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TELEVISÃO

Amores roubados começou cenas quentes, mas repetiu clichês

Minissérie da Globo é baseada na obra do pernambucano Carneiro Vilela

Publicado em 08/01/2014, às 06h02


Ernesto Barros

Dira Paes e Cauã Reymond / Estevam Avellar/Divulgação

Dira Paes e Cauã Reymond

Estevam Avellar/Divulgação

Adultério, ciúme, sexo, ganância, dinheiro e morte. O primeiro capítulo da minissérie Amores roubados, que estreou na noite de segunda-feira 906/01), na TV Globo, mostrou em seus primeiros 40 minutos um aperitivo do que será desenvolvido nas duas semanas em que estará no ar. O caldeirão de emoções e ambições, que fizeram a glória do folhetim A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela, ganharam atualização pelas mãos do roteirista pernambucano George Moura. Só faltou, nos créditos, citar o nome da obra na qual o roteirista foi buscar inspiração.

A minissérie traz a mesma equipe técnica de O canto da Sereia, exibida há uma ano. Além de Moura, estão por trás das câmeras o diretor Jozé Maria Villamarim e o diretor de fotografia Walter Carvalho. À frente das câmeras, volta a estrelinha Ísis Valverde. Ela é Antônia, a filha de um rico dono de vinícola no sertão pernambucano, que se transforma em um dos ângulos do quadrilátero amoroso envolvendo a mãe (Patrícia Pilar), uma amiga da família (Dira Paes) e o sommelier Leandro Dantas (Cauã Reymond).

O primeiro capítulo já começou quente com a anunciação de uma possível morte e uma extensa rede de traições, relações ambíguas e acertos de contas. A cota de violência e sexo, que sempre se espera em programas apresentados no horário, foi mostrada logo de cara, com destaque para a desenvoltura de Dira Paes, que, aos 44 anos, esbanja sensualidade e um corpo super em forma.

Entrevistas:

Anco Márcio Tenório Vieira, professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE

1. Qual a primeira impressão que você teve ao assistir ao capítulo inicial da adaptação televisiva de A Emparedada da Rua Nova? 

Ao contrário do romance de Carneiro Vilella, que alia a técnica do romance policial aos recursos do romance folhetim, isto é, vai revelando ao leitor, pouco a pouco, por meio de várias peripécias e reconhecimentos, as camadas mais profundas da trama, a minissérie colocou na mesa quase todas as cartas que urdem a estória. Inclusive já revela ao leitor qual é o destino do personagem de Leandro Dantas. Senti falta da sutilidade e da delicadeza que faz com que o romance de Vilella se construa dentro de uma dialética entre tensão e desenlace da ação.

2. Você acredita que a atualização para a época atual e a mudança do lugar onde a história se passa trouxeram uma releitura significante ao romance de Carneiro Vilela? 

Olha, primeiro eu acho que qualquer adaptação de uma obra literária — seja para o teatro, seja para o cinema — é uma tentativa de traduzir uma linguagem em outra. Logo, toda adaptação é, antes de tudo, uma leitura de uma dada obra. No entanto, quando você desloca uma trama que se passa em meados do século XIX para o sertão economicamente dinâmico do século XXI, alguns princípios morais que são definidores dos personagens parecem que ficam deslocados. Querer encontrar no sertão do século XXI os mesmos valores de 150 anos atrás, termina por levar o roteirista da minissérie a reforçar determinados preconceitos que recaem sobre essa região. No caso, é ver no sertão o espaço que resguarda determinados princípios morais e éticos que há muito foram preteridos no Brasil litorâneo. Mais uma vez caimos na velha imagem fixada por Euclides da Cunha em Os Sertões: de um lado, o Brasil moderno (leia-se, o Brasil do Sul e Sudeste); de outro, o Brasil profundo, o do Sertão, aquele que não se deixa contaminar de todo pela modernidade e, por decorrência, se faz depositório dos nossos arcaísmos. 

3. Você acha que a minissérie pode angariar novos leitores para o romance e torná-lo mais conhecido nacionalmente? 

Não, pois os créditos da minissérie apenas declinam que ela é baseada na obra de Carneiro Vilella, mas não dizem qual obra. Além do que, o leitor vai entrar na livraria, ver a obra de Vilella na estante, e não vai relacionar o seu título com o título da minissérie. Vamos combinar que Amores roubados é um títuo muito distinto de A Empardada da Rua Nova. 

4. Quais aspectos da adaptação são positivos e/ou negativos para você? 

O aspecto positivo seria o desafio de adaptar a obra para o cenário do século XXI e para um sertão que poucos brasileiros conhecem. O lado negativo é que mesmo mostrando esse sertão do século XXI, os esteriótipos construídos sobre a região continuam prevalecendo. Um exemplo, o personagem de Murílio Benício — Jaime Favais —, apesar de ser um empressário moderno, que trabalha com um produto refinado — o vinho — continua agindo como um coronel tradicional: seja nas relações interpessoais, seja no modo de falar, seja como tenta gerir a sua família e os seus negócios. É como se através desses esteriótipos os expectadores dos grandes centros urbanos, particularmete do Sul e Sudeste, pudessem reconhecer a imagem já sedimentada que eles têm do sertão. Muda-se o cenário, mas não tão radicalmente que o expectador mediano veja as suas expectativas contrariadas.

5. Como você situa A emparedada da Rua Nova dentro da literatura pernambucana e brasileira? 

Como romance-folhetim, A emparedada da Rua Nova é certamente uma das realizações mais bem acabadas da nossa literatura oitocentista. E isso é importante no momento de ler esse romance, pois o leitor que buscar nesse livro de Vilella Machado de Assis, Raul Pompéia, Tolstói ou Dostoievski, como parece defender o jornalista Luiz Rebinsski, em recente matéria para a Revista da Cultura, vai se decepcionar. Ele vai ler um romance-folhetim, e é como romance-folhetim que essa obra precisa ser lida e julgada. Isso serve tanto para Carneiro Vilella quanto para Os Mistérios de Paris, de Eugene Sue, Os três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, ou Mattos, Malta ou Matta?, de Aluízio Azevedo.

6. À principio, o folhetim cedeu lugar a uma trama policialesca e erótica. Isso confere para você também?

O romance-folhetim encerrava todos esses modos literários: o policialesco, o erótico, o exótico, e tudo mais que pudesse prender a atenção do leitor. O importante é observar que no romance A Emparedada nenhum desses elementos existe como um excesso, como algo a mais, que existe apenas para preencher a atenção do leitor, e sim como partes essenciais da urdidura da ação. O livro de Vilella encerra todos s elementos de um bom romance: crime, adultério, inveja, cobiça, falso-moralismo, hipocrisia. Vilella urde tudo isso muto bem. Saberá o autor da minissérie fazer o mesmo?

 

Alexandre Figueirôa, crítico de cinema e professor da Unicap

1.Qual a primeira impressão que você teve ao assistir ao capítulo inicial da adaptação televisiva de A Emparedada da Rua Nova? 

Pra mim o folhetim de Carneiro Vilela pelo que eu lembro quando li trata de uma história universal: traição que pode ser adaptada para qualquer lugar ou período.

2. Você acredita que a atualização para a época atual e a mudança do lugar onde a história se passa trouxeram uma releitura significante ao romance de Carneiro Vilela? 

Num primeiro momento estranhamos Amores Roubados por já de cara trazer elementos do audiovisual contemporâneo muito longe do Recife do séc 19. Mas quando os personagens vão se delineando emergem coisas que nos remetem ao romance de Vilela tanto do caráter e comportamento deles.

3.Em termos de narrativa audiovisual, o que você achou de mais interessante em Beijos roubados?

O primeiro episódio prende atenção e desperta interesse. O elenco está bem e afinado. A prosódia me pareceu adequada e a presença de ótimos atores nordestinos dão equilíbrio a este aspecto.

4.Você destacaria alguma coisa negativa, algo que você acha não funciona, já a partir deste primeiro capítulo?

Não vi nada negativo a destacar pelo menos nesse episódio, talvez coisas como o salto de Antônia tipo esporte radical pra dizer que ela é destemida. Pra mim soa meio clichê.

 

Iara Campos, produtora teatral da peça A paixão de Clotilde por um certo Leandro Dantas

1. Qual a primeira impressão que você teve ao assistir ao capítulo inicial da adaptação televisiva de A Emparedada da Rua Nova?

Gosto da velocidade em que as coisas acontecem e da forma que eles organizam a trama, nos joga num mundo de tensão e suspense, tal qual o livro original, apesar de as duas tramas acontecerem em épocas diferentes. 

2.Você acredita que a atualização para a época atual e a mudança do lugar onde a história se passa trouxeram uma releitura significante ao romance de Carneiro Vilela?

Absolutamente. Eles mantêm o ingrediente principal que faz o livro ter o peso que tem: a tensão. Trazer uma releitura do romance para os dias atuais, tem, entre outros benefícios, a possibilidade de popularizar o livro e fazer com que a história se aproxime mais do que vivemos no nosso dia a dia, tornando-a mais cara ao espectador que, talvez, não tenha interesse em conhecer a obra do Carneiro Vilela.

3.O seu grupo de teatro também adaptou o livro de uma maneira muito livre. O que você destacaria de interessante no trabalho de vocês?

Nosso espetáculo é livremente inspirado no romance de Carneiro Vilela, mas como tínhamos uma ligação muito grande com os melodramas circenses pernambucanos e era esse nosso objeto de estudo, tínhamos uma série de questões que não poderíamos ignorar, como a construção de um final feliz para a história, assim como a introdução de músicas tema para as personagens e com o passar do tempo finalizamos com a construção de um texto que, apesar de manter toda a ação e algumas tensões da história original, era, em sua natureza, uma comédia. Acho que esse é um dos grandes méritos do espetáculo.

4.Você vislumbra algo em comum entre a adaptação do seu grupo e o que você neste primeiro capítulo?

Acho que o que mais se assemelha é a forma como as personagens são apresentadas já no primeiro capítulo. De cara você já tem um perfil de todas as personagens claramente traçado e você já percebe o encaminhamento que terá a trama, pois, já nas primeiras falar você pode identificar as características de cada um, tal qual acontece no nosso espetáculo.

5.Como você analisa a interpretação dos atores globais e a participação dos atores pernambucanos? Há um equilíbrio, algo que mostra que a dramaturgia televisiva respeita a cultura local?

Vi a participação de atores nordestinos, dois que eu conheço que são a Taísa Zoby e o Jesuíta Barbosa. Acho muito bom que haja uma preocupação em introduzir atores locais na trama, pois acho que acrescenta em veracidade e obviamente nos fortalece como referência. As participações que vi ontem de atores nordestinos me deixaram muito satisfeita e acho sim que estamos entrando em um novo momento da TV, mais preocupado em mostrar a diversidade que existe no pais. E que seja assim, não é verdade?

Leia mais informações na edição desta quarta-feira (08/01) no Caderno C, de Jornal do Commercio.

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Comentários

Por Kaio Ribeiro,18/01/2014

Tá de brincadeira que alguns religiosos hipócritas tão vindo aqui escrever que deveriam ter estória falando sobre moralidade!? Pois é , vocês são pessoas ignorantes e cegas do que acontecem nos dias de hoje. Mas quanto a série, realmente achei que eles continuaram com alguns dos clichês do sertão.

Por cintia,16/01/2014

deus abençoe a mim e aos meus reais verdadeiros amigos em nome de jesus!!!

Por Silvana Jordão,10/01/2014

Impressionante como no Brasil tem extraordinários autores e escritores e eles só criam histórias que induzem a imoralidade, a prostituição e ao pecado, os valores familiares são jogados no lixo com com essas exibições, parece que acham pouco as desgraças que vem acontecendo nas famílias mundo à fora. E ainda é chamado de cultura essas coisas. Senhores escritores e autores usem essa inteligencia para mostrar coisas boas da vida, incentivar os valores que andam esquecidos, despertem nas pessoas o amor fraterno, familiar e respeito com o ser humano e o próprio corpo, sem falar no temor a Deus. Somos obra das mãos de Deus e esse tipo de trabalho não mostra isso.

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