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Arquitetura

Arquitetura do front: projeto de escola no Coque está na Bienal de Veneza

Ao quebrar o padrão de confinamento das escolas públicas, os pernambucanos Lula Marcondes, Chico Rocha e Bruno Lima foram selecionados para o evento mais importante da arquitetura mundial

Publicado em 25/05/2016, às 05h49

Bruno Lima, Lula Marcondes e Chico Rocha entre os alunos da Escola Novo Mangue: projeto está entre os selecionados da Bienal de Veneza / Sérgio Bernando / JC Imagem
Bruno Lima, Lula Marcondes e Chico Rocha entre os alunos da Escola Novo Mangue: projeto está entre os selecionados da Bienal de Veneza
Sérgio Bernando / JC Imagem
Bruno Albertim

Nem o ‘milionarismo’ de Dubai, o artesanalismo funcional da Bauhaus ou mesmo a perda das identidades nacionais no vazio concreto da modernidade - tema, aliás, do evento no ano passado. Este ano, sob direção do controverso e celebrado chileno Alejandro Aravena, a Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza quer discutir a arquitetura de lugares aonde a arquitetura não costuma chegar. Com o tema “Reporting from the front”, o evento apresenta, pela primeira vez, entre suas centenas de trabalhos, um projeto do Recife.
A partir do próximo dia 27, a elite da arquitetura mundial discute, entre suas pautas, o quão inovador é o projeto de uma escola municipal no sempre estigmatizado bairro do Coque. Amanhã, os sócios Lula Marcondes, Chico Rocha e Bruno Lima, amigos desde os bancos na faculdade na UFPE, embarcam para a Itália com fotos e croquis da Novo Mangue, unidade de ensino público no bairro. A participação dos pernambucanos no evento que tem o poder de sinalizar os caminhos que o desenhar e o construir devem tomar no Ocidente é, para eles, a culminância de uma trajetória de arquitetura assumidamente engajada. Desde que formaram, recém-graduados, o escritório O Norte - Oficina de Criação, têm aliado o trabalho mais “convencional e comercial” a projetos em comunidades periféricas, quilombolas e até aldeias indígenas.
“Temos, por questões de formação e princípios, procurado trabalhar desde o começo com um público aonde, de certa forma, a arquitetura não chega. Ou chega de uma forma muito pouco apropriada”, diz Marcondes. Com os projetos de O Norte, os três pernambucanos na faixa dos 40 anos de idade acumulam prêmios como o “Jovens Arquitetos 2004”, do IAB-São Paulo e Museu da Casa Brasileira, e o próprio concurso organizado pelo UNICEF e Prefeitura do Recife para a Escola Novo Mangue voltada à educação ambiental em 2002. “Isso aqui antes era um local de desova de cadáveres. Mas o Coque, desde seu início, tem um histórico de resistência e uma das funções da arquitetura é justamente humanizar o lugar”, diz Chico Rocha.
À primeira vista, pode-se estranhar porque um projeto tão sóbrio como o da Escola Novo Mangue pode estar no evento mais cobiçado pela elite da arquitetura mundial. Concretamente, o projeto da escola não tem qualquer dos exibicionismos estilísticos que, de Groupius e Niemeyer, dão ao arquiteto o fleuma de artista. Prova de que a arquitetura no século 21 relembra que estética não pode ser conjugada para além da ética, o projeto de O Norte chamou a atenção de Veneza justamente pelas soluções de uso no seu ecossistema social de fronteira. “O padrão das escolas públicas, não apenas no Recife, mas no Brasil, é de prédios sem comunicação com o exterior, por questões de segurança. Apenas não seguimos esse padrão de confinamento”, diz Bruno Lima.


Na construção do prédio de cerca de 700 metros quadrados, dois elementos aparentemente inconciliáveis se harmonizam: a escola consegue manter a segurança de uma forma integrada com o mundo externo. A solução foi rasgar as salas de aula para o alto, com pergolados gigantes fazendo as vezes de janelas para o céu. Nas paredes internas, uma renda de cobogós permite a circulação de vento e luz. “Cada sala tem um jardim interno porque uma das premissas do projeto era a alta performance ambiental com poucos recursos”, diz Marcondes, sobre o prédio aparentemente sem janelas que, de longe, parece uma pedra porosa.
Curador brasileiro da Bienal de Veneza, Washington Fajardo selecionou, dentre outros, um projeto do artista Vik Muniz para uma favela carioca e a casa de uma doméstica na paulistana Vila Matilde. Não por acaso: o chileno Aravena ganhou o Pritzker 2016, prêmio máximo da arquitetura mundial, com o projeto de uma série de “puxadinhos” - construções de moradias populares nos arredores de Santiago deixados pela metade para que seus futuros ocupantes os completassem. Se o diretor de Veneza indica, o caminho é claro: a arquitetura já não cabe nas fronteiras do porcelanato onde o mercado gosta de encarcerá-la.

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