Jornal do Commercio
ARTE GRÁFICA

Editora reedita o raro Aniki Bóbó de Aloisio Magalhães e João Cabral

A obra, editada pelo Gráfico Amador e pouco conhecida até mesmo do público especializado, ganha edição crítica e fac-similar

Publicado em 01/01/2017, às 06h09

Uma das páginas de Aniki Bóbó, de Aloisio Magalhães e João Cabral de Melo Neto / Reprodução/Aloisio Magalhães
Uma das páginas de Aniki Bóbó, de Aloisio Magalhães e João Cabral de Melo Neto
Reprodução/Aloisio Magalhães
Diogo Guedes

Na década de 1950, João Cabral de Melo Neto (1920-1999) se viu forçado a voltar para o Brasil para se defender da acusação de ser comunista. Depois de ver o processo ser arquivado, o poeta veio morar um tempo na sua cidade natal, o Recife. Já tinha nas costas uma experiência pioneira como editor artesanal em Barcelona: para atender a recomendação médica de se exercitar, havia comprado uma prensa e criado a editora O Livro Inconsútil, que fazia livros soltos, sem costura nas lombadas. 

Por aqui, começou a incentivar alguns amigos a criarem a própria editora – isso em uma época em que a vida literária acontecia quase que exclusivamente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nascia assim O Gráfico Amador, experiência pioneira no Brasil nas edições artesanais. Com o grupo, João Cabral terminou publicando ele mesmo (ainda que de forma “não oficial”), quando já havia deixado a cidade, o poema Pregão Turístico do Recife, com ilustrações do seu primo, Aloisio Magalhães (1927-1982). Anos depois, de passagem pela cidade, aconteceria o contrário: ao ver uma série de desenhos de Aloisio, o autor resolveu criar um “poema ilustrativo” para a obra. Nascia Aniki Bóbó, obra lançada em 1958 e quase desconhecida até mesmo do público especializado.

Raríssima até então – só foram impressos 30 exemplares do volume, que não é nem citado nas obras completas do poeta –, Aniki Bobó ganhou agora uma edição crítica e fac-símile pela editora Verso Brasil. É uma luz jogada sobre um livro que traz a singularidade de ter sido criado por dois dos grandes artistas brasileiros.

“Aniki Bóbó não é somente arte e nem é totalmente poesia. É uma obra-poesia, um livro-arte, um poema-livro e uma demonstração cabal de que é possível fundir poesia, técnicas experimentais de impressão e arte com blague, ironia e precisão em um mesmo espaço e para o mesmo fim, ou melhor, para fim algum além da urdidura autônoma de um livro”, diz a organizadora da edição, Valéria Lamego, no prefácio da obra.

Até o título do livro é de alguma forma um mistério. Veio de Aloisio, que não lembrava onde leu o termo. “Aniki Bóbó é um livro muito peculiar, porque na verdade ele surgiu de um nome. Eu li esse nome, Aniki Bóbó, em algum lugar, não me lembro... E fiquei muito interessado pela palavra (...) e então imaginei um pássaro”, contou o artista. João Cabral não tinha uma resposta mais clara: “Aniki Bóbó, me disse Aloisio, é o nome de um brinquedo de criança de Pernambuco (de que não me lembro)”.

ORIGEM

Na verdade, o termo tem origem em uma cantiga infantil portuguesa: “Aniki-Bébé/ Aniki-Bóbó/ Passarinho/ Tótó/ Berimbau/ Cavaquinho/ Salomão/ Sacristão/ Tu és polícia/ Tu és ladrão”. Mais provavelmente, Aloisio deve ter tirado o título do filme homônimo, lançado em 1942, do cineasta português Manoel de Oliveira (1908-2015). Não por acaso, tanto o filme como as colagens e o poema evocam a infância – o professor da UFMG Sérgio Alcides, autor de um dos textos da edição crítica, destaca “o desprendimento infantil quanto à lógica formal, notável tanto na letra da lengalenga quando no traço lúdico de Aloisio”.

A experiência com barbante de Aloisio fez João Cabral compor um poema em prosa curto, em quatro partes, sobre um pássaro, Aniki Bóbó, que “tinha de seu duas côres, o azul e o encarnado, como outros têm na vida um burro e um cavalo”. “Este texto meu foi uma brincadeira minha com Aloisio Magalhães. Ele fez os desenhos e eu escrevi as ilustrações, interpretando os desenhos (que são coloridos). Ele fez os desenhos e me pediu para ilustrar com o texto. (...) É um texto abstrato, um jogo”, descreveu o poeta em uma entrevista.

Segundo Zoy Anastassakis e Elisa Kuschnir, pesquisadoras da Escola Superior de Design Industrial (Esdi), Aniki Bóbó foi uma forma do artista gráfico experimentar, brincar com a “coisa gráfica”. Por isso João Cabral ressalta o caráter acessório do texto na obra (no livro, está escrito: “Aniki Bóbó de Aloisio Magalhães ilustrado com texto de João Cabral de Melo Neto”). 

“Trata-se de um livro do artista, não do poeta. Este comparece, como aquele às vezes colabora na edição de um volume de poesia: como ilustrador. A inversão aqui é a primeira intriga, porque dessa vez é o texto que ilustra a imagem, e não o contrário”, explica Alcides.

FORA DA OBRA

Ao reunir sua obra, João Cabral deixou o livreto – e só ele – de fora. Para o crítico Augusto Massi, esse é um dos enigmas da obra. “Esse resgate editorial de Aniki Bóbó é muito importante. Entre outras coisas, porque nos permite repensar que motivos justificariam sua exclusão da Obra Completa. Estaria relacionado com a feição mais abstrata do texto, em desacordo com o rigor construtivo que o poeta sempre planejou e desenvolveu em sua produção? Mas, desse ângulo, por que incluir os Primeiros Poemas (1937-1940) e deixar de fora Aniki Bóbó? Por considerar que este último seria uma criação mais de Aloisio Magalhães do que sua?”, questiona na nova edição da obra.

É na década de 1950 que João Cabral começa a abandonar os aspectos drummondianos e surrealistas da sua poesia e passar a compor os poemas que passam a representar o que se entende por “cabralino”. Aniki Bóbó sai, então, quando o norte da poesia do autor já está bem definido: o de “uma poesia da espessura do mundo”, como define Alcides. “É a poesia que se reconhece de imediato como cabralina – com o mistério de ser ao mesmo tempo tão rigorosamente antissubjetivista e tão única, pessoal e intransferível. O apagamento do eu no enunciado apenas reforça o sujeito da enunciação”, continua o professor.

Aniki Bóbó, no entanto, se usa dos planos alegóricos e traz em um lado lúdico que contrastaria com o restante dessa ideia estabelecida de um João Cabral maduro. “O azul era seu colchão de molas, lúdicas como a cor do mar”, diz o poeta no livro. Tanto o lirismo – influenciado, claro, pelas belas ilustrações de Aloisio – como a oposição entre azul e vermelho, espírito e matéria, de alguma forma destoam do restante da obra do autor. 

Assim, existe uma certa tensão entre Aniki e a visão de João Cabral sobre sua própria obra. O caráter lúdico do livro convive com as imagens tipicamente cabralinas: colchão de mola e lâminas de barbear. “Apesar de tais objetos pertencerem à realidade concreta e ao sistema de imagens cabralinas – faca, espada, lâmina –, a sensação é de que ainda estamos diante de um alto grau de fabulação”, explica Massi. “Tudo está levemente deslocado, pervertido, fora do lugar.”

Anastassakis e Kuschnir ainda ressaltam que Aloisio, no seu processo criativo, gostava de trafegar entre a razão e a intuição como bem entendesse – bem diferente da poética cabralina, da obra como uma construção. “Aniki Bóbó, um encontro de Aloisio Magalhães e João Cabral de Melo Neto, pode, então, ser visto como um encontro entre a intuição e a razão”, defendem.

No poema, Aniki limpa o país de todas as cores, só deixando o azul e o encarnado. Dentro do livro de Aloisio, na última frase, o poeta ilustrador deixa afinal um recado um tanto cabralino: “Mas o vermelhão que verdes é a lâmina suja de seu trabalho”.

Serviços

Aniki Bóbó, de Aloisio Magalhães e João Cabral de Melo Neto, em edição crítica organizada por Valéria Lamego - Verso Brasil, 91 páginas, R$ 61,50.

Recomendados para você




Comentar


Nome E-mail
Comentário
digite o código
Desejo ser notificado de comentários de outros internautas sobre este tópico.

OFERTAS

Especiais JC

JC RECALL DE MARCAS PREMIA AS MAIS LEMBRADAS DO ANO JC RECALL DE MARCAS PREMIA AS MAIS LEMBRADAS DO ANO
Pitú, Vitarela (macarrão) e Honda (motos) foram as três marcas mais lembradas pelo público pernambucano, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Harrop em parceria com o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC)
JC no Mundial JC no Mundial
Em meio a um cenário conturbado na política internacional, a Rússia espera ser o grande centro das atenções neste mês de junho, quando irá sediar pela primeira vez em sua história uma Copa do Mundo de futebol. Aqui você confire tudo sobre o Mundial.
Reinventar Reinventar
A velocidade na criação de novidades tecnológicas nos faz pensar que o futuro é todo dia. E nós também precisamos sair do lugar. No mercado de trabalho, o impacto dessas transformações exige a capacidade de se reinventar. Veja o que o futuro lhe reserva

    SIGA-NOS

Jornal do Commercio 2018 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM