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O surreal e brilhante Campos de Carvalho tem obra relançada

A Editora Autêntica, que vai publicar os quatro romances do autor, lançou A Lua Vem da Ásia

Publicado em 12/02/2017, às 06h49

Ilustração de Campos de Carvalho feita por Uendell Rocha / Uendell Rocha/Divulgação
Ilustração de Campos de Carvalho feita por Uendell Rocha
Uendell Rocha/Divulgação
Diogo Guedes

Um misto de Franz Kafka com os irmãos Marx, como diz Leo Gilson Ribeiro; o escritor obscuro mais famoso do Brasil, como atesta Antonio Prata; ou um homem que não acreditava na existência da Bulgária, como ele mesmo dizia. Tanto faz. Todos essas são definições aceitáveis e incompletas do escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998), nome singular na literatura brasileira. O autor de obras como O Púcaro Búlgaro e Vaca de Nariz Sutil é um desses escritores solitários, que não pertenceram a um grupo ou foram encaixados em uma “geração literária”. Agora, ele volta a ter sua obra recuperada através de reedições da Autêntica, que celebra desde o final do ano passado o centenário do romancista.

O primeiro volume dessa recuperação de Campos de Carvalho é o surreal e impressionante A Lua Vem da Ásia. É, junto com O Púcaro Búlgaro, a obra mais celebrada do escritor e não por acaso. Já na primeira linha, traz a vertigem do absurdo e do humor tão próprios da literatura dele, numa frase inescapável para qualquer texto sobre o livro: “Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica.” Jorge Amado, um dos admiradores do romance, espantado com a qualidade, chegou a comprar de uma 30 exemplares em uma livraria.

Nas primeiras páginas, a narrativa soa como uma maleta com infinitos fundos falsos: tudo se desdobra em algo ainda mais inacreditável, como o fato do personagem principal, Astrogildo, morar embaixo de uma ponte no Sena, embora nunca tenha ido a Paris. De uma forma simplista A Lua Vem da Ásia poderia ser resumido como um livro sobre a loucura, mas é tão mais do que isso que é bom evitar o atalho.

Astrogildo vive em um “hotel de luxo onde os garçons, o gerente e o subgerente andam todos de branco”. Toma os horários determinados para comer e dormir como excentricidades, honra-se em dividir a ilustre companhia de um parente de Napoleão, de um Nobel da Química e de um embaixador da Rússia. Mais do que mera ironia de um narrador louco ou de um romance construído através aforismos paradoxais, Campos de Carvalho narra nas entrelinhas o incômodo de ser distoante em um mundo fissurado pela padronização e pela regra. O hotel, mais tarde, parece mais um campo de concentração em meio a um mundo de paz, uma crueldade ao quadrado para o personagem.

“Muitos me julgarão excêntrico por isso, e eu sei que julgam, mas o fato é que sou apenas sincero e não costumo ocultar as perplexidades a que me submete a minha natureza, como fazem as outras pessoas”, escreve o personagem. “As outras pessoas, aliás, se resumem para mim numa pessoa só: (...) e é meu dever preservar minha individualidade (ou minha dualidade, pouco importa) contra a presença esmagadora desse monstro sutil de mil cabeças que tenta pisar-me e reduzir-me à ínfima condição de um palito, embora de fósforo.”

A Lua Vem da Ásia tem o ritmo da uma alucinação bem contada – ou seja, escapa do risco de ser apenas frases de efeito e imagens improváveis. É um belo Quixote lisérgico, que revela que a norma pode ser um dos grande males do mundo. É difícil não sentir, em certa medida, a angústia de saber que hospícios foram (e ainda podem ser) formas de separar quem pensa diferente do que é esperado pelo mundo.

REEDIÇÃO

A Autêntica vai continuar publicando os livros de Campos de Carvalho: o próximo, Vaca de Nariz Sutil, deve sair em maio. Na verdade, apesar de ter publicado seis obras em vida, o autor considerava que sua obra completa era composta de quatro títulos – todos serão relançados pela editora.

Até nisso Campos de Carvalho era singular. Sua obra foi feita toda em pouco mais de dez anos. Em 1964, ao lançar sua última obra, O Púcaro Búlgaro, entrou para um silêncio literário até a morte. Salvo poucas entrevistas para amigos, falava pouco. Certa vez, Sergio Cohn perguntou se ele se parecia com seus personagens. “Não pareço com nenhum, sou louco à minha maneira”, ele respondeu. Ser (ou fingir ser) excêntrico, louco, era uma afirmação estética para o autor. Como diz na epígrafe de A Lua Vem da Ásia, citando o crítico francês Gabriel Brunet (traduzido por Leandro Oliveira Freitas): “Todo homem pode zombar da crueldade e da estupidez do universo fazendo de sua própria vida um poema de incoerência e de absurdidade.”

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