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Temporada

O beijo de Nanini em Oscar Wilde

Ator pernambucano protagoniza Beije Minha Lápide, hoje e amanhã, no RioMar

Publicado em 30/09/2015, às 05h34

Nanini empresta a veia cômica ao texto mordaz / Guga Matos / JC Imagem

Nanini empresta a veia cômica ao texto mordaz

Guga Matos / JC Imagem

Bruno Albertim

Se estivesse diante do túmulo acariciado por lábios devotos de vários cantos do mundo, Marco Nanini talvez, sim, beijasse o mausoléu de Oscar Wilde, espécie de Torre Eiffel do Père-Lachaise, o cemitério-celebridade de Paris. “De certa forma, eu beijo essa lápide a cada vez que piso no teatro”, diz o ator cuja trajetória profissional resume, sem esforços, parte cervical da dramaturgia contemporânea - sobretudo brasileira. Em seu novo espetáculo, o ator nascido no Recife há mais de 60 anos expõe, finalmente, a paixão pelo escritor irlandês cuja vida foi tão potentemente estetizada como sua arte.

Oscar Wilde é o ponto de partida de Beije Minha Lápide, um espetáculo que gravita em torno do escritor sem sucumbir a ele. Há muito tempo, Nanini queria inaugurar seu envolvimento artístico com o irlandês santificado pelos fãs. Mas sem mimeografar o que já fizeram, com mais ou menos brilhantismo, seus colegas de ofício. “Não queria interpretar um texto dele, o que já foi bastante feito, nem montar uma biografia”, diz o ator que, depois do monólogo matematicamente cerebral A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe Para Pedir um Aumento, um texto do francês Georges Perec dirigida pelo conterrâneo Guel Arraes, sentiu falta de ter parceiros no palco.

Com os atores da jovem e vigorosa Cia. Teatro Independente, do Rio de Janeiro, ele e seu parceiro de produção Fernando Libonatti encomendaram o texto a Jô Bilac, um carioca que, a despeito dos parcos 30 anos, impõe seu nome como verbete da dramaturgia contemporânea brasileira. Fã confesso de Nelson Rodrigues pela capacidade de unir horror e beleza no mesmo texto, Bilac é celebrado por textos também arredios a maniqueísmos. “Fiquei impressionado com a rapidez do Jô, que modificava cenas inteiras em um dia e entregou o texto final em menos de um mês”, conta Nanini, que enxerga no texto várias analogias com o Brasil de conservadorismos contemporâneos.

O texto tem como marco zero a interdição real do túmulo de Wilde, protegida por vidros para impedir o mármore corroído pela orgia de salivas devotas. Interpretado por Nanini, o fictício escritor Bala se revolta com o veto e rompe as vidraças. Acaba preso - numa cela e num moto-contínuo de inflexões morais, jurídicas, hormonais. “Ele quebra o vidro e acaba preso. Sua atitude é uma espécie de protesto contra a interdição do afeto”, diz. De sexualidade tão pouco heteronormatizada como a do próprio Oscar, Bala, o escritor, desenha duelos erotizados com o próprio carcereiro. Sua filha tem também uma relação de ambiguidades sexuais com a advogada contratada para defender o pai.

Em quase todo o espetáculo, Nanini atua redomado por paredes de vidro. A alusão ao Oscar Wilde preso pela legislação heteronormativa é evidente. “É e não é o Oscar Wilde. Quem não conhece nada sobre a vida do escritor vai entender perfeitamente a trama, e ficar curioso pra querer conhecê-lo”, diz o ator, nesta conversa regada a pitombas debaixo da sombra rendada de fruteiras gigantes num jardim de Olinda, onde está hospedado. “Sou doido por pitombas, pra mim é como uma droga. Um paladar de pernambucano que nunca me abandonou”, desvia o ator que se mudou com a família do Recife ainda aos quatro anos de idade.

O escritor irlandês inventou a ironia e parte do sarcamo contemporâneos. Seus textos e tiradas ganhavam extensão com seu corpo e comportamento. No final do século 19, casado com a filha de um proeminente aristocratas inglês, Wilde chocou metade e meia da Inglaterra vitorianamente puritana por seu envolvimento com rapazes. Foi condenado a prisão e trabalhos forçados. “O vidro ironiza de forma bem cruel esta sensação de confinamento, pela qual Wilde passou injustamente, ao ser condenado por sodomia”, diz Nanini. Na prisão, Wilde escreveu De Profundis, obra seminal, espécie de carta-desforra escrita diariamente durante os dois anos de cárcere. O texto documenta a relação de amor e ódio hormonais com o Lord Alfred Douglas, razão imediata de seu inferno. “De Profundis é quase um milagre pela forma com que foi escrita. Não somente os temas de Wilde que são atualíssimos, mas também a sua escrita irônica e elegante”, diz Nanini, que não vê gratuito o fato de a sexualidade ser combustível atual de grande parte da dramaturgia contemporânea. “É uma reação ao convservadorismo avançado de hoje”.


Beije Minha Lápide. Hoje e amanhã, às 20h30, no Teatro RioMar. Informações: 4003-1212. Ingressos: R$ 25 (inteira) e R$ 12,50 (meia).

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