O escritor francês Michel Houellebecq é um autor tão respeitado quanto isolado: sua habilidade narrativa pode ser comparada com a sua acidez e seu apreço pela criação de polêmicas. Já foi chamado de racista, misógino e anti-islâmico e, com seu novo livro, O mapa e o território (Record, R$ 50, 400 páginas), ganhou mais um adjetivo: plagiador. A culpa desta recente acusação é o texto formalista, técnico, frio que usa durante o livro: enquanto ironiza a vida contemporânea e o mercado das artes plásticas, escreve com fortes influências e recorre até a trechos de sites como a Wikipedia.
Avaliar isso como plágio, claro, é exagero, fruto até da reputação negativa do autor. O que Houellebecq faz no livro vencedor do Prêmio Goncourt de 2010 é reproduzir, como recurso de estilo, os textos informacionais que permeiam a sociedade atual, mostrando como os homens se inserem - até com um certo prazer - na estrutura racional asfixiante do mundo. Ainda que trechos tenham sido copiados de verbetes da enciclopédia virtual, são como elementos demonstrativos da crítica implícita no romance, e só são roubos se o ato de roubar pudesse ser irônico, mostrando que não há nada a ser roubado porque a linguagem ali é quase nula.
Houellebecq, aqui em versão bem mais leve do que em romances como Partículas elementares e Plataforma, fala no livro do ser humano reduzido ao consumo, ao dinheiro. Seu personagem Jed Martin é um artista francês observador da sociedade, um homem indiferente à participação na vida social. Seu primeiro trabalho é feito a partir de fotografias dos mapas dos guias de turismo Michelin, da onde vem a referência do título: mais do que o território, o que o interessa é o mapa, mais do que a realidade, o conceito.
A sua segunda exposição, um sucesso ainda maior que a primeira, marca uma mudança na sua trajetória: abandona as fotografias e trabalha com pinturas de homens e suas profissões. "O que define um homem? Qual é a pergunta que fazemos em primeiro lugar a um homem, quando desejamos saber quem ele é?", diz Jed, em dado momento, sobre a importância do trabalho. As ironias com o mercado artístico estão amplamente presentes na obra, representadas, por exemplo em um quadro que Jed tenta criar, intitulado Damien Hirst e Jeff Koons dividem entre si o mercado da arte, uma alusão ao caráter mais mercantil do que estético da produção dos dois.
AUTORRETRATO
Para o catálogo da sua segunda exposição, Jed precisa convidar alguém para escrever sobre sua obra. O nome sugerido por seu pai e logo acatado por ele é o do autor de Partículas elementares, Michel Houellebecq. Assim, por meios indiretos, o autor entra no romance, como um "velho decadente e cansado", que fala sem medir palavras e está em crise com sua própria obra. No entanto, Jed (e o leitor, consequentemente) cai imediatamente no campo de influência do autor, decidindo inclusive retratá-lo em um quadro - que considera o mais bonito que já fez.
A forma como Houellebecq se cria e se insere no livro é um ironia com a imagem (muitas vezes acertada) que se criou dele. Ao mesmo tempo, mostra o egocentrismo do autor: o personagem é um falastrão fedido, mas que alia na suas falas erudição e sinceridade. "É impossível escrever um romance (...) pela mesma razão que é impossível viver: em razão das inépcias acumuladas", comenta o escritor-personagem para Jed. Houellebecq some da história também em uma brincadeira do autor consigo mesmo: é assassinado de forma brutal, marcando uma breve guinada do romance para o tema policial.
Leia a matéria completa no Jornal do Commercio desta sexta (29/6)
Últimas notícias
Ranking do dia
Governador anuncia redução na tarifa de ônibus e o Anel A vai custar R$ 2,15
Mário Balotelli é esperança de gols da Itália diante do Japão nesta quarta-feira
Dilma anunciará 20.º pacote de medidas de estímulo à economia de seu governo
Problemas na Arena provocam tensão
Como antecipado pelo JC, Campus Partydo Recife acontecerá de 17 a 21 de julho
Prius, o inimigo dos postos de gasolina
Torreão é opção para famílias Especiais JC
O Mercado em alta