Jornal do Commercio
ENTREVISTA

Bruna Beber fala sobre 'Ladainha', seu livro mais íntimo e andarilho

A poeta carioca comenta o processo de criação do livro, uma 'espécie de possessão boa'

Publicado em 25/06/2017, às 07h19

Bruna Beber é um dos principais nomes da poesia brasileira atual / Elisa Mendes/Divulgação
Bruna Beber é um dos principais nomes da poesia brasileira atual
Elisa Mendes/Divulgação
JC Online

Às vezes, não ter um destino é justamente o que permite chegar em qualquer lugar. No seu novo livro, <CF304>Ladainha</CF> (Record), a poeta carioca Bruna Beber vagueia pela própria poesia, observando com generosidade o cotidiano, o tempo, os recantos esquecidos dessa paisagem. Um dos mais instigantes nomes dos versos brasileiros da atualidade, ela fala nessa entrevista sobre o processo de criação do livro e o encantamento presente na obra.

JORNAL DO COMMERCIO – Ladainha parece um livro disposto a negar o próprio título, afinal é muito mais do que ladainha ocasional, no sentido popular do termo. Como foi compor a obra ao longo de dois anos e dar formato a essa ladainha – com números primos como título dos poemas - carregada de um ritmo e uma linguagem poética própria?
BRUNA BEBER – Foi uma experiência bem diferente dos outros livros, mais intensa, mística, logo, mais livre. Um ritual. Eu tentei ir adiante do fundo do mistério da escrita, do encantamento pela palavra, do ritmo como principal motor de composição poética. O livro exigiu de mim uma vivacidade que eu mesma impus a ele enquanto o escrevia. Foi uma espécie de possessão boa, a todo tempo eu me sentia envolta em magia, crendo que seria possível chegar a qualquer lugar, pois estava sem destino. E não há nada de superior nisso, é uma conexão terrena, mortal, com fé, de sentido, em direção ao que não é possível compreender de todo, isto é, a vida. A poesia me proporciona uma descoberta e redescoberta diária de mim mesma e do mundo. É sempre como recomeçar, o Ladainha tem muito disso, essa surpresa, essa tentativa e erro que é viver, a meu ver.

JC – Ladainha fala sobre o vento, sobre a felicidade serena, sobre a idade, sobre vizinhanças. É um livro que reflete também um momento pessoal seu?
BRUNA – Acho todos os meus livros, em certa medida, refletem momentos pessoais, mas Ladainha talvez seja ainda mais íntimo e por isso também mais do mundo, mais andarilho, mais do outro, mais estranhado.

JC – Uma das bonitas estranhezas de Ladainha é sua forma de parecer viajar no tempo – passado, presente ou momentos que nunca existiram – entre poemas e até mesmo versos. Essa temporalidade indecifrável era intencional? Foi parte do processo da escrita?
BRUNA – Sim, percebo nos meus primeiros livros – A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes (7Letras, 2006), Balés (Língua Geral, 2009) e Rapapés & Apupos (7Letras, 2010) – uma presença marcante do tempo presente, minha formação, minhas paixões, minha juventude. No último, Rua da Padaria (Record, 2013), noto a presença clara do Passado, minha infância, o lugar onde nasci, a família, a vontade precoce de cantar o já vivido. Em Ladainha, intencionalmente e por consequência, eu não escolhi o Futuro. Quis tentar criar para os poemas (e para mim, enquanto os escrevia, claro) tempos alternativos, tempos fora do tempo, não lugares. Foi uma longa caminhada.

JC – Um dos poemas do livro diz: “algo assim que parece não existir mas existe e se revela eu digo olá”. Acha que Ladainha tem dessa invenção do surreal e do cotidiano lado a lado?
BRUNA – Mas não há nada mais surreal do que o cotidiano, ou, o próprio “real”. Eu não consigo te responder o que seria o “real”. Existe de tudo e muito, tão espontâneos, concomitantes, misteriosos, diversos. Logo, não consigo te responder sobre o surreal X real pois para mim é a mesma coisa. Na poesia, invoco o mistério que circula as duas coisas juntas e o além, quando é possível, o mistério mesmo que é viver, escrever.

JC – Outro tema recorrente da obra é a própria poesia, que “carrega um rosto/ e nele um susto que nunca passou”. Sua poesia é mesmo feita de “cutículas, farelos, atrasos”? A reflexão sobre a própria poesia termina sempre reaparecendo nos seus textos?
BRUNA – Embora tenha pistas, não sei dizer do que é feita a minha poesia e gosto disso, e no Ladainha acho que esse questionamento aparece a todo momento, sobretudo porque acho que a matéria da minha poesia pode variar com o tempo e essa é a busca. Ainda tenho 33 anos, publiquei seis livros, ainda há muito o que fazer, buscar, descobrir. Em todo caso, gosto dos restos, do “pequeno”, como todo bicho humano.

JC – Ladainha também gerou gravações dos poemas, disponíveis no seu site. Pensa no livro como parte de um projeto musical, também? Há planos de ampliar essas gravações?
BRUNA – Gravar os poemas sempre fez parte do meu processo de escrita, de sua edição. No Ladainha, eu quis tornar isso público e gravei boa parte do livro em um estúdio. Alguns poemas do livro estão disponíveis para audição no meu site: http://brunabeber.com.br. Em breve, vou subindo mais poemas. A ideia de fazer um disco existe e espero poder desenvolvê-la no futuro, se for possível, mas não tenho pressa. Enquanto não, ainda pretendo gravar os poemas que faltam, regravar outros que já disponibilizei e convidar alguns amigos poetas que admiro para participar.

CRÍTICA

Um dos poemas da poeta Bruna Beber, de 33 anos, fala sobre entrar em uma casa e pensar: “se ventar agora eu vou morar aqui”. Muito da escrita do seu novo livro, Ladainha, parece ser formado tanto por essa rajada de vento do bom presságio como por essa abertura para o encantamento com o cotidiano. É como se o poema dissesse: é ao se permitir acreditar um pouco que ao menos um pouco acontece.

O volume é o quinto com a poesia da autora. Em alguns dos anteriores, como Rua da Padaria, Bruna já havia mostrado uma poética que parece despretensiosa, mas vai dando às lembranças que constrói algo que desconcertante, como diz no poema De Castigo na Merenda “a felicidade é mais/ desconcertante que a tristeza”). Ladainha segue um caminho próprio sem deixar de ser uma continuidade – sua sintaxe mexe com os lugares das palavras e das imagens de um forma diferente.



A poesia de Bruna aparece no livro mais disposta a brincar com imagens, a trazer cenários para o cotidiano – ou melhor, para desvendá-los na passagem dos dias. A cigarra que vive na goiabeira dentro de casa é “como criar uma sereia”. O silêncio, garante, não é continência: “é uma variedade particular que faz parecer que as coisas estão perplexas”.

Mais do que as lembranças, Ladainha habita um horizonte estranho, uma temporalidade difícil de definir. É nostálgico, é parte do presente, é confessional e é reflexivo, sempre deixando as pompas de lado. É por provocar essa sensação que ele continua no leitor depois de terminado.

É como se o método de buscar a morada da poesia “nas cutículas,/ farelos, atrasos” contaminasse o livro. Os versos de Bruna são generosos: “exceto os cachorros as crianças e as folhas todo o resto usa algum tipo de coleira/ a idade é uma delas”, aponta. Um dos mais bonitos é o poema 29, que começa: “Laura me leva para a água/ Não é só assim que somos felizes/ Mas aqui somos mais”. É um poema sobre a companhia e o amor como um lugar de afeto. “É sobre conseguir chegar naquilo que eu sou/ E cada vez mais perto daquilo que sou com alegria/ É uma camisa de força do avesso”. Ladainha é um livro com coleiras e camisas de força ao avesso, cheio de uma literatura desconcertante em sua felicidade poética.


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