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A literatura perde a máquina de narrar de Ricardo Piglia

O escritor argentino, um dos maiores nomes da literatura contemporânea, morreu na última sexta (6/1)

Publicado em 07/01/2017, às 06h24

Ricardo Piglia em 2010, na sua passagem por Pernambuco / Angela Tribuzzi/Fliporto/Divulgação
Ricardo Piglia em 2010, na sua passagem por Pernambuco
Angela Tribuzzi/Fliporto/Divulgação
Diogo Guedes, com agências de notícias

É como se a máquina de contar histórias que mantém o universo funcionando – imagem célebre do romance A Cidade Ausente – tivesse perdido um de seus dispositivos fundamentais. Morreu na sexta (6/1), aos 75 anos, em Buenos Aires, o escritor argentino Ricardo Piglia, um dos maiores nomes da literatura contemporânea da América Latina e do mundo. Autor da obra-prima Respiração Artificial, publicada na Argentina em 1980, Piglia sofria com uma Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e faleceu por conta de uma parada cardíaca.

Tudo que a máquina de narrar tocava interessava a Piglia, tanto que ele escreveu tanto ficção como crítica literária – na verdade, as duas não eram muito diferentes para ele. Piglia era considerado um incansável pensador da literatura, posição que dividia com seu grande amigo Juan José Saer, também já falecido. Eclético, escreveu não apenas romances, mas também críticas, ensaios e roteiros, além de apresentar programas de TV e de atuar como professor de literatura da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, durante 15 anos. 

Nascido em Adrogué, província de Buenos Aires, em 24 de novembro de 1941, Piglia teve como primeira atividade literária dirigir a coleção Série Negra, especializada em ficções policiais, e lançou na Argentina escritores como Raymond Chandler e Dashiel Hammett. A partir daí, tornou-se um produtivo pesquisador da literatura argentina, com ensaios importantes sobre Roberto Arlt, Jorge Luis Borges e Macedônio Fernández. Inquieto, sempre se preocupou em recuperar escritores que estavam esquecidos e, principalmente, redefinir imagens cristalizadas. 

Publicou contos na década de 1960, quando desenvolveu uma curiosa linha de raciocínio - para ele, uma narrativa curta sempre conta duas histórias: uma visível que esconde outra, invisível. "O conto reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permite ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta", afirmava Piglia. 

A consagração, no entanto, veio com Respiração Artificial, em 1980. Romance polifônico, é ambientado durante a ditadura argentina, iniciada em 1976, e apresenta como narrador Emilio Renzi, revelador da verdadeira história do país e personagem que voltaria em outras obras. 

A investigação permitiu que Piglia exercesse seu talento ao revelar os meandros de uma sociedade construída a partir de uma violência camuflada, que torna inertes seus habitantes. Com isso, conseguiu expor o arbítrio e a violência em todo o seu horror. Em enquete realizada com 50 escritores argentinos, Respiração Artificial figurou na lista dos dez melhores romances da história literária do país. 

A realidade inspirava a escrita de Piglia que, a partir de fatos verdadeiros, conseguia construir histórias tão eletrizantes que nem pareciam baseadas em acontecimentos reais. ê o caso de Dinheiro Queimado, título brasileiro para Plata Quemada, lançado originalmente em 1997 e editado aqui pela Companhia das Letras. 

O ponto de partida foi um assalto a um carro-forte, acontecido em Buenos Aires, em 1965. Para oferecer aos leitores uma escrita vibrante, Piglia pesquisou documentos confidenciais, cercando-se de detalhes que incriminavam policiais e políticos corruptos. 

Outro crime, agora no pampa argentino, tornou-se o mote para Piglia retornar ao romance noir em Alvo Noturno, lançado em 2010 Na verdade, trata-se de uma trama policial sociológica - como já fizera em Respiração Artificial e Plata Quemada, Piglia revelou-se aqui inquieto, radical, insatisfeito ao delinear uma história que, além de transcorrer em ritmo ágil e direto, é complexa graças à sobreposição de impressões sobre o assassinato Já em Formas Breves, de 1999, Piglia reuniu textos que lhe permitem transitar na fronteira entre a ficção narrativa e o exercício crítico. São relatos em que trata tanto da relação entre psicanálise e literatura como da importância social embutida nos romances policiais. Em ambos, apresenta conclusões surpreendentes - se, no primeiro, afirma que James Joyce conhecia profundamente o trabalho de Freud, no segundo, acredita que o mundo do crime é o universo com que os homens devem dialogar nos tempos atuais. 

Desde que foi diagnosticado com ELA, Piglia apressou-se em escrever sua autobiografia, Diários de Emilio Renzi, dividida em três volumes. O primeiro, Anos de Formação, foi publicado em 2015, enquanto o segundo, Anos Felizes, saiu em setembro passado - nenhum foi traduzido ainda no Brasil. A ideia de utilizar Renzi como protagonista veio durante a filmagem do documentário 327 Cadernos, no qual o diretor Andrés Di Tella acompanhou Piglia na leitura de seus diários escritos desde a adolescência. 

DEPOIMENTOS

Alfredo Cordiviola, professor de literatura hispânica na UFPE.
"Há muito tempo, em outra época e em outro país, Ricardo Piglia foi meu fugaz professor. Tratava-se de um curso em que se debatia 'Como ler Borges'. O título parecia sugerir regras, e aplicação de regras, para decifrar 'adequadamente' a escrita borgeana. O curso, entretanto, era exatamente o contrário. Consistia em colocar em funcionamento uma máquina de ler que era também uma máquina de inventar, de estabelecer proliferações e correspondências antes impensadas ou imprevistas, de inquirir toda a literatura através de um gesto, de uma frase, de uma reminiscência.
Muitos anos depois daquelas jornadas, voltei a encontrar com o autor argentino, quando veio para a Fliporto celebrada em Olinda. No breve diálogo, cheguei a comentar alguma coisa sobre aquele remoto curso, e Piglia, sorrindo levemente, me disse: “eram bons tempos aqueles”. Não sei ao certo o que ele quis dizer com essas palavras, pronunciadas sem nostalgia nem desdém, mas sei que o irônico Piglia não estava sendo irônico. Estava (é minha conjectura) afirmando mais uma vez que toda leitura é capaz de instaurar bons tempos; que nos livros (e nas interseções da vida com a literatura que os livros propiciam) todo tempo perdido se transforma em tempo recobrado, e toda experiência individual pode se converter em sonho de muitos. Nesse dia em Olinda, Piglia estava sendo o que sempre foi e será: um escritor, um professor, um leitor, esse que imagina e ajuda a imaginar, que inventa as invenções de outros para que sejam as nossas, e que, agora em ausência, continua recriando o mundo e sorrindo levemente diante de todos nós." 

Fernando Monteiro, escritor
“Piglia desenvolveu uma obra de radical invenção literária, na linhagem de um Roberto Arlt e de um Cortázar. Uma linhagem, que está se esgarçando – infelizmente – por meio de autores que varejam pedestremente a Realidade e, por isso, a sua perda, aos 75 anos, abre uma lacuna na área mais necessitada de nomes de peso como cabeças desafiadoras na criação de ficções potentes, de ‘simulacros’ de alta instigação diante da nossa perplexidade de começo do terceiro milênio. A literatura resiste em nos fornecer um nexo -- mesmo que desconcertante? Se ela faz isso, até o começo deste – já parecendo devastador – 2017, sim, estava sendo fundamentalmente auxiliada por um autor chamado Ricardo Piglia, para o qual eu tive a minha atenção chamada pelo atento, atentíssimo, pintor Francisco Brennand”, 

Sidney Rocha, escritor.
“Lembro-me daquele amigo quando li seu Respiração Artificial, publicada no Brasil pela primeira vez, pela Iluminuras. Digo ‘amigo’ na esperança de entenderem o quanto um escritor se sente amigo do outro, sem jamais ter-lhe apertado os ossos. Quando o conheci, em 2010, e apertei sua mão, passei aquela noite vendo ou lembrando de Piglia, enquanto ele jantava e sorria. Havia boatos da sua doença, já, e eu não conseguia lhe dizer nada. Nada. Piglia comia. E sorria. A literatura sempre me provocou a Grande Alegria e Profunda Tristeza. Quando morre um narrador como ele, é como perdêssemos o melhor de um mundo já pequeno, e que vai deixando de me interessar. É dessa tristeza que falo”.

Cristhiano Aguiar, escritor e professor de Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
“Piglia já é um nome incontornável da literatura contemporânea e o considero um modelo de ensaísmo. Um romance como Respiração Artificial é um clássico da literatura contemporânea em língua espanhola e surgiu nos anos 80 como um perfeito antídoto contra o cansaço de parte da literatura escrita pelo chamado Boom de escritores latino-americanos. No entanto, o que me captura é mesmo a produção não ficcional de Ricardo Piglia, que leio com a empolgação de alguém que se vê enfeitiçado por um ótimo conto ou romance. Piglia consegue, nos seus ensaios, criar reflexões fluidas e rigorosas sobre os temas a partir dos quais se debruça; ele faz crítica literária e teoria sem abrir mão de uma necessária narratividade, bem como de um cuidado com a construção de imagens literárias. Além disso, também me fascinam as suas conferências, entrevistas e os poucos trechos aos quais tive acesso dos seus diários. Como sugestão de leitura, duas obras: O último leitor, baita reflexão sobre o ato da leitura e suas representações; Las três vanguardias, transcrição, ainda inédita em português, de um curso ministrado por ele na Universidad de Buenos Aires.” 

Priscilla Campos, crítica literária e jornalista.
"Estive sempre atenta ao que Ricardo Piglia tinha a dizer, seja numa tarde quente, em Olinda, durante a transmissão ao vivo de uma aula sua na TV estatal argentina ou através de nossas conversas secretas – eu, adolescente, encantada com a possibilidade da literatura, devorando as paginas de Respiração artificial nas férias de inverno. Perdemos um dos maiores leitores, alguém que entendia o fazer literário como a máquina contínua dos mundos, um ensaísta brilhante, que se recriava a cada texto, a cada entrevista (sempre tão precisas, tão necessárias). "Para escribir es preciso no sentirse acomodado en el mundo, es un escudo para afrontar la vida (y hablar de eso)", escreveu nos diários de Emilio Renzi – que falta imensa nos fará os seus afrontes, Ricardo." 

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