Jornal do Commercio
Fotografia

Ricardo Labastier tinge de vermelho o açúcar violento do Brasil

Fotógrafo usa o produto histórico da cana para problematizar a constituição do País

Publicado em 14/11/2017, às 06h47

CAPELA (detalhe): religiosidade para repensar a violência do açúcar / Ricardo B. Labastier / Divulgação
CAPELA (detalhe): religiosidade para repensar a violência do açúcar
Ricardo B. Labastier / Divulgação
Bruno Albertim

Para Gilberto Freyre, dos bolos e receitas de família, que “constituem formas de estar no mundo”, à arquitetura basilar e mesmo aos afetos e ao nosso erotismo tropical, nada prescindiria à presença do açúcar - “Sem açúcar”, escreveu ele categoricamente, “não se entende o homem do Nordeste”. Já o antropólogo Sidney Mintz discorreu longamente sobre como sem “O poder amargo do açúcar” (título de seu livro mais conhecido a respeito), não haveria o trágico trinômio latifúndio, monocultura e escravidão. O subxtrato mais notório da cana sacarina segue sendo ponto de partida para a problematização da complexa constituição sociológica brasileira. Hoje, o fotógrafo Ricardo Labastier acrescenta um delicado ensaio às questões tão brasileiras como o nada inocente pó doce com a exposição Assucar - usando, não por acaso, a grafia original do produto nesta margem do Atlântico.

Um dos autores de musculatura no panorama da fotografia contemporânea brasileira, Labastier talhou talento em anos de prática em algumas das principais redações do País - o Jornal do Commercio e o Correio Brasiliense, entre elas. Obras suas fazem hoje parte de coleções de referência, como a Pirelli/Masp de Fotografia Brasileira e a do MAMAM – Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães. Depois de algumas séries em que tinha o corpo como elemento central de reflexão, trabalhar sobre o açúcar lhe ocorreu quando, há dois anos, presenciou justamente a queda de um corpo em Olinda. O homicídio prosaico de um homem que tantava apartar uma briga de rua na Rua do Amparo o fez perceber que aquele assassinado era, historicamente, uma vítima do açúcar. Como disse o curador José Afonso Chaves, ao selecionar as 18 imagens da mostra, “o açúcar é uma sentença”.

“Eu acho que o Brasil é o país dos equívocos, dos extremos. Caloroso, lindo, mas muito complexo. O açúcar, sim, é uma sentença porque está em nossa formação monocultural. Esse mesmo açúcar que trouxe tanta riqueza para alguns, trouxe tanta violência para outros. Essa mistura e contrastes são o retrato do Brasil, formado sob o tom de extremos, sob o sangue de índios e negros, com o fervor do catolicismo e da religiosidade africana”, diz Labastier.



VERMELHO

Nesta série de trabalhos, Labastier se sente, de alguma forma, traidor da fotografia como a arte e a linguagem que o acompanham há mais de vinte anos. A série condensa 17 trabalhos produzidos desde 2015. As composições aparentemene abstradas do fotógrafo são obtidas, numa espécie de ritual personalíssimo, com cera derretida sobre placas de vidro. A fotografia apenas registra o resultado de cada composição, logo destruída para dar vez a uma nova imagem. Moedas, fitas, cordas e outros objetos acrescentam brasilidades narrativas ao conjunto e novas camadas dramáticas. “É mesmo uma espécie de traição”, ele confirma.

Não por acaso, as imagens trazem o açúcar pessoal de Ricardo Labastier impresso em cera vermelha. “Poderia usar outras cores, mas uso o vermelho porque é uma cor dos extremos. Nesse país cheio de contrastes, ele tá na paixão, na roupa do padre, do Papa, no pau-brasil, e no sangue derramado dos miseráveis. Apesar de a gente ver o açúcar como um produto branco na mesa, o vermelho quer ressaltar os contrastes dos equívocos, do sangue derramado. Está nos dois pontos”.

"Assucar” de Ricardo Labastier. Na Arte Plural Galeria (Rua da Moeda, 140, Bairro do Recife. Abertura, hoje, 19h, para convidados. Para o público, a partir de amanhã. Informações: 3424-4431.


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