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FICÇÃO

Veronica Stigger explora formatos no livro Sul

O sangue é um elemento em comum nas histórias, contadas em prosa, texto teatral e versos

Publicado em 25/12/2016, às 08h26

Veronica Stigger foi premiada com o livro Opisanie Swiata / Renato Parada/Divulgação
Veronica Stigger foi premiada com o livro Opisanie Swiata
Renato Parada/Divulgação
Diogo Guedes

O título pode sugerir uma coletânea geográfica, mas Sul (Editora 34) não é nada disso. Escrito pela autora gaúcha Veronica Stigger – uma das excelentes narradoras da literatura brasileira –, o livro é difícil de definir. Talvez seja melhor simplesmente ficar com o termo ficção: só ele pode englobar uma coletânea que começa com um conto, continua com uma peça de teatro e se encerra com um poema.

Afinal, Veronica se interessa por compor uma literatura como um lugar-limite, uma máquina que narra – rumo a algum abismo – não importa o formato em que esteja projetada. Seus outros livros, como Os Anões, Delírio de Damasco e Opisanie Swiata (vencedor do Prêmio Machado de Assis), experimentam graficamente, nas premissas de concepção ou num recorte narrativa radical. Em Sul, lançado na Argentina em 2013 e só agora editado no Brasil, é possível ver uma grande amostra dessa diversidade – e da força – narrativa da escritora.

O primeiro texto, 2035, sugere uma fábula kafkiana sobre uma menina, Constância, que vive escondida em um apartamento com seus pais. No dia em que completa dez anos, ela é levada por oficiais para participar de uma cerimônia misteriosa. Dois oficiais e um civil levam a menina, transportada no riquixá, para ser preparada para ser a estrela do evento. Tudo é planejado aos detalhes; ao mesmo tempo, o leitor acompanha atônito. Assim, a narrativa funciona pelo atordoamento – como de Verônica soubesse que não há tempo para explicações quando se está dentro do surreal.

Há também algo de absurdo no texto seguinte do livro, a peça Mancha. Duas mulheres, chamadas de Carol 1 e Carol 2, conversam no apartamento de uma delas. Há manchas de sangue que vão da sala até a porta, sinal de que algo aconteceu ali, apesar do clima de tranquilidade – de uma calma que parece a iminência de um ataque de nervos – da anfitriã, mais preocupada com sua maquiagem do que com sua vontade de chorar. “De onde saiu o sangue, Carol? Onde foi a ferida? Foi no rosto?”, pergunta Carol 2, a colega. O tempo todo, ao fundo, o chuveiro está ligado, como a trilha de um filme de suspense que pode nunca acontecer.

VERSOS

Por fim, O Coração dos Homens é um poema em primeira pessoa sobre algumas lembranças de infância: a encenação de uma versão de Branca de Neve em inglês, um outro espetáculo escolar sobre a migração italiana e alemã no Brasil e uma aula de religião ministrada pelos alunas. Em comum a todas elas, está a menstruação, vivida como uma vergonha pública, um exemplo de como a sociedade procura desprezar o corpo feminino. “Ninguém, de novo, percebeu que eu menstruara./ Mas fui suspensa por uma semana./ Desde então, peguei horror a ser mulher”, diz em certo momento o poema.

Logo depois, há um outro trecho, A Verdade sobre o Coração dos Homens, com as páginas coladas. É o próprio leitor que precisa rasgá-las se quiser saber o que se acrescenta ao poema – ali, violando as páginas, talvez descubra em que medida a ficção e a realidade são operações complexas da linguagem na obra de Veronica.

Se os formatos e os caminhos são radicalmente distintos, todos os textos de Sul trazem um ponto em comum: o sangue. Há uma espécie de epígrafe no livro, em formato de microconto escrito pela própria autora: “‘Agora vocês vão ver’, dizia ele aos irmãos e aos primos, que gargalhavam como aves de agouro, enquanto espalhava pelas paredes brancas do quarto o sangue que saía aos borbotões de seu portentoso nariz, ‘vou lá contar tudo para o pai e ele vai dar uma surra bem dada em vocês, seus guris de merda.’ Ninguém – nem mesmo o pai que entraria no quarto minutos depois – percebeu que a mancha de sangue na parede branca assumira o contorno do mapa do Sul”.

O Sul de Veronica é composto de sangue e, como ressalta Alexandre Nodari, na orelha da obra, não um sangue que corre nas veias, mas um que corre das veias. Nos textos, a linguagem oscila entre a distância perversa, a distância sóbria e a confissão calculada. No absurdo, na fabulação, nos traumas da infância, a escrita da autora parece lembrar que toda violência deixa um rastro – e que, na verdade, o mundo em que vivemos é essa mancha casual na parede, essa prova cabal de uma agressão.

Serviços

Sul, de Veronica Stigger - Editora 34, 96 páginas, R$ 32.

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