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Série Carnavais Saudosos resgata histórias da velha guarda dos blocos

Mirula é praticamente o Google do Carnaval de Olinda.

Publicado em 14/01/2018, às 07h01

Carnaval é a vida de Mirula, que na certidão de nascimento é Cláudio Nigro. / Foto: Felipe Ri beiro/ JC Imagem.
Carnaval é a vida de Mirula, que na certidão de nascimento é Cláudio Nigro.
Foto: Felipe Ri beiro/ JC Imagem.
Larissa Rodrigues

A história do Carnaval pernambucano contada por meio de memórias afetivas e detalhes únicos é o propósito da série Carnavais Saudosos, iniciada hoje e que vai até a próxima sexta-feira (19). Ouvimos as lembranças engraçadas da velha guarda e constatamos sua influência na manutenção da folia tradicional. Os textos são de Larissa Rodrigues e as fotos de Felipe Ribeiro.

Carnaval é a vida de Mirula, que na certidão de nascimento é Cláudio Nigro. Desde os 13 anos ele brinca Carnaval, ou seja, há 70 anos, já que Mirula tem 83. Para ele, apaixonado pela folia momesca, todos os Carnavais foram bons, mas dois anos específicos são lembrados com mais saudade, 1950 e 1955. Em 1950, uma brincadeira de um primo deu origem ao Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda, fundado dois anos depois. Já em 1955, diz Mirula, "foi o desfile mais bonito do Elefante de todos os tempos".

A história do Elefante de Olinda é conhecida, inclusive porque o hino do clube é praticamente o hino da cidade. Já os detalhes daquele dia, o dia do roubo do elefante que deu origem a tudo, estão apenas nas memórias dos que presenciaram o furto. São esses detalhes que fazem Mirula se divertir ao contar sua versão da origem do clube. Segundo ele, em 1950, um primo e xará de Mirula quase mata do coração uma senhora que morava na Rua do Bonfim, em Olinda, e recebia "a turma" durante a festa com cozido e conhaque. Ela tinha um elefante de marfim da altura de uma cadeira, presente do marido, que trouxe o mimo de Portugal.

Cláudio Antônio Nigro de Almeida, conhecido como Cana, o primo de Mirula, "desapareceu" com o elefante em pleno oferecimento do cozido. "Ninguém viu, ele fez um negócio bem feito. Dona Linda sentiu falta do elefante pouco tempo depois. Saiu todo mundo atrás dele. Acharam ele dançando com o elefante na cabeça nos Quatro Cantos. Dona Linda ficou passando mal em casa. Quando a gente devolveu ela quase que desmaia", contou Mirula, gargalhando. O furto não ficou impune. Cana, segundo Mirula, apanhou da turma, que respeitava muito Dona Linda. "Deram umas porradas no meu primo, mas ele continuou na cachaça, como todo mundo que tava na casa de Dona Linda. Eram umas 100 pessoas. Ela escondeu o elefante no primeiro andar. Terminou o dia todo mundo bêbado e rindo da história."



A saga de Dona Linda foi o mote para a criação de um dos blocos mais tradicionais do Carnaval de Olinda. O Elefante fez história pelas ladeiras. No passado, viveu uma rivalidade intensa com a Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos, algo superado nos dias de hoje, mas que ainda rende boas risadas para os veteranos do clube, como Mirula, e para a nova geração do Elefante, que se deleita ouvindo os relatos. "O cacete comia nos Quatro Cantos. Eu apanhava que só um condenado, porque era pequeno e os caras da Pitombeira eram fortes. Mas eu nem esquentava, porque tava bêbado. Porrada pra mim era distração", lembrou Mirula.

A saudade do Carnaval de 1955 tem relação com essa rivalidade. "Naquele ano, a gente era liso, mas derrubou a Pitombeira. O Elefante saiu bonito demais, as fantasias lindas, eu fiquei doido", disse ele. O bloco, segundo Mirula, saía 18h. "Desfilou no domingo. O nome da orquestra era 14RI, a maior que tinha em Pernambuco naquele tempo, regida pelo Maestro Bezerra. Eram 42 músicos em 1955. Mas, uma vez, ele botou 80 músicos. Toramos a Pitombeira com 40 de cada lado", descreveu.

Google

Mirula é praticamente o Google do Carnaval de Olinda. De acordo com ele, a primeira orquestra da cidade foi do Grêmio Musical Henrique Dias, na Rua do Amparo. "Era conhecida como 'bombo frouxo' porque era ruim demais, não tocava nada", zombou. Quem costurou o primeiro estandarte do Elefante, segundo ele, foi Dona Santa, uma mulher que fazia as bandeiras de todos os blocos na época. Perguntado cadê Dona Santa, Mirula responde meio sorrindo, meio lamentando: "Santa morreu há uns 40 anos. Era muito bonito (o trabalho de Santa), ela fazia à mão. Eu era amicíssimo dela, ia na casa dela e dizia 'Santa, cheguei, quero o meu (estandarte) novo'. A cada cinco anos ela fazia um estandarte novo para o Elefante."

Por que Mirula?
O apelido, para Mirula, "é uma história triste". Mesmo assim, ele contou sob risadas. "Era o nome de um cachorro de uma italiana que morava na minha rua e eu vivia atrás dela. O cachorro dela se chamava Mirula. Para onde ela ia, Mirula ia atrás. Eu também. Por isso, a turma me apelidou. Ela tinha 11 anos e eu 13. Era bonita demais, eu endoidei. Mas ela nunca quis nada comigo, era só amiga. O nome dela era Kaura Chiappeta. Ninguém conhece meu nome, só Mirula."


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