É com a cabeça pelada, um olho azul e o outro preto, que Raimundo, entre uma tocada de flauta e outra, sonha com algo que desconhece. Apesar de não saber o nome do que deseja, sente que é maior do que ele mesmo. Com essa vontade de se conhecer, mas também de ser amado e respeitado pelos colegas que estranham suas características, o menino protagoniza o espetáculo A terra dos meninos pelados, que reestreou nos palcos recifenses no último sábado, no Teatro Barreto Júnior, no Pina. Baseada no texto de Graciliano Ramos, a peça completa dez anos em 2012, com direção e adaptação de Samuel Santos.
Raimundo, “diferente dos outros meninos”, é alvo de piada dos colegas que não aceitam seus olhos coloridos e a cabeça sem cabelos. Na tentativa de contornar a solidão, o menino inventa uma terra “ideal” onde todos são iguais a ele e não há qualquer discriminação. O espetáculo é dividido em duas fases: a vida real e o mundo da fantasia, que ganha o nome de Tatipirum.
No mundo real, onde sonhos são angariados como forma de se manter de pé, há poucas cores e brilho no palco e na vida de Raimundo. Quando o menino chega em Tatipirum, no entanto, um belo cenário preenche de tons vivos sua esperança. No novo e vasto mundo – ainda que imaginário – Raimundo se conforta em saber que ali ele pode ter as cores e os amigos que desejar. O figurino, criado por Java Araújo, acompanha as mesmas transições cenográficas, indo do simples e convencional ao lúdico e criativo.
Com os novos amigos – que, além dos carecas como ele, podem ser um carro ou uma árvore – Raimundo passa a se conhecer melhor e é aceito, vivendo uma experiência de liberdade, até o momento, sem precedentes. Tendo partido com a lição de geografia física por fazer, ele tem a obrigação de voltar para sua terra, mas agora com a clareza de que há ainda uma grande lição de geografia política a ser realizada: a de ter suas diferenças respeitadas.
A trilha sonora do espetáculo, composta por Demétrio Rangel originalmente para a montagem, é tocada ao vivo e é acompanhada pelos próprios atores. Com belas letras e melodias, que alternam entre sonoridades clássicas, rock e até ciranda, banda e elenco fazem adultos e crianças se renderem ao lirismo raro do espetáculo. Destaque para a afinação do elenco, formado por André Caciano, Camila Buarque, Erick Lopes, Duda Martins, Gustavo Soares, Julia Shakurr, Michele Sant’Anna, Samuel Lira
A peça funciona como um importante espaço para, além de incitar o universo da leitura nas crianças, refletir com pais e filhos sobre as diferenças com as quais nos deparamos na rua, na escola, no trabalho, no mesmo andar do prédio e dentro de casa. Com delicadeza, poesia e bom humor, o espetáculo ressalta a importância da convivência e do respeito mútuo, além de trazer questões importantes como o bullying e o excesso de violência e alienação da televisão.
Desde sua estreia, em 2002, A terra dos meninos pelados já foi vista por cerca de 8 mil pessoas, em 16 cidades diferentes. O espetáculo, que conta com incentivo do Funcultura, fica em cartaz até outubro, com sessões nos sábados e domingos, às 16h30. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia). Informações no fone: 3355-6398.
Últimas notícias
Ranking do dia
Prédio em Água Fria cede, apresenta rachaduras e moradores saem às pressas
JC lança site para acompanhar times de Pernambuco no Brasileirão
Governo publicará MP para desonerar passagem de ônibus
PCdoB questiona Eduardo Campos
Ciclista que perdeu braço em atropelamento receberá implante biônico
Grand Siena ganha série especial caprichada
Torreão é opção para famílias Especiais JC