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Dengue pode agravar danos causados pelo zika vírus

Pesquisadora Celina Turchi, que participou de entrevista na TV JC, adiantou que, in vitro, a presença de anticorpos antidengue impulsiona a entrada do zika nas células

Publicado em 10/01/2017, às 07h46

Celina Turchi (ao centro) foi entrevistada pelas repórteres Cinthya Leite (esquerda) e Mariana Barros (direita) / André Nery/JC Imagem
Celina Turchi (ao centro) foi entrevistada pelas repórteres Cinthya Leite (esquerda) e Mariana Barros (direita)
André Nery/JC Imagem
Cinthya Leite

Responsável por coordenar uma força-tarefa que deu respostas a inquietações de cientistas de todo o mundo ao confirmar a relação entre zika e microcefalia, a médica epidemiologista Celina Turchi, eleita uma das dez personalidades de 2016 na ciência pela revista britânica Nature, enumera novas inquietações dos pesquisadores sobre um vírus que se tornou emergência sanitária internacional. Um detalhe que tem levado a investigações, segundo Celina, é se o fato de ter dengue, antes da infecção por zika na gravidez, pode favorecer o aparecimento de complicações no feto ou no bebê após o nascimento. 

“Ter anticorpos antidengue facilita a entrada do vírus nas células? Essa é a pergunta que agora se pretende responder”, informou a pesquisadora da Fiocruz Pernambuco, que participou, na segunda-feira (9), do programa de reestreia da TV JC. Sobre o assunto, ela adiantou que, in vitro (no ambiente de laboratório), a presença de anticorpos antidengue impulsiona a entrada do zika nas células. Para Celina, o desfecho in vivo (experimentação feita no tecido vivo) pode ser diferente. Está para ser publicado artigo científico que destaca a potencialização do zika (após infecção por dengue) em laboratório.

Ainda sobre as incertezas em relação ao vírus, Celina diz que se questiona sobre o momento da gestação em que o zika causa maiores danos do ponto de vista neurológico. “É isso que os grandes estudos que acompanham mulheres grávidas procuram responder neste momento.” Além disso, a médica epidemiologista reforça que pesquisadores ainda se debruçam em estudos que respondam sobre os diversos graus de comprometimentos causados pelo vírus nos bebês. “Qual é o espectro total dessa síndrome congênita do zika? Interessa a gente saber desde as formas leves até as graves”, acrescenta. 

As dúvidas sobre o tema foram abordadas pelos internautas que acompanharam a transmissão da entrevista com a pesquisadora pela fanpage do JC. Ao vivo, Celina foi questionada sobre a possibilidade de uma pessoa, que já teve zika há um ano, ser infectada novamente. “No momento, o que sabemos é incipiente para dar resposta definitiva. Podemos afirmar que há uma possibilidade de a doença ser causada por um único tipo de vírus zika e, assim, a pessoa não estar mais susceptível a ter outra infecção.” 

SAÚDE PÚBLICA

Durante a entrevista, Celina salientou que a epidemia de zika direcionou a visão dos especialistas para questões de saúde pública relevantes que estavam no esquecimento. “Essa grande tragédia social (explosão dos casos de microcefalia relacionada ao vírus) serviu como oportunidade para relembrar outras infecções congênitas. Sífilis, por exemplo, é muito importante, com frequência alta na população. Então, veio esse olhar para outras infecções que estavam um pouco esquecidas e subestimadas durante o pré-natal.”

A pesquisadora informou ainda que o estudo que levou ao reconhecimento do seu trabalho pela Nature foi finalizado há um mês, em oito maternidades do Recife. O resultado parcial, publicado em setembro na revista The Lancet Infectious Disease, mostrou que recém-nascidos infectados pelo zika têm risco 55 vezes maior de apresentar microcefalia do que os não infectados. A conclusão da pesquisa coordenada por Celina deve ser apresentada até maio.

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