Jornal do Commercio
ENTREVISTA

"A literatura se faz sobre bases instáveis"

O autor paulistano Julián Fuks fala de Procura do romance, seu novo livro, que retrata um romancista no angustiante processo de escrita

Publicado em 24/01/2012, às 07h03

Diogo Guedes

Samuel Beckett, no livro Worstward Ho, inédito no Brasil, tem uma famosa passagem, que termina dizendo: “Fail again. Fail better” (algo como “Falhe de novo. Falhe melhor”, em tradução livre). A possibilidade do fracasso, um dos principais temores (e talvez certezas) da literatura contemporânea, é o motor da história de Procura do romance, novo livro do paulistano Julián Fuks. A obra apresenta Sebastián, brasileiro filho de argentinos, que volta para o país portenho para buscar, inutilmente, material para uma narrativa. Nesta conversa, Fuks fala das semelhanças com o personagem e de como não conseguir fazer uma história pode ser o ponto de partida para a construção de um romance.

JORNAL DO COMMERCIO – O que é, para você, o romance, esse objeto tão ansiado no livro por Sebastián? Por que ele parece tão essencial para a nossa época e para épocas passadas?
JULIÁN FUKS –
O romance, tal como surgiu e se desenvolveu nos últimos três ou quatro séculos, é a narrativa do sujeito que perdeu sua essência, que deixou de se reconhecer, que já não enxerga nenhum sentido em sua própria existência. O romance, como diz Lukács, é a epopeia do mundo abandonado por Deus. Sujeitos perdidos que somos, à deriva como parecemos estar, nos vemos impelidos a criar essas histórias semelhantes às nossas vidas, carregadas de realismo e com algum rastro de um lirismo antigo, para que com elas possamos compreender melhor essa ausência de sentido que nos caracteriza. Esse é o romance a que Sebastián tanto almeja, inutilmente: o romance que o contemple por inteiro e o justifique.

JC – A experiência de angústias, rascunhos e falhas de Sebastián no livro é um retrato do seu processo de escrita?
FUKS –
Em grande medida, sim. As dúvidas e os questionamentos que lhe atribuo, essas angústias que o paralisam, quase sempre existiram antes em mim, me acossaram, me perseguiram durante a escrita. Mas há uma grande diferença entre Sebastián e eu: ele é pura negatividade, ele desiste, enquanto eu persisto, e por isso as falhas dele não são minhas. Onde ele fracassa, eu recolho minha narrativa. Onde para ele há apenas anotações esparsas, rascunhos de um texto que não será escrito, para mim há enfim os capítulos que constituem o livro.

JC - No livro, o leitor está sempre à espera do início e da consolidação da narrativa que Sebastián procura. Esse estado de suspensão era o que você buscava deixar marcado na obra?
FUKS –
Acho que sim. Se o leitor compartilha essa espera, se ele pode sentir algo da aflição desse adiamento contínuo, penso que o livro cumpriu um de seus objetivos. Como não há propriamente uma aventura a ser vivida, um desfecho a se alcançar, um enredo a se cumprir, é pela suspensão e pelo estranhamento que eu quis conduzir o leitor livro adentro.

JC – Você comenta no livro que metáforas e memórias muitas vezes são insatisfatórias na criação de uma história. O que sobra para que a literatura construa suas narrativas?
FUKS
Sobra pouco, quase nada, mas não é pelo fato de metáforas e memórias serem insatisfatórias que se possa prescindir delas, dispensá-las. O ponto a ser estabelecido é que a literatura se faz sobre bases instáveis, e que falseia quando se quer absoluta, imperativa.

Leia a matéria completa no Jornal do Commercio desta terça-feira (24/1).

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