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Exposição

Museu do Estado: acervo exposto vigorosamente renovado

Em Pernambuco, Território e Patrimônio de um Povo, Mepe apresenta seu precioso acervo reordenado

Publicado em 10/08/2017, às 12h33

Com mais de 15 mil peças, acervo do Museu do Estado de Pernambuco é um dos mais amplos do País / Sérgio Bernardo / JC IMAGEM
Com mais de 15 mil peças, acervo do Museu do Estado de Pernambuco é um dos mais amplos do País
Sérgio Bernardo / JC IMAGEM
Bruno Albertim

Uma frase perdida no caudaloso Antropologia Estrutural, de Claude Lévy-Strauss, parece fazer mais sentido no antigo e enorme palacete do século 19 que marca a paisagem do outrora aristocrático bairro das Graças: “O objeto guarda a memória do tempo”. É a impressão, mais enérgica, que temos, ao percorrer a exposição Pernambuco, Território e Patrimônio de um Povo - na verdade a reordenação do acervo precioso do Museu do Estado de Pernambuco, fruto de um trabalho minucioso de dois anos de uma equipe sob o comando dos antropólogos Renato Athias e Raul Lody, que está disponível para o público a partir de amanhã.

Depois de quase 20 anos, o prédio anexo ao casarão teve sua exposição permanente reordenada: menos de 30% do que estava exposto permanece. O mais importante: com um total de 15 mil a 19 mil objetos em seu acervo ainda não detalhadamente catalogado, o público tem acesso agora a peças que estavam confinadas na reserva técnica recentemente reestruturada. A exposição é uma parceria com o Santander Cultural.

Criado na antiga residência do Barão de Beberibe, o museu surgiu em 1929 na esteira do pensamento patrimonialista da modernidade: tanto como precisava preservar um patrimônio em ameaça, a própria ideia de tradição era essencial como contraponto a essa nova era. A exposição, contudo, não cai na velha armadilha que estruturou parte do pensamento moderno brasileiro: a de que é possível contar a “personalidade histórica” do País a partir do triângulo étnico formador da nacionalidade simplificado pela tríade português-negro-índio.

“Não caímos nessa narrativa”, resume Lody. “A escolha do título da exposição está em sintonia com a história de Pernambuco, que ultrapassa as fronteiras territoriais, com forte relação não apenas com o Brasil, mas com diferentes países. Historicamente, Recife chegou a ser a região mais cosmopolita das Américas”.



Com peças de mobiliário, vestuário, utilitários e obras de arte como as paisagens, físicas e humanas, de pintores como Teles Júnior, Cícero Dias, Samico, Bajado e Mário Nunes, várias delas úteis para a construção da própria ideologia do que seria o Nordeste, a nova exposição se estrutura em territórios narrativos. Entre eles, da ecologia, da arqueologia, dos povos autóctones, além de intervalos dedicados ao açúcar e o pau-brasil como força social.

MENTALIDADES SOCIAIS

É também uma exposição das mentalidades mobilizadoras dos padrões culturais. No módulo dedicado ao açúcar, por exemplo, uma cadeira de madeira suspensa sobre utensílios de antigos engenhos está disposta, como instalação, ao lado de antigos oratórios de famílias. Uma maneira visualmente elegante e estimulante de refletir sobre como a religião e a economia casavam-se pelo poder do patriarcado. Das peças do xangô pernambucano, a maior parte é proveniente de delegacias de polícia, apreendidas durante os anos Vargas de repressão aos cultos de matriz africana.

Do acervo, destaca-se a grande coleção etnográfica de povos indígenas de Carlos Estevão, iniciada nos anos 1930. “É uma das quatro mais importantes do País”, diz Athias. “Conseguimos também expor gravuras em pedra, pré-históricas, recolhidas antes da Barragem de Itaparica”, diz ele, lembrando de um pequeno tesouro: o mapa etnolinguístico feito por Curt Nimuendajú (1883-1945) em 1936, referência internacional para fontes bibliográficas sobre os povos originais no Brasil.

“Pela delicadeza do mapa, original, ele ficará exposto por apenas um mês”. A expografia de Rinaldo de Carvalho, densa, não respeita as tendências clean da museologia contemporânea, mas está em plena consonância com a curadoria: a história, afinal, se dá em camadas sem fronteiras estanques.

Museu do Estado de Pernambuco – Av. Rui Barbosa,960, Graças.


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Comentários

Por Jaime,11/08/2017

Estive na vernissage. Lévi-Strauss não se escreve com ipsilon.



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