Jornal do Commercio
CONSCIÊNCIA NEGRA

O horror da escravidão contado além dos números

Narrativas feitas por ex-escravos, como Baquaqua e Manzano, colocam rostos e histórias por trás de dados e análises frias

Publicado em 20/11/2015, às 05h23

Baquaqua foi trazido para Pernambuco e, aqui, foi forçado a deixar de ser muçulmano e tentou até suicídio / Bruno Véras/Divulgação

Baquaqua foi trazido para Pernambuco e, aqui, foi forçado a deixar de ser muçulmano e tentou até suicídio

Bruno Véras/Divulgação

Diogo Guedes

Ao longo de mais de 300 anos de escravidão no Brasil, cerca de 5 milhões de homens e mulheres foram retirados à força de suas terras natais no continente africano e trazidos para casas, plantações e minas de um país estranho. O número representa quase metade dos escravos que foram traficados para todas as colônias nas Américas, mas, ainda assim, não parece dar exatamente a dimensão do passado de tortura e crueldade que o Brasil carrega na sua formação. Talvez porque os dados não trazem a sensação do cheiro de fezes e vômito dos navios negreiros, não falam dos abusos vividos em mar e em terra.

É por isso que, desde o início, parte da campanha abolicionista nos Estados Unidos deu importância fundamental à publicação de relatos de ex-escravos – o filme 12 Anos de Escravidão surgiu de uma dessas histórias. Uma das mais famosas entre os pesquisadores é a de Mahommah Gardo Baquaqua, que nasceu no Norte da África, foi trazido para Pernambuco e passou pelo Rio de Janeiro, Haiti e Nova Iorque. O seu relato, editado na época por Samuel Moore, é essencial para se entender a escravidão africana global e, apesar de ser representativo para a história brasileira, nunca foi publicado em português.

Quem prepara a primeira versão nacional do texto, a ser publicada pela editora Civilização Brasileira em meados de 2016, é o historiador e professor pernambucano Bruno Véras, em um volume com documentos inéditos acrescidos ao trabalho já feito para a edição inglesa por Paul Lovejoy e Robin Law. Hoje, Dia da Consciência Negra, em memória à morte de Zumbi, o pesquisador revela que, neste mês, vai lançar o site www.baquaqua.com.br, feito com Denizá Rodrigues, Ednaldo F. do Carmo Júnior e Tatiane Lima, para contar a história da migração e da escravidão dos negros africanos, a partir da vida de Baquaqua e de outros homens e mulheres que migraram para as colônias.

“Os alunos podem até conhecer a história, mas, através de uma biografia, eles podem construir empatia com o personagem de Baquaqua. A ideia do conteúdo do site não é ser sobre escravidão, mas falar sobre as pessoas que tinham laços familiares, culturas e viviam, apesar da escravidão. A escravidão é só o conceito jurídico que cerceava as pessoas, mas elas ainda assim viviam, tinham histórias e rostos”, aponta Bruno. O site ainda vai ter versões em quatro línguas (inglês, francês e hauço) e conteúdo interativo e audiovisual, pensado para o uso em salas de aula.
Foi depois de passar pela “pior invenção da humanidade”, os navios negreiros, que Baquaqua chegou a Pernambuco. Aqui, foi escravizado por um padeiro e obrigado a deixar de ser muçulmano – a opressão religiosa contribuiu para o seu alcoolismo e para uma tentativa de suicídio. “Existe agora uma demanda por conhecer mais a história e a herança dos africanos”, conta Bruno.

“Os fatos em livros didáticos, às vezes, soam como frios, sem a noção humana necessária”, define o escritor Alex Castro, que organizou e traduziu o recém-lançado A Autobiografia do Poeta-Escravo (Hedra), com o relato do poeta e escravo cubano Juan Francisco Manzano. Se existem vários depoimentos de antigos escravos, o texto de Manzano é um dos raros que foi escrito a mão, em espanhol, pelo próprio protagonista. Tanto que, ao traduzir a obra, Alex cria duas versões: uma didática, que adequa o texto à norma culta, e uma transcrição que tenta reproduzir “a oportunidade única de experimentar a voz” de Manzano.

Os textos de escravos são raros aqui, como aponta a professora americana Lisa Earl Castillo. Além de um letramento maior, pelo incentivo das igrejas protestantes para que os fiéis lessem a Bíblia, a escravidão nos EUA foi regionalizada – os estados do norte, onde ela era ilegal, publicavam os textos de escravos libertos ou fugidos. Alex se incomodou com isso ao ler, por acaso, em espanhol, na Universidade de Berkley, na Califórnia, um texto da escritora negra Maria carolina de Jesus. "Era uma narrativa em espanhol perfeito, na norma culta, e eu sabia que não tinha sido feita assim. Isso me incomodou sempre", comenta.

“Nesses textos, no entanto, o ex-escravo não tem muita agência, tem pouca autonomia, só é a matéria-prima”, aponta Alex. “Manzano escreveu com o próprio punho, coma uma capacidade verbal e estilística que ele conquistou sozinho, a duras pena. Os seus ‘erros’ são documentos históricos. A escravidão deixou marcas na pele e nas palavras dele. É importante ler algo assim e pensar: ‘É isso o que a escravidão faz com a voz de alguém’.”

A força do relato de Manzano inspirou, inclusive, o autor a transformar a narrativa em um monólogo teatral - Alex está em busca de grupos ligados ao movimento negro que se interessem em encenar o texto.




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