Jornal do Commercio
PROSA

Michel Laub aborda os tribunais das redes sociais em romance

Lançado no fim de 2016, O Tribunal da Quinta-Feira debate o tema essencial dos julgamentos instantâneos da internet

Publicado em 04/01/2017, às 06h06

Michel Laub é autor de obras como Diário da Queda e A Maçã Envenenada / Renato Parada/Divulgação
Michel Laub é autor de obras como Diário da Queda e A Maçã Envenenada
Renato Parada/Divulgação
Diogo Guedes

"Uma noite de quarta-feira pode ser a pior de sua vida”, diz José Victor, personagem, narrador e, de alguma forma, réu do romance O Tribunal da Quinta-Feira (Companhia das Letras), do escritor gaúcho Michel Laub. Num domingo, a ex-esposa do publicitário encontra sua senha de e-mail anotada em um papel e descobre ali que foi traída durante o casamento. Seleciona trechos das conversas – escatológicas, brutas, sem pudores e ofensivas – de José Victor com seu melhor amigo, Walter, homossexual soropositivo, e manda para algumas amigas. Pronto, o publicitário está em sessão de julgamento, diante de “uma multidão acima de qualquer pecado”.

É sobre a vertigem de se ver do outro lado dos julgamentos das redes sociais que o novo livro de Laub, lançado no final de 2016, fala. Como o excelente Diário da Queda e o posterior A Maçã Envenenada, aqui temos uma prosa que ganha força pelo efeito de sinceridade do personagem diante de uma tragédia pessoal e outra coletiva. José Victor, com uma ironia dirigida friamente a si mesmo e aos outros, relata a experiência de estar no posto de ser linchado sem ter necessariamente feito algo de errado – e sem pleitear a inocência, também.

Ele e Walter viveram o período do grande terror com a Aids, os anos 1980 – umas das forças do livro é reconstituir um pouco como era viver nesses tempos. Até o presente do livro, em 2016, a amizade entre os dois se sustenta na linguagem franca que mantêm: possível vítima, cadáver eunuco, peste anal. Como uma brincadeira, os dois falam em “infectar” os possíveis parceiros sexuais. José Victor conta ao amigo sobre uma jovem redatora que passou a trabalhar na agência de publicidade – os dois terminam se tornando amantes e, depois, namorados. “Ela tem vinte anos, e lá vamos nós dar alimento às hienas”, escreve o personagem em dado momento, reconstituindo o que se passou. Um dia, tudo isso vem a público por conta da vingança da ex-esposa. “Você pode escapar de uma época, mas não de todas as épocas. Bem-vindos ao tribunal”, continua o romance.

Homofóbicos passam a xingar José e Walter – para eles, a linguagem mostra tudo o que há de errado com os homossexuais. Ao mesmo tempo, pessoas engajadas, “o lado correto da briga”, como diz o personagem, começam a criticar e repercutir o caso – José é uma amostra de como o machismo está presente mesmo dentro dos ditos setores mais ilustrados. Assim, no abismo dessa narrativa de um homem que não é inocente e nem culpado, O Tribunal da Quinta-Feira mostra como, no mundo imediato de redes sociais, a parte vira o todo, um erro se torna exatamente igual a séculos de opressão e uma pessoa se torna apenas a polêmica da vez.

PORNOGRAFIA DA VIRTUDE

O romance tem um começo lento; a prosa de Laub gosta de criar adiamentos, de sugerir o impacto que só vai acontecer daqui a algumas páginas. O narrador não é um personagem bonzinho e nem um vilão plano; ao mesmo tempo, se recusa a subir em pedestais, ou se defender diante da turba. Quem já sentiu algum mal-estar com a sucessão de polêmicas da vez das redes sociais vai entender bem do que Laub fala quando usa o termo “pornografia da virtude”.

Assim, O Tribunal da Quinta-Feira tem seu quê de provocação aos leitores. O papel de juiz do imediato, de quem olha fatos sem contextos, com pressa e indignação, é realmente confortável? A justiça é um poder e uma responsabilidade, Laub parece lembrar através dessa história: é fácil esquecer, mas por trás da polêmica da vez existem pessoas reais, com problemas, defeitos e vidas. É o cuidado para não se tornar o que Caetano Veloso já descreveu: “A mais triste nação/ Na época mais podre/ Compõe-se de possíveis/ Grupos de linchadores”.

Ao mesmo tempo, o livro de Laub não é a defesa de uma ideia – é um exercício de colocá-la em movimento, de testá-la na realidade sempre densa da boa ficção. Além disso, e aí está uma das grandes forças da obra, não é um romance só sobre rede sociais: “Esta história vai muito além da discussão sobre fidelidade e compromisso. Sobre desejo e indiferença. Sobre público e privado. Porque esta é uma história sobre tudo isso, sem dúvida, mas não esqueçamos que acima de tudo é uma história sobre morte.” E, afinal, toda boa história sobre a morte também é sobre como a vida começa e persiste.

Serviços

O Tribunal da Quinta-Feira, de Michel Laub - Companhia das Letras, 184 páginas, R$ 34,90

Palavras-chave

Recomendados para você




Comentar


Nome E-mail
Comentário
digite o código
Desejo ser notificado de comentários de outros internautas sobre este tópico.

OFERTAS

Especiais JC

Pernambuco Modernista Pernambuco Modernista
Conheça a intimidade de ateliês, no silêncio de casas, na ansiedade de pincéis sujos para mostrar como, quase nonagenária, a terceira grande geração da arte moderna de Pernambuco vai atravessando as primeiras décadas do século 21
A crise que adoece A crise que adoece
Além dos índices econômicos ruins, a recessão iniciada em 2014 no Brasil cria uma população mais doente, vítima do estresse causado pela falta de perspectivas. A pressão gera problemas psicológicos e físicos, que exigem atenção.
Agreste seco Agreste seco
A seca colocou de joelhos uma região inteira. Fez o Agreste sertanejar. Os cinco anos consecutivos sem chuva em Pernambuco ganharam aqui a dimensão de uma tragédia. Silenciosa e diária.

    LOCALIZAÇÃO

  • Rua da Fundição, 257 Santo Amaro, Recife - PE
    CEP: 50040-100
  • assinejc.com.br
  • (81) 3413-6100

    SIGA-NOS

Jornal do Commercio 2017 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM