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ENTREVISTA

Maria Casadevall: 'Deus é esse mistério que está presente no mundo'

Atriz está no ar como a sensual Lilith na série 'Vade Retro'

Publicado em 31/05/2017, às 11h17

Maria Casadevall é Rimena em 'Os Dias Eram Assim' / Foto: TV Globo/Divulgação
Maria Casadevall é Rimena em 'Os Dias Eram Assim'
Foto: TV Globo/Divulgação
Karina Craveiro, da Estadão Conteúdo

Na Globo, as noites de quinta são de Maria Casadevall. A atriz está em Os Dias Eram Assim, como Rimena; e em Vade Retro, interpretando a sensual Lilith. Aos 29 anos, a paulistana faz dobradinha nas séries e se mostra múltipla e madura nos papéis. Relembra que o convite para 'Os Dias' foi inesperado e diz que não separa muito vida profissional e pessoal.

Maria foi chamada às pressas para substituir Carol Castro, por conta de uma gravidez, e, no momento, ainda grava as cenas da trama que fala sobre a ditadura militar brasileira. Já 'Vade' foi realizada durante o segundo semestre do ano passado. O ritmo de trabalho é intenso, um filme está por vir, mas não há reclamação. "Eu vivo muito bem entre o 'ação' e o 'corta'. Tudo é uma construção. Às vezes passo uma noite dançando, saio para tomar um café com um amigo, bebo um vinho em casa", resume.

ENTREVISTA: MARIA CASADEVALL

Rimena "abriu os caminhos" em Os Dias Eram Assim e agora você aparece também em Vade Retro...

MARIA CASADEVALL - São personagens muito diferentes e muito desafiadoras. O convite para 'Os Dias' foi inesperado. Rimena é essa jovem idealista, corajosa, forte, médica recém-formada. Já a Lilith é rica de personalidade, tem a dúvida de ela ser ou não real. Isso permite ao ator sair das amarras, das convenções humanas. Ela aparece em situações inusitadas como em um ritual satânico no ambiente de trabalho (risos)...

Por falar em Lilith, ela entrou com a trama já começada. Por que isso?

MARIA - Pois é, eu falo que a Lilith faz uma participação muito especial. Ela é uma dançarina que trabalha na boate do Abel (Tony Ramos) e tem uma relação muito íntima com o patrão, meio duvidosa e difícil de ser compreendida. A gente conhece a Lilith disfarçada de enfermeira para ajudar num plano mirabolante do Abel, que é tentar engravidar a Celeste (Monica Iozzi). Então, quando a Leda (Cecília Homem de Mello), mãe da Celeste, começa a ameaçar o esquema, o Abel recruta a Lilith para entrar na história como enfermeira.

A Lilith tem um visual bem diferente da Rimena. Essas caracterizações importam para as composições dos personagens?

MARIA - Claro! Às vezes, a televisão acaba te colocando sempre no mesmo lugar. E eu achei que, com a Lilith, houvesse uma possibilidade de voar longe com as ideias. Com a caracterização buscamos algumas referências externas. Ela é uma dançarina de boate, que tem características próprias como unha comprida, maquiagem bem forte... daí fizemos uma mistura. Fizeram a proposta do cabelo mais acinzentado e alongamos os fios para compor a enfermeira. Quando fomos gravar as cenas da boate, eu sugeri que a gente pudesse apostar em um caráter irreverente. Conversando com a direção de arte, queríamos uma cor que tivesse a ver com o lugar, e aí chegamos ao roxo.

Na tradição judaica, a Lilith foi criada antes mesmo de Eva e expulsa do paraíso. Foi também o primeiro ser que não aceitou se submeter a um tipo de soberania masculina. Acha especial interpretar um personagem que faz essa referência tão significativa?



MARIA - Sim. Ela é usada por mulheres engajadas na luta por emponderamento. É muito interessante. Acho que essa questão da mulher é um debate que sempre esteve em pauta. O que está acontecendo hoje é uma adesão ampla da discussão, e que vem invadindo vários meios, inclusive o audiovisual, que é extremamente machista. É importante que esse debate se dê não só em pequenos nichos, como foi nas últimas décadas, mas que ele ganhe espaço na sociedade de maneira em geral. Temos que louvar todo e qualquer ato de coragem, principalmente vindo de uma mulher, porque a história é criada por atos de coragem, que vão incentivando outros grupos de mulheres. O antídoto contra o medo é a coragem.

Já deixou de fazer algo por ser mulher?

MARIA - Eu experimento o machismo de uma forma cotidiana, naturalizada... E são coisas que hoje, quando me aproximo ainda mais dessa luta, percebo que até eu reproduzia valores machistas sem me dar conta. Essa foi uma sacada para mim. Eu tenho amigas com histórias de arrepiar...

'Vade' fala sobre o bem e o mal, Deus e o diabo. Você segue alguma religião?

MARIA - A espiritualidade é muito presente em mim, eu tenho muita fé e um respeito pelo mistério das coisas, o mistério que rege o universo. E eu tenho essa relação de respeito com todas as mitologias e rituais, que são presentes em diferentes religiões. Tenho curiosidade antropológica pela religião.

Acredita em Deus?

MARIA - Nossa, que pergunta! Não sei se saberia te responder isso assim. Deus como uma figura feita à imagem do ser humano, julgando o que é o bem e o que é o mal, definitivamente eu não acredito. Outra coisa é sobre esse mistério que está presente no mundo. E é preciso sensibilidade para se relacionar com ele, talvez isso possa ser Deus. Não sei.

Monica Iozzi elogiou seu trabalho e falou sobre um filme que vão fazer juntas...

MARIA - Vou (me) casar com a Monica (risos). Foi uma identificação muito louca e muito imediata entre a gente. Temos uma forma de pensar muito parecida e acabou que trocamos muitas ideias... Ela foi generosa pra caramba. Agora tem esse outro projeto que vai nascer: 'Mulheres Alteradas'. Estamos grávidas dele, na verdade. O diretor é o Luis Pinheiro, que dirigiu as duas temporadas de 'Lili, a Ex' (GNT). É comédia e eu vou ter que explorar uma outra louca. A dificuldade é encontrar esse novo registro, já que é muito parecida com a Lili, aliás. É hora de procurar outro universo. No que isso vai dar, eu não tenho a mínima ideia.

Que horas se diverte ou descansa?

MARIA - Eu vivo muito bem entre o 'ação' e o 'corta'. É um prazer para mim. Não separo o que é trabalho e o que é vida. Tudo é uma construção. Às vezes, passo uma noite dançando, saio para tomar um café com um amigo, bebo um vinho em casa. Quando eu estou no ar, entendo estar na mídia, seguir alguns protocolos, ir aos programas de televisão, faço isso, faço aquilo. Quando não estou, preciso de um recolhimento. Não consigo dar nada se eu não me recolho para me reabastecer. É um processo. É visível que a gente vai amadurecendo sob os holofotes. Eu vejo um amadurecimento, uma mudança de postura, que é próprio de quem vai aprendendo com os erros. A televisão, de todos os meios nos quais já trabalhei, é a que mais oferece a possibilidade de amadurecimento. Você grava, no dia seguinte está no ar e você assiste. Você vê, e, se não gosta, não quer fazer o mesmo. Sabe quais os caminhos são bons ou não. Eu me sinto amadurecendo publicamente, mas precisando desses momentos de recolhimento para processar tudo isso. Eu preciso ser Maria, senão é difícil.


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