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ENTREVISTA

Loyola: "A realidade é mais fantástica que a ficção"

Em entrevista ao JC, escritor paulista fala de sua trajerória literária e comenta os livros que queria ter escrito e os que queria apagar

Publicado em 14/06/2012, às 06h52

Diogo Guedes

Escritor é o destaque desta quinta da Mostra Sesc / André Brandão/Divulgação

Escritor é o destaque desta quinta da Mostra Sesc

André Brandão/Divulgação

Destaque da Mostra Sesc nesta quinta (14/6), o escritor paulista Ignacio de Loyola Brandão começou a publicar nos anos 1960 e construiu até hoje uma trajetória literária respeitada, chegando a ganhar dois Prêmios Jabuti com Zero e O menino que vendia palavras. Nesta entrevista, ele fala da criação teatral e literária e cita um livro que gostaria de “desescrever”: Ágape, do padre Marcelo Rossi.

JORNAL DO COMMERCIO - Você era um rato de dicionário e livros quando mais novo. Foi ali que começou a virar um escritor ou era uma relação diferente com a palavra?
IGNACIO DE LOYOLA BRANDÃO –
Como responder? Como afirmar? Meu pai gostava de ler. Eu gostava de ler. Minha professora era ótima para dar redações. Eu gostava de inventar, era moleque solitário, vivia encerrado em mim, no meu mundo. Começou aí. Como uma maneira de construir um mundo no qual eu me sentisse confortável.

JC – Você disse, aos Caderno de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles, dedicado a você, que seu pai dizia que ler era a forma dele de viajar. Escrever é a sua forma de viajar?
LOYOLA –
De viajar, de sair do mundo, de buscar um lugar onde me sinta à vontade. Sou o personagem de cada livro que leio. Se não me encaixo no personagem, paro de ler.

JC – O quanto a realidade é material para sua ficção?
LOYOLA –
O que é realidade, o que é ficção? A realidade é mais fantástica que a ficção. Mais absurda que a ficção. Literatura é feita de realidade (quanto? Não há fórmulas), de imaginação, de memória, de delírio.

JC – O jornalismo influenciou sua escrita?
LOYOLA –
Acho que sim. No sentido de ser objetivo, economizar palavras, ir logo ao assunto. Começo com um gancho para apanhar o leitor assim como fazia nas reportagens e entrevistas. Além disso, o material de vários livros meus veio do jornalismo. Zero e Não verás nasceram do que cobria como repórter, do que lia, do mundo e do Brasil que a imprensa mostrava e discutia.

JC – Existe um autor que o marcou? Algum livro que você queria ter escrito, que queria desescrever?
LOYOLA –
Gostaria de ter escrito O tempo e o vento, do Erico Verissimo. Gostaria de ter escrito O som e a fúria, de Faulkner. Ou A tragédia americana, de Theodore Dreiser. Ou Angústias, de Graciliano Ramos. Ou Os miseráveis, de Victor Hugo. Quanto a desescrever, no sentido de tornar a página em branco, anular, penso que poderia desescrever porcarias como Ágape, do padre Marcelo Rossi. Mas, para que perder tempo?

JC – Em que é diferente escrever livros sob encomenda e sua produção de ficção?
LOYOLA –
Opostos. Livros institucionais, ou sob encomenda, têm um dono, são em geral documentos sobre uma empresa, um banco, etc. Não posso inventar. Tenho de seguir uma orientação, um briefing. Os outros são meus. Totalmente meus. Crio como quero, quando quero, invento, imagino, ninguém mexe neles, ninguém muda uma palavra, uma palavra. Estes são o sonho. Os outros me ajudam a viver.

JC – Você criou uma peça e teve textos adaptados para o teatro. Como a literatura ajuda a escrever uma peça? E o contrário?
LOYOLA –
Teatro exige uma carpintaria, um conhecimento técnico especifico. Não adianta querer fazer literatura se você não conhece os meios para fazer os personagens viverem num palco. Não sei como noções teatrais possam ajudar a ficção em si, o romance, o conto.

JC – Como você vê o cenário literário hoje? Gosta dos escritores atuais?
LOYOLA –
Vai remando. Tem gente ótima como Luiz Ruffato, Tatiana Salem Levy, João Almino, Rubens Figueiredo. Tenho lido pouco os atuais, envolvido em projetos e mais projetos pessoais. Releio os grandes estrangeiros que me emocionaram.

JC  - No que trabalha atualmente?
LOYOLA -
Acabei de publicar dois livros, ao mesmo tempo, muito diferentes. Acordei em Woodstock, relato de uma viagem pela Nova Inglaterra, onde caminho por dentro dos Estados Unidos, por dentro de mim pela imaginação. Uma viagem na viagem na viagem. O outro é A morena da estação, memórias de um filho de ferroviário. Revivo a época de glamour das ferrovias brasileiras, destruídas. Este livro acaba de ganhar o Premio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Leia a matéria completa no Jornal do Commercio desta quinta (14/6).

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