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A terra dos meninos pelados cumpre temporada

Espetáculo que reestreou no último sábado, no Barreto Júnior, é baseado em texto de Graciliano Ramos

Publicado em 06/08/2012, às 06h34

Do JC Online

É com a cabeça pelada, um olho azul e o outro preto, que Raimundo, entre uma tocada de flauta e outra, sonha com algo que desconhece. Apesar de não saber o nome do que deseja, sente que é maior do que ele mesmo. Com essa vontade de se conhecer, mas também de ser amado e respeitado pelos colegas que estranham suas características, o menino protagoniza o espetáculo A terra dos meninos pelados, que reestreou nos palcos recifenses no último sábado, no Teatro Barreto Júnior, no Pina. Baseada no texto de Graciliano Ramos, a peça completa dez anos em 2012, com direção e adaptação de Samuel Santos.

 

Raimundo, “diferente dos outros meninos”, é alvo de piada dos colegas que não aceitam seus olhos coloridos e a cabeça sem cabelos. Na tentativa de contornar a solidão, o menino inventa uma terra “ideal” onde todos são iguais a ele e não há qualquer discriminação. O espetáculo é dividido em duas fases: a vida real e o mundo da fantasia, que ganha o nome de Tatipirum.

 

No mundo real, onde sonhos são angariados como forma de se manter de pé, há poucas cores e brilho no palco e na vida de Raimundo. Quando o menino chega em Tatipirum, no entanto, um belo cenário preenche de tons vivos sua esperança. No novo e vasto mundo – ainda que imaginário – Raimundo se conforta em saber que ali ele pode ter as cores e os amigos que desejar. O figurino, criado por Java Araújo, acompanha as mesmas transições cenográficas, indo do simples e convencional ao lúdico e criativo.

 

Com os novos amigos – que, além dos carecas como ele, podem ser um carro ou uma árvore – Raimundo passa a se conhecer melhor e é aceito, vivendo uma experiência de liberdade, até o momento, sem precedentes. Tendo partido com a lição de geografia física por fazer, ele tem a obrigação de voltar para sua terra, mas agora com a clareza de que há ainda uma grande lição de geografia política a ser realizada: a de ter suas diferenças respeitadas.

 

A trilha sonora do espetáculo, composta por Demétrio Rangel originalmente para a montagem, é tocada ao vivo e é acompanhada pelos próprios atores. Com belas letras e melodias, que alternam entre sonoridades clássicas, rock e até ciranda, banda e elenco fazem adultos e crianças se renderem ao lirismo raro do espetáculo. Destaque para a afinação do elenco, formado por André Caciano, Camila Buarque, Erick Lopes, Duda Martins, Gustavo Soares, Julia Shakurr, Michele Sant’Anna, Samuel Lira

  

A peça funciona como um importante espaço para, além de incitar o universo da leitura nas crianças, refletir com pais e filhos sobre as diferenças com as quais nos deparamos na rua, na escola, no trabalho, no mesmo andar do prédio e dentro de casa. Com delicadeza, poesia e bom humor, o espetáculo ressalta a importância da convivência e do respeito mútuo, além de trazer questões importantes como o bullying e o excesso de violência e alienação da televisão.

 

Desde sua estreia, em 2002, A terra dos meninos pelados já foi vista por cerca de 8 mil pessoas, em 16 cidades diferentes. O espetáculo, que conta com incentivo do Funcultura, fica em cartaz até outubro, com sessões nos sábados e domingos, às 16h30. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia). Informações no fone: 3355-6398.

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