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ENSAIO

Silviano Santiago analisa o indomável 'Grande Sertão: Veredas'

No ensaio 'Genealogia de Ferocidade', editado pelo Suplemento Pernambuco, o crítico literário defende Guimarães Rosa de seus grandes admiradores

Publicado em 28/03/2017, às 07h32

Silviano Santiago já venceu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras / Reprodução
Silviano Santiago já venceu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras
Reprodução
Diogo Guedes

Um monstro é algo que, mesmo estando diante dos nossos olhos, não parece pertencer à realidade que nossos sentidos captam. É, assim, um enigma por si só, uma pulsão fascinante e amedrontadora – mas só enquanto consegue manter-se perigosa. A forma de combater a monstruosidade, no entanto, não é derrotá-la, eliminá-la, porque o medo existe na lembrança, no potencial daquilo retornar. Os monstros – e isso os contos de fada não ensinam – são anulados quando são domesticados.

Quando Grande Sertão: Veredas, obra-prima de João Guimarães Rosa, apareceu, tratava-se de uma fera. “Como um monstro, ele emerge intempestivamente na discreta, ordeira e suficientemente autocentrada vida cultural brasileira”, descreve Silviano Santiago, um dos maiores críticos do Brasil. É esse romance indomável que ele se debruça no ensaio Genealogia de Ferocidade, lançado nesta terça (28) no Rio de Janeiro e já disponível nas livrarias.

O livro é a primeira obra do selo do Suplemento Literário Pernambuco, com edição da Cepe Editora. Nele, Silviano faz uma defesa apaixonada de Grande Sertão: Veredas. O leitor pode estranhar: “Defesa? Como defender uma obra quase sem detratores na atualidade?”. Silviano, na sua prosa brilhante, busca proteger a obra de Guimarães Rosa de seus intérpretes mais entusiasmados.

Alguns dos principais críticos literários do Brasil são citados na obra, nomes como Antonio Candido e Roberto Schwarz. O problema não é do mérito de suas análises, mas sim do gesto que ela promove: a domesticação de um romance que, para Silviano, é antes de tudo selvagem. Grande Sertão: Veredas surge como uma aparição no cenário literário brasileiro, sem pleitear parentesco com nenhuma escola, visão de País ou voz literária. Ainda assim, logo seus leitores mais atentos partem para forjar uma genealogia, uma estrutura, enfim, um lar confortável para esse bicho-livro.



ENXURRADA

A trama do jagunço Riobaldo, a busca por vingança e seu amor por Diadorim criam uma obra que, diz Silviano, “arrasa de vez com a bitola estreita dos trilhos por onde vinha sacolejando tranquilamente o trenzinho caipira da literatura brasileira”. Exige, então, uma outra crítica, mas a leitura que encontra é a que importa preceitos europeus, busca regionalizar a obra, tece comparações com clássicos como Os Sertões, transforma sua linguagem em um fetichismo gramatical, etc.

“Como o rio São Francisco na estação das chuvas, Grande Sertão: Veredas se entrega a todo e qualquer leitor sob a forma de enxurrada destrutiva e autodestrutiva de palavras e de parágrafos. Para navegá-lo e, afinal, atravessá-lo de cabo a rabo, Guimarães Rosa não fabrica canoa com madeira de segunda categoria”, explica Silviano.

Para uma enxurrada desgovernada, as leituras buscam ser barragens. É por isso que o selvagem de Grande Sertão: Veredas termina antropomorfizado, domesticado. “Quem domestica estabelece um contrato desvantajoso para (ou pernicioso) com o que é selvagem a fim de que no passo-a-passo da leitura – por toque, carícia, manha, beijo, amor ou por que sentimento dito humano ou nobre – traga para seu lado a figura a ser domesticada, traga-a para sua casa, para seu colo, para sua biblioteca, fazendo com que corresponda não só ao(s) interesse(s) do domesticador como também para que lhe sirva de companhia no universo pessoal e íntimo que se lhe apresenta mais e mais desabitado.”

É preciso voltar a ler Guimarães Rosa como o monstro literário que ele é. Já existe por aí muita literatura que nasceu como um inofensivo animal doméstico – deixem a ferocidade de Grande Sertão: Veredas em paz.


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