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Memória

Obras do acervo da Escola de Belas Artes passam por restauro

Projeto capitaneado pela UFPE culminará em exposição

Publicado em 07/12/2016, às 14h01

Márcio Bastos
No casarão número 157 da Rua Benfica, na Madalena, o tempo parece obedecer a um ritmo particular. Em contraste à agitação dos arredores, Nilse Fontes passa as tardes no espaço, onde funciona o Centro Cultural Benfica, executando um trabalho que exige tempo, atenção e afeto. Ela está à frente do restauro de obras do acervo da Escola de Belas Artes de Pernambuco, instituição seminal na disseminação das atividades artísticas no Norte/Nordeste. Por seus cuidados, passarão obras de mestres como Francisco Brennand, Augusto Bracet e Reynaldo Fonseca.

Fruto de projeto coordenado pela museóloga Penélope Bosio (ver vinculada), em comemoração dos 70 anos da Universidade Federal de Pernambuco, o processo de restauro, para Nilse, é marcado por memórias afetivas. Aluna da Escola de Belas Artes, ela teve como professores grandes nomes das artes plásticas, como Vicente do Rego Monteiro e Reynaldo Fonseca. Quando a reportagem do JC visitou o espaço, inclusive, era de Fonseca uma das obras sob seus cuidados. 

“Foi um dos períodos mais importantes para mim enquanto pessoa e artista. Fiz parte da primeira turma de pintura e lá dei meus primeiros passos nos trabalhos de restauração. Era um ambiente muito rico artisticamente, efervescente”, relembra.

Em parceria com a filha Natalie, ela trabalha de segunda a sexta-feira, das 14h às 17h, na recuperação de sete obras do acervo da Escola, que foi fechada em meados dos anos 1970, quando seus alunos e professores foram transferidos para o Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE. Por suas mãos passaram quadros de Eliseu D’Angelo Visconti, Ivone Visconti, Reynaldo Fonseca, Daura Melo, Mário Nunes, Francisco Brennand e Augusto Bracet.

“Nosso trabalho tem como princípio respeitar o tempo da obra e buscar que ela tenha uma conservação duradoura. Primeiro, os quadros passaram por uma avaliação, com testes químicos, luzes especiais, para determinar os problemas, identificar se já houve intervenção, por exemplo. Após essa etapa, mapeamos as necessidades de cada obra e decidimos os procedimentos a serem seguidos. No geral, os exemplares do acervo estão em condições entre bom e razoável, graças ao armazenamento na reserva técnica”, explica.

Como forma de aproximar o público tanto do processo de restauração, quanto das obras em si, as atividades têm sido abertas ao público. A experiência, segundo Nilse, tem sido enriquecedora, principalmente por dar visibilidade à profissão.

“Somos como médicas das obras e nossa função é garantir que ela tenha o máximo possível de durabilidade. Então, poder receber o público é também nossa contribuição social para reforçar a importância do trabalho de restauro e conservação das obras. Enquanto profissão, por exemplo, só fomos reconhecidos há pouquíssimo tempo”, pontua.

A visitação acontece durante todo o período de trabalho das restauradoras. As atividades, este ano, seguem até o dia 16 e retornam dia 2 de janeiro. A expectativa é que o restauro das sete obras seja finalizado no final de fevereiro. 

PROJETO

Museóloga do Centro Cultural Benfica e coordenadora do projeto de restauro das obras do acervo da instituição, Penélope Bosio revela que a pesquisa e catalogação das obras do acervo teve como base o livro Memórias de uma Cruzada. A Escola de Belas Artes de Pernambuco: Sua Criação e Sua Vida, de Joel Jaime Galvão, segundo gestor da Escola de Belas Artes de Pernambuco e um de seus maiores entusiastas.

“Ele sempre ia ao Rio de Janeiro e aproveitava para entrar em contato com o que estava sendo produzido em outros Estados e nos outros países, trazendo para Pernambuco obras importantes. Ele deu início ao projeto da pinacoteca na sede da instituição, que fica no casarão número 150, que contou com doações de professores, alunos e artistas”, explica.

Ao lado de Mariza Monteiro, Ícaro Cavalcanti e Sofia Vilela, ela se dedica ao trabalho de pesquisa deste acervo. Segundo levantamento da pesquisadora, 61 obras da reserva técnica necessitam de algum tipo de restauro. O acervo encontra-se sob a guarda da Diretoria de Cultura, da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFPE, desde o final da década de 1970.

O desejo de Penélope é que todas essas obras estejam em suas melhores condições o mais breve possível, mas, por enquanto, apenas sete vão passar por intervenções devido a questões financeiras. 

“As obras escolhidas não são, necessariamente, as que estavam em piores condições. Fizemos uma escolha com um critério quase de curadoria para este primeiro momento, levando em conta alguns aspectos, como a importância das obras”, explica. 


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Além das pinturas, o acervo da Escola de Belas Artes conta ainda com uma grande quantidade de mobiliário, que atualmente está armazenado na antiga sede da instituição, onde hoje funciona a Fundação de Amparo a Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe).

Após o restauro das primeiras obras, a expectativa é que, ainda no começo de 2017, seja montada uma exposição em homenagem à Escola.

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