Qual a graça da realidade se não for entendida como o resultado de algo maior, o ponto visível de uma raiz menos legível e deliciosamente poética? Se o ofício artístico já é, por si só, a habilidade de tornar menos vazia a superfície, o paraibano radicado em Pernambuco Marcelo Coutinho se apossou do desafio de examinar essa passagem, da formação da linguagem artística. Se as obras de arte são quase sempre ponderadas por estudos e análises, aqui o sentido é contrário. O estudo do artista, mais especificamente seu trabalho de pós-graduação, resultou na mostra Ele moía a escuridão, que inaugura, hoje, às 19h30, no Santander Cultural para convidados e, a partir de amanhã, para o público em geral.
A exposição fica em cartaz até 30 de setembro e é a terceira e última da edição 2012 da série Arte Contemporânea de Pernambuco. Antes de Marcelo, vieram as mostras de Márcio Almeida e Roberto Lúcio, todas elas com a curadoria do carioca Marcelo Campos.
Quando o curador recebeu de Marcelo Coutinho sua a tese, intitulada Isso, uma espécie de autobiografia na qual o autor discorre sobre o processo artístico, estava certo que as páginas do livro, elas mesmas, deveriam comandar a mostra. A tese do artista está longe de ser enquadrada nos moldes acadêmicos e é um livro objeto para ser lido e sentido. “É um livro em dois, as páginas do lado esquerdo são pretas com letras brancas. No direito, as páginas são brancas e letras pretas, como o normal. Quando Marcelo Campos leu, disse que as páginas pretas deveriam ser levadas às paredes da exposição”, conta o artista.
Nesse lado obscuro da tese, o autor se desvenda. São revelados, entre fotos e montagens, trechos de diários coletados durante anos, cuja primeira frase, datada em 1986, não é aleatória: “Ele moía a escuridão”. O pronome alerta que as confissões que estão por vir são de alguém que se colocou na condição de objeto.
Além do projeto no Santander, Marcelo também se prepara para participar da 30ª Bienal de São Paulo, que acontece entre 7 de setembro e 9 de dezembro de 2012.
Ele moía a escuridão, hoje, às 19h30, para convidados. A partir de amanhã para público em geral, no Santander Cultural (Av. Rio Branco, 23, Bairro do Recife). Informações: 3224 1110
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