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Trilogia Abnegação investiga, nos palcos, ascensão e queda do PT

Peças são destaque no Trema! Festival de Teatro

Publicado em 07/05/2017, às 10h00

Entranhas do jogo político são expostas no espetáculo / Divulgação
Entranhas do jogo político são expostas no espetáculo
Divulgação
Márcio Bastos

O tema desta quinta edição do Trema! Festival é “distopias e realidades”. As questões que ele instiga são múltiplas e se apresentam de diferentes formas dentro da grade do evento. No caso da Trilogia Abnegação, do Tablado de Arruar (SP), o contexto político ganha contornos mais explícitos, investigando a ascensão da esquerda ao poder no Brasil. Os três espetáculos escritos por Alexandre Dal Farra serão exibidos em sessões únicas de segunda a quarta-feira, às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho.

Nascido do desejo de Dal Farra de explorar o “ponto cego” dos bastidores da política, aqueles jogos dos bastidores aos quais a população não tem acesso, o projeto se encerraria inicialmente em uma peça, mas o dramaturgo continuou a se debruçar mais sobre o tema à medida em que percebeu a profundidade da questão.

“O ponto de partida do trabalho era um olhar sobre o Partido dos Trabalhadores (PT) já estruturado no poder, no auge do governo. Era também entender o que significava essa chegada da esquerda ao poder e sua adesão às estruturas já consolidadas. Porém, percebemos que era preciso também investigar o sistema de uma forma mais abrangente até mesmo para entender como essas situações foram se desenhando”, explica Dal Farra.

A primeira peça estreou em 2014 e mostra uma reunião entre membros de um partido. Eles discutem uma questão que o público não sabe ao certo qual é. Fica claro, no entanto, que o desenrolar da questão pode custar a vida daquele que decidir. Já Abnegação 2 – Começo do Fim, toma como base o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em 2002, até hoje não solucionado. A última parte da trilogia, intitulada Restos, investiga o momento posterior ao fim da hegemonia de um governo de esquerda, focando no reflexo dessa experiência em personagens do cotidiano.

“Percebo que, agora, vendo as peças é possível fazer um tipo de análise de um momento imediatamente anterior ao que estamos, gerando uma sensação maior de causa e consequência. É como se fosse possível perceber com mais clareza os processos que nos trouxeram até aqui e permitiram essa ascensão da direita conservadora. Passagens que pareciam possibilidades, hoje são acontecimentos concretos. Quando comecei a escrever a última peça, Dilma era presidenta. Ao estrear, ela havia sido deposta. Então é um processo muito intenso”, reflete.



Dal Farra acredita que é importante lançar olhares sobre essas questões, principalmente na tentativa de reconstruir uma ideia de utopia que um dia foi articulada pelo PT.

A direção das três obras é de Dal Farra e Clayton Mariano. No elenco, estão Alexandra Tavares, Vitor Vieira, Vinicius Meloni, André Capuano e Lígia Oliveira. Na quarta-feira, às 18h, haverá debate com os realizadores e lançamento do livro com a dramaturgia da trilogia, publicado pela Editora Javali.

LUGARES ESCUROS

Alexandre Dal Farra é hoje um dos dramaturgos mais premiados e requisitados do país. Autor de espetáculos com diversos grupos do país, como Mateus, 10, Conversas Com Meu Pai e O Filho, transita por questões espinhosas sem medo de mexer em feridas. Recentemente, o espetáculo Branco – O Cheiro do Lírio e do Formol, no qual o autor fala sobre o racismo institucionalizado, causou controvérsia.

“Percebo que esse desconforto é fala do meu teatro como um todo. Faço questão de colocar no palco aquilo que é ruim, que nos desagrada em nós mesmos, o que não gostaríamos de ser, mas somos. Quando me proponho para abrir espaço em cena para que essas coisas respirem, é arriscado e naturalmente vai gerar conflito. O consenso me incomoda e acho que no Brasil as questões incômodas existem, mas tendem a ficar em silêncio. A pessoas não quererem tratar dessas questões, mas uma coisa é certa: vivemos em um dos lugares onde o silêncio mais fala”, afirma.


Serviços

Trilogia Abnegação, do Tablado de Arruar – de 8 a 10 de maio, sempre às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Informações: 3355-3320

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