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História

Revolução de 1817 inspira exposição coletiva

A mostra 17 por 12 entra em cartaz hoje na galeria Arte Plural

Publicado em 10/01/2017, às 19h32

No detalhe da obra de Daaniel Araújo, populares cercam o Forte do Brum / Divulgação
No detalhe da obra de Daaniel Araújo, populares cercam o Forte do Brum
Divulgação
Bruno Albertim

Escura e sufocada, a cidade do Recife precisava trabalhar dia e noite para pagar a ostensiva iluminação pública do Rio de Janeiro ocupado pela corte portuguesa tangida às pressas da Europa por um guloso Napoleão Bonaparte engolindo o máximo de fronteiras possível. Cansada, explorada e disposta a parar de pagar os impostos cada vez mais pesados, a elite pernambucana resolveu, então, que não faria mais parte do Brasil. Há 200 anos, maçons, comerciantes e mais de 50 padres deflagraram o episódio que ficaria conhecido como Revolução de 1817, um dos marcos da identidade coletiva pernambucana e sempre fonte de narrativas e representações. A mais nova delas pode ser vista hoje, com abertura da exposição17 por 12, em que elementos e fatos do período são tratados por doze artistas pernambucanos (ou aqui radicados).

“A Revolução de 17 é uma dos episódios que alimentaram o que viria a ser a pernambucanidade”, diz o artista e crítico de arte Raul Córdula, curador da exposição que, idealizada por Ricardo Leitão, presidente da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), tem sede na galeria Arte Plural, no Recife Antigo. Convidados, os artistas foram estimulados a refletir sobre temas e episódios de 1817 esmiuçados pelo próprio curador e pela jornalista e socióloga Olívia Mindêlo. “As obras seguem uma ordem mais ou menos cronológica”, afirma Córdula. Em formatos e técnicas variadas, as obras são assinadas por Jeims Duarte, Helder Santos, Daaniel Araújo, Bruno Vilela, Beto Viana, Plínio Palhano, Jéssica Martins, Gio Simões, Roberto Ploeg, George Barbosa, Renato Valle e Rinaldo Silva. 

A primeira obra é uma tela do paraibano radicado no Recife Jeims Duarte, chamada Maçons planejam a rebelião em reunião, uma obra de título exatamente literal, sobre a arquitetura do levante na loja maçônica Conciliação, endereço tão importante quanto discreto atrás do Cine São Luiz, no centro do Recife, onde os membros da sociedade secreta começaram a traçar os planos de independência republicana. Capitão Leão Coroado rejeita voz de prisão e mata o brigadeiro Manoel Barbosa, de Helder Santos, narra o fato que deflagrou o levante, quando o brasileiro matou com uma espada o militar português. Na tela, aparecem ainda as três estrelas alusivas às províncias da Paraíba, de Pernambuco e do Rio Grande Norte, na então bandeira revolucionária.

Na quadro de Daaniel Araújo, populares armados com o que encontrassem pela frente cercam o forte do Brum em que o governador Caetano Pinto de Miranda se refugiou antes de fugir para o Rio de Janeiro onde vivia a corte portuguesa. Solene, reverencioso Bruno Vilela assina a tela em que aparecem as silhuetas dos oito integrantes do governo provisório. Beto Viana assina Bênção Pública da Bandeira de Pernambuco. Plínio Palhano dá forma ao Casamento de Domingos José Martins e Maria Teodora.

Maracatus são liberados e desfilam pelas ruas do Recife, tela de Jéssica Martins, mostra como os cortejos populares de maracatu passaram a ser incentivados pela elite regionalista como recusa aos hábitos e valores portugueses - era uma época em que a cachaça de cana de açúcar substituía o vinho europeu e mandioca entrava na hóstia das missas de padres republicanos. “O ideário da representatividade popular cresceu muito com revolução”, lembra Córdula.

O holandês radicado em Olinda Roberto Ploeg pinta a chegada das tropas imperiais ao Recife para reprimir o movimento. A George Barbosa, soube retratar a batalha derradeira, do Engenho Trapiche. “A exposição está vontade em estações, como se fosse uma via-crúcis”, comenta o curador. 

Renato Vale, seguindo o percurso, pinta o suicídio do padre João Ribeiro, que preferiu a morte a se entregar. Preciosista, seu desenho traz a inscrição “Pernambuco esquartejado” diante da cruz da igreja do Corpo Santo onde a cabeça do religioso ficou exposta, como ameaça e novos levantes, por dois anos. 

O quadro de Rinaldo Silva também trata de outro episódio seminal: Líderes da revolução são enforcados em praça pública. No então Largo do Erário, atual Praça da República, foram enforcados os padres Domingos Teotônio, Ignácio Nóbrega, José Barros Lima, o Leão Coroado, e o também padre (vigário) Pedro de Souza Tenório. Contunde e direto, o óleo sobre papel de Gil Simões traz as marcas sangrentas de um tiro contra a parede no quadro Padre Roma é morto na Bahia.

FÉ E POLÍTICA

“A participação dos religiosos foi tão grande na revolução que o evento ficaria conhecido também como Revolução dos Padres”, lembra Córdula. “Foi um episódio definidor da pernambucanidade. Primeiro, porque foi o primeiro governo independente de Portugal. Além dos padres, todos martirizados, houve uma união incomum em torno de um ideal, de um desejo republicano, de forma rara, se viu a igreja e maçonaria juntos. Tem muita lógica de se pensar numa visão simbolista, de se pensar, por exemplo, na importância que o maracatu tem até hoje”. Ainda no elenco, Beto Vianna, retrato o antigo símbolo com Assombração da Bandeira.

Como conjunto, os quadros da mostra 17 por 12 confirmam a pintura histórica como uma das práticas pictóricas mais constantes do Brasil. De Pedro Américo a Brennand ou Tereza Costa Rêgo com suas leituras da Batalha dos Guararapes, a história tem catalisado grandes narrativas visuais no País.

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