“Eu queria ser lanterninha de cinema. A ambição da minha vida era ser lanterninha, e eu falhei, pelo que saiba”, fingiu confessar Bob Dylan em uma de suas irônicas, mal-humoradas e lendárias coletivas de imprensa. A figura esquiva do músico americano – se é que é possível falar apenas em “um” Bob Dylan – é uma presença constante no novo livro do escritor catalão Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan (Cosac Naify, 320 páginas, R$ 59), outra de suas narrativas ensaísticas sobre, como não poderia deixar de ser, o fracasso artístico e sobre a contestação da autenticidade da personalidade ou da arte em todas as suas instâncias. O autor é um dos principais convidados da Festa Literária Internacional de Paraty, que começa na quarta, quando aproveita para lançar o livro.
Vila-Matas é o senhor literatura, o escritor que parece não precisar de nada além dos livros e da escrita para compor suas obras – mesmo quando fala de música, como no título da obra, ou do cinema. Ar de Dylan não chega a ser como Bartleby e companhia e Mal de Montano, obras em que a literatura aparece como um tema obsessivo, único, mas nesta narrativa o catalão parece contar uma história também com o pretexto de refletir – às vezes nem tão disfarçadamente – sobre suas próprias preocupações artísticas, em uma prosa sempre levemente irônica.
A obra começa com o encontro do narrador, um velho escritor, com o jovem cineasta Vilnius Lancastre, filho do importante escritor Juan Lancastre, em um congresso dedicado ao tema do fracasso, cenário típico do universo do autor. Vilnius substitui no evento o pai, falecido havia poucos dias, e decide contar, com o intuito de fazer todos desistirem de ouvi-lo, como lidou com a morte do pai.
O jovem, a quem o “ar de Dylan” do título se refere, revela que passa a viver como se fossem suas as experiências antigas do seu pai. Vilnius é o completo oposto dele: o pai teve uma grande produção literária, transformando-se a cada livro e tentando sempre dialogar com as novas gerações contemporâneas (sendo um camaleão, como Bob Dylan soube ser). O cineasta, por sua vez, é alguém preocupado com a ideia de ser autêntico, de manter sua coerência, ainda que apenas pela aceitação do fracasso.
E AGORA?
Aqui, falhar nem sempre é uma questão de comodismo (ainda que pereça o caso de Vilnius), mas sim também de proposta estética. “Quão difíceis às vezes são as tentativas de fracassar”, comenta o cineasta em dado momento da narrativa. O fracasso não é necessariamente não fazer nada, mas sim fazer sabendo que se busca o impossível e que todo fracasso pode ser uma vitória ante a imobilidade.
E também se pode falhar mesmo quando se atinge o que quer. Uma anedota-frase de Tolstoi ilustra bem o caso: “Minha vida inteira lutei para ser melhor que Shakespeare e sou. E agora?”. Histórias paralelas como essas são os momentos mais saborosos do livro, em que, como costumam ser as obras do catalão, a narrativa é o que menos interessa: o que fica é a relação do homem com o ato de produzir arte, ainda que seja apenas consumindo-a ou se negando a fazê-la.
O seu interesse pelo que não funciona também está expresso em outros momentos, quando diz: “O problema é que a felicidade é pouco interessante (...). A infelicidade, por outro lado, é apaixonante”. Assim, estar sempre em mudança – em oposição a ser autêntico – é um forma de tentar sempre fracassar de outra forma, como se esse fosse o motor da literatura e da arte. “A arte é também escapar do que acreditam que você é ou do que esperam de você”, vaticina o autor.
Leia a matéria completa no Jornal do Commercio de domingo (1/7)
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