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Crítica: feminista, Mulher-Maravilha é a heroína que precisamos

Longa-metragem da personagem é ótimo e deve abrir portas para as mulheres

Publicado em 30/05/2017, às 19h42

Gal Gadot entrega protagonista empoderada / Reprodução
Gal Gadot entrega protagonista empoderada
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JC Online

O papel da mulher ao longo da história sofreu constante apagamento e repressão, fruto de uma cultura machista e, por consequência, misógina. Na cultura, o ponto de vista feminino e suas experiências não encontram o mesmo espaço obtido pelo gênero oposto e, até nos raros produtos que põem as mulheres no centro da narrativa, é comum que essa representação ocorra através do olhar masculino. Felizmente, não é o caso do filme da Mulher-Maravilha, primeiro longa de super-heróis dirigido por uma mulher. A obra estreia amanhã nos cinemas do Brasil.

Super-heroína mais emblemática dos quadrinhos, a Mulher-Maravilha surge pela primeira vez na tirinhas em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial. Personagens como Super-Homem já eram um fenômeno e representavam os valores de bravura, força e honra que inspiravam sentimentos de esperança em meio ao caos. Sua representação, no entanto, sempre foi marcada por controvérsia, pois, ao mesmo tempo em que sua força e inteligência eram destacadas, estereótipos de gênero, em especial relacionados à sexualização da personagem, eram alvos de crítica.

Apesar de uma série de sucesso nos anos 1970, a ideia de adaptar para o cinema a história de Diana, princesa das Amazonas, parecia assustadora demais para os grandes estúdios. Muito disso era devido ao preconceito envolvendo protagonistas femininas, seguindo a lógica de que filmes de ação deveriam ser voltados para o público masculino e que uma heroína não seria capaz de mobilizar a audiência. Se até as animações da Disney já vinham apresentando protagonistas empoderadas e independentes, ainda havia uma lacuna nos filmes de super-heróis.

No que depender do filme dirigido por Patty Jenkins, esse cenário deve mudar. O longa é o primeiro do gênero a ser comandado por uma mulher e esse olhar é sentido durante toda a obra. Na produção, o público é apresentado às origens de Diana (Gal Gadot, ótima), cuja primeira aparição no universo cinematográfico da DC foi em Batman vs Superman (2016).

Filha de Hipólita, rainha das Amazonas, desde cedo ela vive na mítica ilha Temiscira, habitada apenas pelas mulheres guerreiras, e deseja tornar-se uma lutadora tão habilidosa quando suas conterrâneas. A grande motivação de Diana é proteger seu povo e a humanidade, dever que julga sagrado. Sua mãe é contra a ideia, mas ao perceber o destino inevitável da filha, designa seu treinamento à Antíope (Robyn Wright), a mais habilidosa das amazonas.



Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) tem seu avião abatido e cai na ilha, após combate com os alemães, Diana se confronta pela primeira vez com um homem. Não é a curiosidade pelo diferente, no entanto, que move suas ações e, sim, o desejo de combater em defesa dos seus princípios. O cenário é a Primeira Guerra Mundial e a heroína está certa de que Ares, deus da guerra, está por trás do confronto.

Ao contrário dos filmes recentes da DC, como o próprio Batman vs Superman, Mulher-Maravilha consegue apresentar a mitologia da personagem sem apressar o ritmo, encontrando equilíbrio entre ação, humor e drama. As cenas de luta empolgam e, apesar de alguns cacoetes estéticos, como o uso recorrente de slow motion, conseguem apresentar o estilo de luta e as habilidades da heroína com personalidade.

A Diana Prince de Gal Gadot é uma heroína movida pelo desejo de usar seus poderes em prol dos oprimidos. Ao contrário dos filmes recentes do gênero, seu objetivo é melhorar o mundo e não se engajar em um show de destruição e violência promovido por alguns super-heróis. Em momentos como o atual, em que a desesperança, o preconceito e a desigualdade estão à flor da pele, é uma postura que inspira. O discurso feminista permeia a essência do filme, com comentários incisivos sobre desigualdade de gênero e sexualidade. Há um cuidado, inclusive, na representação feminina, cujos corpos não são objetificados.

E talvez seja este um dos maiores méritos de Mulher-Maravilha: é um filme que consegue reforçar a mitologia dos super-heróis de emular aspectos da psique humana, servindo como projeções capazes de nos ajudar a entender nossos problemas e superar nossos fantasmas. Diana vem de um mundo de guerreiras no qual a justiça prevalece e o bem comum é o objetivo maior. O amor, aqui, assume camadas para além do romântico.

No “mundo dos homens”, ela se depara com miséria, crueldade e violência gratuita. Aos poucos, vai aprendendo que não importa o tamanho de sua força, não é capaz de solucionar as mazelas da sociedade, pois ela é composta por seres dúbios, falhos. As linhas entre certo e errado podem até nunca serem borradas pela Mulher-Maravilha, mas ela aprende que o conceito de bem e mal é mais complexo do que supunha.

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