego nas grandes cidades. Em pesquisa feita em 2012 pelo professor de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco, Leonardo Meira, foi detectado que na área Central do Recife, a taxa de ocupação por automóvel no Recife é de 1,22 condutores. "Estamos muito longe de uma cultura de caronas na cidade, até mesmo por uma questão de segurança pública", declara. 

Leonardo ainda relembra que os outros modais da cidade não se integram bem com o transporte individual. "Nos Estados Unidos e na Europa existe o chamado Park and Ride, um estacionamento próprio para deixar o carro e, assim, fazer a viagem de metrô ou ônibus. Por aqui, a única estação que tem vagas onde se possa deixar o carro é a Estação Central", relata o engenheiro. A pesquisa da aluna de mestrado em engenharia civil Laize de Souza pega carona no tema. O estudo avalia, de acordo com os universitários, os fatores de maior influência sobre o uso das 'viagens solidárias'.

Ela declara que, em vias fora do Centro do Recife, a taxa de condutores por carro sobe para 1,35 ocupantes, o que ainda é considerado um valor baixo e o aumento das caronas enfrenta barreiras além do próprio trânsito. "A dificuldade de ampliação das caronas está na força do uso dos automóveis e em questões psicológicas, como medo de andar com desconhecidos", ressalta. Laize não considera que a prática chega para resolver o trânsito das grandes cidades. "É uma solução de baixa escala. A mobilidade urbana só melhora quando a devida atenção é dada ao transporte público e modos não motorizados, tornando-os atrativos, além de medidas de restrição ao uso do automóvel são aplicadas".

O rodízio de carros, utilizado em São Paulo para tentar conter o fluxo de veículos, também não é uma solução, conforme Laize. Ela aponta que, mesmo com a medida, a cidade registra apenas 1,4 pessoas por veículo. "O rodízio não garante a redução de carros em circulação, principalmente quando as pessoas podem ter mais de um automóvel".

Conheça o Bigu, aplicativo de caronas

O aplicativo "Bigu" desembarcou na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) em novembro, disponível para Android e iOS. Alunos, professores e demais funcionários podem utilizar a nova plataforma. Funciona assim: passageiros e motoristas se cadastram no serviço, divulgam as rotas que desejam fazer e o sistema conecta os dois de maneira que nenhum deles saia de seu caminho. 

Pioneiro no Brasil, o app já obteve 700 cadastrados e um total de dois mil downloads desde o lançamento. Filipe Passos, diretor de comunicação do Bigu, aponta que o serviço se enquadra em uma tendência global. "Vários países no mundo já possuem negócios voltados para compartilhamento de carros. Todas essas iniciativas mostram o desenvolvimento acelerado da economia compartilhada e o Brasil vem logo atrás, sendo o Bigu mais um exemplo".   

Congestionamentos crescem, poluição também

Quando o assunto é meio ambiente, o excesso de carros e a formação de longos congestionamentos acendem a luz de alerta para a saúde do planeta. Tomando o número médio de quilômetros de engarrafamento no Recife (67,5 km) medido até o último dia 26 de dezembro e adotando três metros como o tamanho médio de um carro popular, calcula-se, em uma simulação, que cerca de 22.500 automóveis estejam nas ruas no horário de pico. Supondo agora que cada carro trafegue apenas 10 quilômetros, tem-se, ao todo, uma emissão de 391.725 kg de dióxido de carbono (CO2) diariamente.

Para o professor de química e diretor do Espaço Ciência Antônio Carlos Pavão, a prática das caronas solidárias diminui a atuação do principal vilão da atmosfera: o gás carbônico. "Se você economiza ao menos um litro de gasolina e, ao deixar de usar um carro e pegar uma carona, deixa-se de consumir quase 15 mil litros de ar," explicou o professor. Além da emissão de gás carbônico, a queima de combustível produz óxido de nitrogênio, que contribui para a chuva ácida e a poluição atmosférica. 

Segundo Pavão, iniciativas de caronas estão sintonizadas com as tendências mais modernas. "Estas ações visam uma maior conscientização da população, afinal, aqui em Recife, a qualidade do ar tem caído muito, em decorrência do aumento da frota e dos congestionamentos". Ainda de acordo com o professor, no Grande Recife, os ventos ajudam a diminuir o impacto da poluição na cidade. "Por ser uma cidade litorânea, Recife acaba tendo uma boa frequência de ventos, o que ajuda na dispersão dos poluentes. Isso é uma vantagem se compararmos com Santiago ou Cidade do México, por exemplo".

Confira abaixo quanto cada veículo pode produzir de dióxido de carbono tomando como base que cada condutor dirija 100 km:

O site Iniciativaverde.org calcula o consumo de poluentes por cada tipo de veículo, seja ele de transporte individual ou público. Para conferir quanto seu carro ou o meio de transporte que você utiliza gera de poluição, clique aqui e descreva o tipo de veículo e a quantidade de quilômetros rodados mensalmente.

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