O escritor e jornalista Samarone Lima sobe devagar ao palco da Torre Malakoff, logo depois de recitais de Carlos Nejar, Marcus Accioly, Luis Serguilha e Ricardo Domeneck no Festival Internacional de Poesia do Recife, no começo do mês. É uma das primeiras vezes que se apresenta como poeta; tem os ombros curvados e, ao contrário do aspecto performático dos demais declamadores, fala seus versos em voz baixa, quase como se para si mesmo. É um evento público, mas o momento parece tão reservado que a sensação é a de que os presentes estão na verdade invadindo a intimidade do escritor.
“Ontem sonhei com meu pai. / Ele estava velho e duro como sempre. / Estava em silêncio / e as lágrimas secas / como sempre (...)”, Samarone declama, quase dizendo um silêncio. Ele sai do palco depois de mais três poemas, vagarosamente como entrou.
No dia seguinte, Samarone passeia pelos bastidores do mesmo festival. Alguém vai falar com ele sobre o recital do dia anterior, e a primeira pergunta do escritor é: “Deu para escutar?”. O interlocutor diz que sim, “claro”, e subitamente recebe um abraço emocionado de Samarone. “Você fez meu dia. Eu tive a impressão de que ninguém conseguiu entender nada. Obrigado, obrigado”.
Samarone ainda fala com cuidado dos seus dois novos livros, os primeiros de poesia, previstos para julho. Ele já tem uma respeitada trajetória como escritor, cronista, blogueiro (um deles sobre o Santa Cruz, sua paixão) e jornalista, com três livros-reportagem, Zé, Clamor e Viagem ao crepúsculo, e um de crônicas, Estuário. Agora, está na fase final de preparação de A praça azul e Tempo de vidro, dois volumes curtos, a serem publicados juntos em uma caixa pela editora Paés.
Mas não tem mais volta. Já estou querendo até ver o livro publicado, ouvir os comentários.
Samarone Lima, jornalista e escritor.
Os poemas vêm sendo maturados há um bom tempo. Samarone cuidava (e cuida) da sua poesia como a parte mais difícil da sua obra, com um rigor quase insustentável. Essa é a parte de que mais gosta da literatura, e foi por tratá-la como algo sagrado, inalcançável, que a escondeu por tanto tempo. Em folhas antigas, mostra as primeiras versões de alguns poemas, com anotações escritas em letras garrafais: “PÉSSIMO”, ou “REFAZER”. Mantém, quase em segredo, o blog Quemerospoemas (quemerospoemas.blogspot.com.br) desde 2005, postando aos poucos alguns de seus versos.
Foi lá que o advogado e estudioso de literatura Arsênio Meira Júnior o encontrou. “Arsênio começou a comentar no blog. Ele nunca simplesmente dizia: ‘Gostei’ ou ‘Não gostei’. É alguém que entende muito de poesia, que leu muito, que sabe fazer relações”, explica Samarone. Veio do novo amigo o impulso para romper a timidez poética, tanto que é Arsênio o responsável por ajudar o poeta a escolher os poemas que entrariam na coletânea A praça azul. Com cerca de 60 páginas, o livro é uma primeira seleta da vasta produção de Samarone, que enche estantes e pastas. O livro está sendo planejado desde de janeiro, mas as diversas revisões e o trabalho no projeto gráfico, pelas hábeis mãos de Rodrigo Sushi o deixaram para o segundo semestre.
Agora, com a iminência da publicação, ele confessa que Sushi acha que ele ainda está inventando artimanhas para não publicar. “Mas não tem mais volta”, resigna-se. “Já estou querendo até ver o livro publicado, ouvir os comentários”. Sua timidez poética, agora vencida, deixou marcas nos versos, como mostra em Regras para um poema, quando diz: “Deixar que os poemas fracassem / (...) Carregar os papéis por toda a vida. / Envelhecer com eles”. O que Samarone fez foi ir contra o tempo, vencendo o fracasso para transformá-lo em poesia.
Leia alguns poemas de Samarone Lima:
De A praça azul
Fusão
Não sei mais a cor dos olhos
do meu pai
o sorriso dos meus avós
que nunca encontrei.
Tenho o jeito de andar
de alguém
que está tão longe
que a lembrança
chega cansada.
Coisas antigas
estão em minhas mãos.
Com elas, agarro o medo
e nele, me desfaço.
Morte
A morte não é nada
A vida que se perde.
O amanhã sem janelas
entre as sombras,
os ferrolhos.
Com os olhos pasmos
sem aleluias
ao relento
digo teu nome.
A morte, como uma ressurreição
me espreita.
De Tempo de vidro
II
Meu pai me matou muitas vezes.
Sua mão era pesada
como as de quem carrega pedras
para dentro do coração de osso.
Mas só morri
quando ele estancou a própria dor
em mim.
Soube de outras mortes
arrancadas de dentro
como as coisas fecundadas e não nascidas
que seguem gerando no tempo.
Meu pai morreu muitas vezes
em noites de sexta-feira
em meio a goles de saudade
por seu pai, mais ausente
que o meu.
Lágrimas envelhecidas
manchavam
o canto da sala.
Leia a matéria completa no Jornal do Commercio deste domingo (24/6).
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