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CRÍTICA

Em novo livro, Coetzee faz alegoria da vida de Jesus

Vencedor do Nobel, o escritor sul-africano faz romance sobre estrangeiros em uma sociedade conformista e estranha

Publicado em 05/05/2013, às 05h00

Coetzee preferia que o livro não tivesse título, para não deixar explícita a referência a Cristo / Divulgação

Coetzee preferia que o livro não tivesse título, para não deixar explícita a referência a Cristo

Divulgação

Diogo Guedes

Apesar do título do seu novo romance, A infância de Jesus (Companhia das Letras, 304 páginas, R$ 44, tradução de José Rubens Siqueira), que sai agora no Brasil, durante a obra, o escritor J. M. Coetzee não usa nenhuma vez a palavra Jesus e sequer faz uma alusão direta ao cristianismo ou às passagens bíblicas.

O livro do autor sul-africano, Nobel da Literatura de 2004, é uma alegoria sutil e simples, que dá de antemão uma possível chave para compreensão do seu enredo, criando um resultado interessante: desde antes da primeira linha, o leitor tem uma expectativa que nunca vai acontecer diretamente e que contamina o mergulho no romance.

Sobre isso, Coetzee – autor de obra de renome como Desonra e Diário de um ano ruim – já disse, preferia que o livro saísse com uma capa em branco, e que o título só se revelasse ao final. Ao mesmo tempo, a linguagem comum e o enredo direto da obra ganham tensão justamente por essa revelação a contragosto. A infância de Jesus é e não é sobre o que diz ser, e é essa duplicidade que constrói a força da narrativa.

Símon, um homem de mais de 40 anos, chega à cidade de Novilla depois de sair de Belstar – lugar de que a história pouco fala. No barco que o trouxe ao seu novo lar, ele encontrou um menino, David, que estava só e tinha perdido o bilhete com qualquer informação que se teria sobre ele: Símon não sabe onde estão ou quem são os pais do garoto, o nome verdadeiro dele ou por que estava indo para Novilla. Decide cuidar do menino enquanto não encontra a sua genitora, ou, ao menos, a pessoa que pode desempenhar o papel de mãe de David.

A cidade é um lugar estranho. Os seus habitantes são cordiais e relativamente prestativos, mas surpreendentemente presos às regras e ao funcionamento do local: não existem exceções, ironias, ambição ou qualquer outro traço desse calor propriamente humano, para o bem e para o mal. É um lugar agradável para se viver para quem aceita as condições dadas de vida.

Símon estranha desde o início essa ausência de ambição: as comidas são sem temperos, os trabalhadores não se interessam em criar novas formas de facilitar seu ofício, as pessoas não têm interesse em sexo se não para reprodução. Todos recomendam que ele aceite essa nova realidade, afirmam que é preciso que ele esqueça os hábitos que o ligam ao passado. Um dia, passeando com David, encontra uma mulher e, instintivamente, passa a achar que ela deve ser a mãe do menino. Forma-se, então um estranho núcleo familiar: Símon, algo como um tio de David, e Inés, mãe adotiva dele.

Confira um trecho do livro aqui.

Leia a matéria completa no Jornal do Commercio deste domingo (5/5).

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