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Literatura

Obra russa ganha espaço no mercado editorial

Criação de espaço de pesquisa e formação, excelência em tradução e a boa resposta do público alavancam interesse por autores russos

Publicado em 04/02/2013, às 11h00

Diogo Guedes

A literatura russa do século 19 é uma das mais importantes tradições de prosa e verso do mundo, comparável à produção de qualquer outro período histórico e local. Desde o fim do século 19, o Brasil – assim como boa parte do mundo – tem uma paixão declarada pela literatura russa clássica, ainda que por vias indiretas. Só que a Rússia que o Brasil amava era de segunda mão, um amor mediado pela pena dos autores e tradutores franceses, de que se tirava o texto a ser vertido para o português.

Esse caso continuou durante o século 20, com um tom mais profissional, principalmente a partir dos trabalho de pioneiros como o tradutor ucraniano radicado no Brasil Boris Schnaiderman e, mais tarde, Paulo Bezerra. Hoje chegou a um novo ápice motivado justamente por uma onda de novas traduções dos clássicos – sem esquecer livros inéditos no Brasil e obras contemporâneas –, feitas diretamente do russo e editadas pela Hedra, Editora 34 e Cosac Naify.

A diferença pode parecer um capricho para um leigo, mas não é. Uma tradução é uma obra extremamente autoral que sempre tem perdas em relação ao original. Traduzir uma tradução é ter um texto que sofreu com perdas duas vezes, e pode significar ler um Dostoiévski ou Tolstói ainda mais distante. Tanto que as primeiras edições no Brasil, hoje históricas, tiveram perdas do estilo dos autores e até de sentido em casos mais raros.

O boom de lançamentos de obras russas nos últimos anos – o processo começou há quase 15 anos – é fruto de um triplo interesse no assunto. O primeiro fator foi a criação de um espaço de pesquisa e formação, o Departamento de Letras Russas e a Pós-Graduação de Literatura e Cultura Russa, em 1993, na Universidade de São Paulo (USP), que passou a formar não só especialistas no assunto, mas tradutores capazes. Depois, um mercado editorial que passou a bancar novas edições com traduções do original e, por fim, a resposta do público aos lançamentos terminou por sustentar o ciclo.

O doutorando em Literatura e Cultura Russa na USP Odomiro Fonseca, pernambucano que realizou durante a semana retrasada uma oficina sobre a literatura russa, indica que o interesse da academia tem sido fundamental. “Essa nova série de traduções tem muito a ver com o Departamento de Literatura e Cultura Russa da USP. São atualmente 27 pós-graduandos: nunca houve tantas pessoas estudando russo no Brasil como agora. Isso sem pensar em pesquisadores e professores”, comenta o pesquisador.

O escritor e tradutor Rubens Figueiredo, por sua vez, discorda da ideia de que vivemos uma nova onda de interesse na literatura russa – para ele, o público brasileiro sempre gostou do tema. “A pergunta deveria ser: por que a literatura russa nos impressiona tanto, e de forma tão contínua, a despeito da distância no tempo cronológico? Minha hipótese é que essa literatura se relacionava com a sociedade de um modo em tudo diferente daquele que conhecemos e daquele que temos em mente, quase de forma automática, quando pensamos em literatura”, ele explica.

Leia a matéria completa no Caderno C desta segunda (4)

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