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QUADRINHOS

O traço fantástico do quadrinista Marcos Santana

Comissário de polícia, ele desenha nas horas vagas e prepara o primeiro álbum gráfico

Publicado em 08/09/2017, às 19h03

Quadrinista Marcos Santana / Diego Nigro/JC Imagem
Quadrinista Marcos Santana
Diego Nigro/JC Imagem
Ernesto Barros

O pernambucano Marcos Santana, 38 anos, está a um passo de realizar um sonho alimentado desde a adolescência: desenhar histórias em quadrinhos, de preferência com enredos fantásticos e passados em mundos que só existem em sua imaginação. Depois de um grande hiato, em que concluiu os estudos e foi trabalhar em segurança – serviu no Exército, na Polícia Militar e agora está na Polícia Civil –, o comissário da Delegacia de Ibura finalmente encontrou tempo para desenhar a sua primeira graphic novel: a instigante O Escafandrista & o Camaleão, que acaba de concluir e que deve ir à gráfica na próxima semana, a tempo de ser lançada na XI Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, em outubro.

Filho de um operário da indústria e uma costureira, Marcos teve uma infância bucólica na área do Engenho Santana, em Jaboatão dos Guararapes, atualmente já transformada em área condominial e com uma feição totalmente urbana. A paixão pelos quadrinhos intensificou-se por volta dos 10 anos. Ao ir para a escola, ele parava numa banca de revista: paquerava todas as publicações, enquanto ouvia o dono falar que para ler tinha que comprar. “E como todo dia eu passava por lá, acabei tendo meu primeiro emprego, ainda de menor, trabalhando nessa banca de revista. Eu tive contato com todo tipo de quadrinhos do começo dos anos 1980, dos autores europeus, da Vertigo e também os infantis. Eu lembro de série de Batman, como Faces e Veneno, que eu ainda tenho na minha cabeça”.

O sonho de ser quadrinista teve seu maior impulso quando, na metade dos anos 1990, ele viu que muitos desenhistas brasileiros estavam sendo contratados para trabalhar em editoras americanas, como a Dark Horse, a Marvel e a DC Comics. Nessa época, desenhistas de todo o Brasil – como o paraibano Mike Deodato e o pernambucano Sergio Cariello – tiveram sua vez em títulos de Batman, Mulher Maravilha e Super-Homem, entre tantos outros personagens. “Eu mandei meu material para o Estúdio Artcolor, de São Paulo. Depois eles mandaram um carta, onde diziam que meu estilo não se enquadrava no perfil do mercado americano. Naquela época, muitos desenhistas precisavam copiar o estilo de caras já consagrados como John Byrne e Jim Lee, e o meu era mais old school”.



Para conseguir os recursos para editar O Escafandrista & o Camaleão, Marcos fez uma adaptação do crowdfunding, o financiamento coletivo que já se tornou uma prática comum na produção de bens culturais. Mas, ao contrário de procurar o Catarse, o Kicante e a Vakina, ele teve uma sacada certeira: criou um grupo no WhatsApp e conseguiu, por meio da colaboração de 80 amigos, um valor para bancar 50% da edição da graphic Novel.

NANQUIM E AQUARELA

Embora nunca tenha abandonado os quadrinhos – enviou charges para Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, em 2007 –, só agora que Marcos volta com todo gás aos desenhos. A decisão não nasceu da noite para o dia, mas desde 2014 a ideia estava se formando em sua cabeça. “Acontece que passei por uma tragédia familiar, com a morte do meu pai, em 2013, e da minha mãe, em 2015. Depois da morte deles, precisei fazer algo que eu gostava e voltei a desenhar. Fiz um curso de ilustração, no Senac, e outro de aquarela, com uma professora. Voltei a uma ilustração que fiz em 2014, que tem um escafandrista ao lado de um arbusto seco e um camaleão. Achei que dava história”.

Com a imagem do escafandrista na mente, em menos de cinco dias ele fez o lay-out das histórias. Na prancheta montada em seu apartamento, no bairro de Peixinhos, onde mora com a professora Cibele e duas filhas, Marcos soltou a imaginação para desenhar em nanquim e aquarela. Para quem gosta de desenhos adultos, histórias complexas e sacadas pop (como uma brincadeira com The Beatles), a primeira graphic novel de Marcos Santana é uma grata surpresa.


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