Jornal do Commercio
cultura cultura
  • Tamanho do texto:
  • A-
  • A+

RESENHA

Um Houellebecq crítico e com menos polêmicas

O controverso autor francês ironiza o racionalismo da vida moderna e as artes plásticas no seu novo livro

Publicado em 29/06/2012, às 06h52

Diogo Guedes

O escritor francês Michel Houellebecq é um autor tão respeitado quanto isolado: sua habilidade narrativa pode ser comparada com a sua acidez e seu apreço pela criação de polêmicas. Já foi chamado de racista, misógino e anti-islâmico e, com seu novo livro, O mapa e o território (Record, R$ 50, 400 páginas), ganhou mais um adjetivo: plagiador. A culpa desta recente acusação é o texto formalista, técnico, frio que usa durante o livro: enquanto ironiza a vida contemporânea e o mercado das artes plásticas, escreve com fortes influências e recorre até a trechos de sites como a Wikipedia.

Avaliar isso como plágio, claro, é exagero, fruto até da reputação negativa do autor. O que Houellebecq faz no livro vencedor do Prêmio Goncourt de 2010 é reproduzir, como recurso de estilo, os textos informacionais que permeiam a sociedade atual, mostrando como os homens se inserem - até com um certo prazer - na estrutura racional asfixiante do mundo. Ainda que trechos tenham sido copiados de verbetes da enciclopédia virtual, são como elementos demonstrativos da crítica implícita no romance, e só são roubos se o ato de roubar pudesse ser irônico, mostrando que não há nada a ser roubado porque a linguagem ali é quase nula.

Houellebecq, aqui em versão bem mais leve do que em romances como Partículas elementares e Plataforma, fala no livro do ser humano reduzido ao consumo, ao dinheiro. Seu personagem Jed Martin é um artista francês observador da sociedade, um homem indiferente à participação na vida social. Seu primeiro trabalho é feito a partir de fotografias dos mapas dos guias de turismo Michelin, da onde vem a referência do título: mais do que o território, o que o interessa é o mapa, mais do que a realidade, o conceito.

A sua segunda exposição, um sucesso ainda maior que a primeira, marca uma mudança na sua trajetória: abandona as fotografias e trabalha com pinturas de homens e suas profissões. "O que define um homem? Qual é a pergunta que fazemos em primeiro lugar a um homem, quando desejamos saber quem ele é?", diz Jed, em dado momento, sobre a importância do trabalho. As ironias com o mercado artístico estão amplamente presentes na obra, representadas, por exemplo em um quadro que Jed tenta criar, intitulado Damien Hirst e Jeff Koons dividem entre si o mercado da arte, uma alusão ao caráter mais mercantil do que estético da produção dos dois.

AUTORRETRATO

Para o catálogo da sua segunda exposição, Jed precisa convidar alguém para escrever sobre sua obra. O nome sugerido por seu pai e logo acatado por ele é o do autor de Partículas elementares, Michel Houellebecq. Assim, por meios indiretos, o autor entra no romance, como um "velho decadente e cansado", que fala sem medir palavras e está em crise com sua própria obra. No entanto, Jed (e o leitor, consequentemente) cai imediatamente no campo de influência do autor, decidindo inclusive retratá-lo em um quadro - que considera o mais bonito que já fez.

A forma como Houellebecq se cria e se insere no livro é um ironia com a imagem (muitas vezes acertada) que se criou dele. Ao mesmo tempo, mostra o egocentrismo do autor: o personagem é um falastrão fedido, mas que alia na suas falas erudição e sinceridade. "É impossível escrever um romance (...) pela mesma razão que é impossível viver: em razão das inépcias acumuladas", comenta o escritor-personagem para Jed. Houellebecq some da história também em uma brincadeira do autor consigo mesmo: é assassinado de forma brutal, marcando uma breve guinada do romance para o tema policial.

Leia a matéria completa no Jornal do Commercio desta sexta (29/6)

 

 

Palavras-chave

imprima
envie para um amigo
reportar erro

Comentar

nome comentário
e-mail
digite o código
Digite o código no campo ao lado
Desejo ser notificado de comentários de outros internautas sobre este tópico.

Ranking do dia

Fotos do dia

Cerca de 500 pessoas seguiram pelas ruas do Recife na noite desta segunda
Foto: Clemilson Campos/JC Imagem

> JC Imagem

Cerca de 500 pessoas seguiram pelas ruas do Recife na noite desta segundaCerca de 500 pessoas seguiram pelas ruas do Recife na noite desta segundaCerca de 500 pessoas seguiram pelas ruas do Recife na noite desta segundaCerca de 500 pessoas seguiram pelas ruas do Recife na noite desta segundaCerca de 500 pessoas seguiram pelas ruas do Recife na noite desta segunda

Especiais JC

O Mercado em alta O Mercado em alta
Especial que aborda as práticas socioambientais do governo e da iniciativa privada
Ave Maria Ave Maria
Histórias de mulheres assassinadas batizadas com o nome da Virgem Maria
Facebook Twitter RSS Youtube
Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM