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Pensata

Flávio Gordon acusa artistas e intelectuais brasileiros de corrupção

No beligerante livro A corrupção da inteligência, antropólogo diz que a arte e o pensamento no País são deformados ideologicamente pela esquerda

Publicado em 03/09/2017, às 06h13

Flávio Gordon: a esquerda corrompe a arte no Brasil / Divulgação
Flávio Gordon: a esquerda corrompe a arte no Brasil
Divulgação
Bruno Albertim


Intelectuais e artistas brasileiros contam agora com um novo crítico de fôlego. Filiado a uma corrente de pensamento que tem Raymond Aron, Mário Ferreira dos Santos e Olavo de Carvalho como principais expoentes, o antropólogo carioca Flávio Gordon acusa a massa pensante e criativa brasileira de ter concentrado, nas últimas décadas, sua produção a serviço da construção de um senso comum para a ascensão da chamada esquerda que tem o Partido dos Trabalhadores como principal símbolo concreto ao poder. É o que ele afirma aos longo das 364 páginas dos ensaios reunidos em A corrupção da inteligência (Editora Record, R$ 44,90), recém-lançado com farta artilharia. Para ele, artistas e intelectuais são alguns dos mais eficientes corruptos no País.

“Os agentes da corrupção de que trata esse livro não são políticos ou empresários, mas intelectuais. São, ao mesmo tempo, os corruptos, os corruptores e, paradoxalmente, as primeiras vítimas do fenômeno. O objeto de sua corrupção não é material ou financeiro, mas espiritual. Ao contrário da corrupção político-econômica, essa corrupção não traz benefícios (se não ilusórios) para o corrupto, mas, ao contrário, corrói aquilo que ele tem de mais precioso: a sua inteligência, a sua razão, a sua consciência moral. A partir daí, o dano causado pela corrupção em questão alastra-se avassaladoramente, de maneira ondulatória, debilitando a cultura como um todo”, escreve ele, acrescentando que a corrupção intelectual seria a mais perniciosa para a população. “Diferente da outra - cujos efeitos podem ser revertidos, as perdas, recuperadas, e os responsáveis, condenados -, essa corrupção produz estragos duradouros e, muitas vezes, irreversíveis”.

Gordon relaciona diretamente a atuação desses criadores e pensadores brasileiros com a corrupção flagrada nos governos do PT no Brasil. “Aliás, foi ela (a corrupção da inteligência) que, entre outros males, deu origem a um clima de opinião e a uma legitimidade cultural sem os quais o partido que governou o Brasil por treze anos - e ainda achando pouco - não teria conseguido institucionaliar a outra, fazendo dela, mais que um meio de enriquecimento ilícito, um instrumento para solapar as bases da democracia, tendo em vista um poder cada vez mais absoluto e ilimitado. Também ao contrário da outra, a corrupção que aqui nos interessa não é criminalizável, porque não diz respeito a algo que os atores simplesmente fazem, mas a algo que eles vieram a se tornar, algo que eles são e, em grande parte dos casos, não conseguem deixar de ser. Trata-se de uma corrupção que envolve o intelecto e a personalidade - uma corrupção da inteligência”.

ORGÂNICO

A origem do panorama, diz ele, começou quando, no final da ditadura, popularizou-se no Brasil o pensamento do marxista italiano Antonio Gramsci, para quem, antes de acontecer nas instituições, a revolução deveria acontecer nos espíritos. Os intelectuais deveriam, portanto, atuar de forma orgânica - guiados pela ética revolucionária para se produzir a coalizão dos espíritos.

“Porque a conquista da hegemonia requer uma intensa atuação de organizadores e persuasores permanentes”, diz ele, lembrando a distinção entre intelectuais orgânicos e tradicionais. Os primeiros produzem conteúdos conscientemente políticos. Os segundos, estéreis, produziriam pensamentos que se bastem. “À primeira vista, o projeto gramsciano pode parecer totalitário. À segunda vista, também. Mas numa terceira vista,...também. Isso porque o projeto é mesmo totalitário”, ele escreve. “Apesar da mudança de método, o plano de Gramsci continua a perseguir o mesmo objetivo dos totalitarismos da primeira metade do século 20: a eliminação do dissenso e da heterogeneidade política com vistas à construção de um novo homem. Artistas e intelectuais seriam apenas os “engenheiros de alma”.



Num dos capítulos, o antropólogo faz, didaticamente, uma longa digressão sobre o pensamento gramsciano. Capaz de esclarecer também quem dele se posicione intelectualmente. “Conforme a clássica formulação de Gramsci, todos os homens são intelectuais, pode-se dizer. Mas nem todos os homens desempenham a função de intelectuais. O intelectual teria como função a profunda transformação do senso comum, a princípio, claro da ‘revolução’ comunista. As revoluções se fazem no espírito antes de passar para as coisas. E o partido seria aquilo que Jean Jacques Rosseau denominou de “a vontade geral.”, diz ele.

Ele chega a comparar politicamente artistas intelectualizados, como o compositor e também escritor Chico Buarque de Hollanda, ao líder da banda baiana de neo-axé Psirico. “O leitor brasileiro não deve se espantar quando, por aqui, o cantor da banda Psirico diz que seu hit carnavalesco Lepo lepo é um “grito contra o capitalismo”. Talvez pareça piada, mas o cantor é um perfeito intelectual orgânico gramsciano. Evidentemente, nem ele, nem seus fãs precisam conhecer a crítica de Marx ao capitalismo. Basta “saber” e cantar e repetir que o capitaimso é algo ruim”, ele diz.

Roberto Schwarz e Fernando Henrique Cardoso, no final dos anos 1960, foram, na visão do autor, um dos primeiros intelectuais brasileiros a fazer menção às ideias de Gramsci num artigo publicado na Les temps modernes, a célebre revista fundada por Sartre e Simone de Bovoir, quando se disseminou no País o conceito gramsciano de hegemonia. “A partir de 1973, sinal dos tempos, o Comitê Central do PCB julgara estrategicamente interessante afirmar uma analogia entre a realidade italiana de 1930 e a situação brasileira de então. Numa tal reorientação, a persona de Gramsci emergia como um poderoso símbolo político. Dentro da academia, o interesse por Gramsci se intensificou e ele alcançou novas áreas, dando origem a uma verdadeira idolatria grascimania. Somente na década de 1990, aproximadamente um terço das dissertações e teses no campo acadêmico-educacional citavam o nome do autor dos Cadernos do cárcere”.

 

Com a redemocratização após o fim do Ato Institucional de número 5 da Ditadura Militar, ele diz, músicos populares e intelectuais criaram o ambiente perfeito para que o Partido dos Trabalhadores ascensdesse e promovesse uma contínua intsrumentalização do Estado. “O aparelhamento petista do Estado do estado - que transformou o Legislativo e parte do Judiciário, além de uma dezena de entidades de classe e organizações da sociedade civil (UNE, OAB, CNBB) em meros órgãos foi precedido de um profundo aparelhamento da cultura”.

“Desde então, com o fim da ditadura e o início da assim chamada “Nova República, a intelectualidade de esquerda - que, mesmo durante o regime de exceção nunca deixara de ser hegemônica nas redações, nas universidades e no mercado editorial - passou a compor com o PT um perfeito “intelectual coletivo”, ocupando mais e mais espaço em todos os redutos de formação de opinião pública, e difundindo a cada oportunidade uma imagem edulcorada e mítica do partido e de seu principal líder, Luiz Inácio Lula da Silva. O PT virou o partido da ética, havendo nesse rótulo ecos da concepção gramsciana de “Estado étioco”; Lula, assim, virou um messias”, diz o autor que, se estiver plenamente certo, não deve ter muita repercussão de seu livro na mídia. Como diz ele, as redações de jornais e revistas estariam também impregnadas pelo mesmo espírito gramsciano de outras esferas do pensamento brasileiro.


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