Jornal do Commercio
Poesia

Luna, Gleison e Giuseppe: a nova safra de desbravadores da poesia

Contando muitas vezes apenas com o apoio financeiro de colegas, o trio realiza saraus, concursos e festivais de poesia importantes para o Estado

Publicado em 23/04/2017, às 12h55

Luna Vitrolira, Gleison Luiz Nascimento e Giuseppe Mascena / Divulgação- Divulgação/Mariana Melo - Divulgação
Luna Vitrolira, Gleison Luiz Nascimento e Giuseppe Mascena
Divulgação- Divulgação/Mariana Melo - Divulgação
JEFFERSON SOUSA

A poesia está impregnada em cada parte da história do Recife. Muito antes de qualquer outro movimento literário da região, a Veneza brasileira já era inspiração e palco para diversos poetas e poetisas, sejam os letrados das academias ou os contistas das mesas de bares.

Os tempos mudaram, a forma de se fazer e, principalmente, de difundir poesia também. Se Antônio Maria (1921–1964) estivesse vivo, e ainda se referisse à arte de fazer poesia com “se você me encontrar dormindo, deixe; morto, acorde”, ele estaria convicto de que estamos em meio a uma geração de ótimos poetas, não apenas por seus versos, mas pela insistência em tentar “acordar” uma cena que permanece escanteada por investimentos públicos, mas firme em componentes.

Gleison Luiz Nascimento, Luna Vitrolira e Giuseppe Mascena são três amigos, jovens poetas, declamadores e desbravadores da arte. Contando muitas vezes apenas com o apoio financeiro de colegas e outros artistas, o trio realiza saraus, concursos e festivais de poesia importantes, com ênfase para o Estados em Poesia – que está em sua 5ª edição, tendo passado por Aracaju, Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Além do trio, a primeira edição do evento contou com a produção dos poetas Fred Caju e Pedro Bomba.

Gleison

Gleison Luiz Nascimento, 23 anos, é um legítimo recifense, daqueles que crescem conhecendo os becos da cidade, declama desde os 14 anos, criou e ministra a oficina de declamação A poesia o corpo a rua. Antes mesmo de vencer o Prêmio Recitata 2015, de ser membro dos grupos São Saruê e #4urubueacarniça, de protagonizar o filme Encruzilhada dos Trilhos, de Wilson Freire, e de se lançar independentemente com uma série de três livretos intitulada de Poemandalas, Gleison já era inquieto com a poesia.

“Não é inspiração, são inquietudes. A poesia é a alma que separa a arte das outras expressões do mundo. E a declamação é a defesa do poema. É a voz e o corpo do poeta vivendo em palavras. É a existência carbônica do poema”, disse Gleison, que comenta o atual cenário. “Vejo com muita estima a popularização dos saraus, sobretudo dos feitos nas favelas da RMR. A ocupação do espaço público, feita pelo movimento de fortalecimento da identidade do povo das favelas, com pautas próprias e muito bem fundamentadas, usando a poesia e outras linguagens como arma de luta me põem animado”, completou.

Confira vídeo de Gleison recitando Soneto de toda cor e, abaixo, o texto de um de seus poemas:

AO GOLPE, A LUTA (Carta-poema a Dilma Vana Rousseff), de Gleison Luiz Nascimento

"Minha querida irmã – nosso arpão, teu sabre – abre os olhos para o que há de vir

Baixamos a guarda certa vez - e o que fez surgir nosso descuido senão mais um soco em nossa cara– que o nosso queixo será sempre a rota preferida dos punhos fechados em busca de nossos vacilos para novos nocautes



- punho arqueado, então –

pés no chão - olho em tudo – costas nas costas de um irmão - sem retrovisores - deixa que alguém cuide as tuas costas – e cuida tu, as costas de alguém – e avança à guerra – e não esquiva agora – não te demores à luta – que a farra dos covardes não custa começar – que eles já cagaram em nossa história - e logo terão mijado em nossa comida –e terão tomado nossos lares– e nos farão acreditar que o esgoto é nossa casa – pois que terão invadido nossas ruas – empesteado nossos bairros – e seu discurso será dono de nossas cidades inteiras – e terão azulado as bandeiras de nossos estados – e saqueado sessenta e quatro vezes o nosso país – carcomido sessenta e quatro vezes nossa autoestima antes de cravar os dentes brancos da moralidade em nossa clavícula – e só depois nos abandonarão para assistir de longe o cumprimento desse presságio – nossa dor - nosso naufrágio –

e não pouparão punhaladas a nenhum compatriota

que ante a derrota não é dado aos ratos ter pátria."

Luna

Luna Vitrolira, recifense de 24 anos, “inquietada” pelos trabalhos de Chico Pedrosa, Marcos Passos e Lirinha, começou a escrever aos 12 anos e a declamar com 14. Pronta para lançar Passional, projeto que contará com livro, espetáculo teatral e álbum – o último com direção e produção musical do pianista Amaro Freitas –, e atuando como produtora e coordenadora do projeto de circulação nacional De Repente Uma Glosa, que leva Mesa de Glosas para outros Estados do Brasil, Luna destaca os problemas.

“Estamos vivendo uma fase política extremamente delicada e difícil, o Festival Internacional de Poesia do Recife (FIP) saiu do nosso calendário, a Fliporto também não aconteceu. Costumávamos ter muito mais atividades literárias, mas, de uns tempos pra cá, aconteceu uma programação ou outra perdida e que ninguém ficou sabendo. Se a gente não se unir pra somar forças e continuar fazendo com que a nossa arte aconteça, a cidade morre,” afirmou Luna.

Confira vídeo de Luna recitando Credo e, abaixo, o áudio de Aquenda, uma das faixas de seu projeto de poesias musicadas:

Giuseppe

“O fato é que escrever e declamar tornaram-se um vício que não causa abstinência, mas torna a sua existência oca em pouco tempo de ausência”, disse Giuseppe Mascena, 36, vencedor do Concurso de Poesia do Tribunal de Justiça de Pernambuco em 2016 com o texto Somos Sombras, e autor do cordel Invasão de vulnerável na casa do Marxista.

"Minha mãe diz que a poesia é a minha máquina de fazer bons amigos. Nós três temos uma interação artística em virtude de termos muita influência da poesia mais tradicional, com rima, métrica e cadência perfeitas, mas também temos a pegada urbana, o que deixa nossos versos livres com ritmo. Somos citadinos que conhecemos e valorizamos a poesia popular”, completou Giuseppe.

Confira vídeo de Giuseppe recitando Manifesto em redes parciais e, abaixo, o texto de um de seus poemas:

Somos sombras, de Giuseppe Mascena

"Quem não quer uma sombra toda hora? 

Uma sombra que dê somente sombra.

Não daquela que sempre nos assombra,

Quando estamos sozinhos no agora.

Sei que, às vezes, a sombra me persegue;

Também sei que ninguém nunca consegue 

Correr dela . Fugir de seu roteiro

Até mesmo o relógio e seu ponteiro,

Tanto faz ser o lento ou o ligeiro,

Tem um rastro vigia que o segue.

 

Não importa parado ou se veloz,

Ela está sempre atenta ao nosso lado.

Quem correu e voltou sentiu, cansado,

Como a sombra transforma o "eu" em "nós".

Vejo a sombra que dá o cajueiro:

Suas falhas marcadas no terreiro

São as folhas felizes que balançam.

Sem cantor ou maestro as mesmas dançam

Quando o vento as atinge, elas se lançam,

Viram sombras sem vida e sem ter cheiro.

 

Tem a sombra do amor mal resolvido,

Tem a sombra da perda de uma chance,

Tem a sombra do ex ente querido

E aquela que está fora de alcance.

Tem a sombra da falta de coragem,

O instinto da carne mais selvagem

Que se apaga por ser bem controlado.

São as sombras fatais, pois são um nó... 

Nós vivemos, morremos, e ao ser pó,

Esse nó se desfaz ao ser cortado.

 

Toda sombra é mulher desconfiada:

Está sempre por perto observando...

No momento que eu olho, ela se vira,

Não consigo flagrá-la me espiando

Quando viro denovo, ela aparece.

Pra quem fica parado, a sombra cresce;

Pra quem voa demais, a sombra some

Velhos, somos a sombra do que fomos;

Muda o porte, ela muda, pois nós somos

Meras sombras, com sorte por ter nome."

 


Recomendados para você


Comentários

Por EsioRafael,24/04/2017

O pessoal da poesia pernambucana, nunca perdeu o bonde da história, por mais ruim ou pecaminosa a convulsão dos social dos tempos. O que temos de "carrancudos", temos de coração bom. Recife, a capital do Estado comporta em seu bojo, frações representativas de um - Estado em Poesia. Grandes personalidades do mundo artístico/cultural, selam presenças marcantes na capital, embora emprestadas pelas mais distantes ou próximas cidades do interior. Nelson Ferreira, de Bonito, Carlos Fernando, Caruaru, Alberto Cunha Melo, Jaboatão, Gilvan Lemos, São Bento do Una, Chacrinha, Surubim, Cesar Amaral, Sertânia. Não é necessário exemplos clássicos cronológicos, nem biografias de funerárias. Hoje, em Recife, os estilos poéticos se condensam e se espalham em plena crise política. Mas, isso ocorreu na ditadura militar onde balas fizeram vítimas, ceifaram vidas, mas, a resistência cultural nunca morreu. A influência musical e poética entre o Recife e o interior, neste momento, está mais viva do que nunca! Gente do Pajeú pernambucano se "entoicerando" com os da capital para que juntos forneçam um material poético da melhor qualidade para o Estado de Pernambuco como um todo. - Mesa de Glosa em Recife, por exemplo se compõe de poetas "certanejos" e litorâneos, na mais fina sintonia. Isso, vem a comprovar que demarcação de terra foi mais uma invenções da burguesia. Poetas do moxotó, Sertânia, cidade que foi considerada a mais intelectualizado do interior do Estado, através da Imprensa, nos anos 70, por ter se erguido na fronteira do Pajeú pernambucano e cariri paraibano, domina a poesia escrita da região e não improvisada. Sertânia recebeu energia poética desses dois Estados nordestinos e agora, o grupo - CORAÇÃO DE POETA, vai ao Recife, se apresenta a convite do pessoal do- ESTADOS EM POESIA, momento em que as distâncias tornam-se íntimas dentre outras para justificar o gênero de cantoria: - Quando eu ia ela voltava/ Quando eu voltava ela ia. Salve o Pajeú, Salve o Moxotó, Salve o Recife! Salve a poesia!



Comentar


Nome E-mail
Comentário
digite o código
Desejo ser notificado de comentários de outros internautas sobre este tópico.

OFERTAS

Especiais JC

O Mundo de Rafa O Mundo de Rafa
Rafael foi diagnosticado com síndrome de Asperger apenas aos 11 anos. Seus desenhos contam pedaços muito importantes da sua história. Exprimem momentos de alegria, de comemoração e também de desabafo, de dor
Gastos dos parlamentares pernambucanos Gastos dos parlamentares pernambucanos
Os deputados federais da bancada pernambucana gastaram, no 1º semestre deste ano, R$ 5,1 milhões em verbas de cotas parlamentares. Já os senadores gastaram R$ 692 mil. Os dados foram coletados com base no portal da transparência da Câmara e do Senado
Um metrô ainda renegado Um metrô ainda renegado
São 32 anos de operação e uma eterna luta por sobrevivência. Esse é o metrô do Recife

    LOCALIZAÇÃO

  • Rua da Fundição, 257 Santo Amaro, Recife - PE
    CEP: 50040-100
  • assinejc.com.br
  • (81) 3413-6100

    SIGA-NOS

Jornal do Commercio 2017 © Todos os direitos reservados

EXPEDIENTE

Sistema Jornal do Commercio Grupo JCPM