Jornal do Commercio
ENTREVISTA

Escritor que lançou livro sob pseudônimo de Eduardo Cunha vem ao Recife

Ricardo Lísias participa neste sábado (23) da Fenelivro. Confira a entrevista realizada pelo Jornal do Commercio

Publicado em 22/09/2017, às 19h46

Lísias está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura / Foto: Divulgação
Lísias está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura
Foto: Divulgação
JC Online

Foi sob o pseudônimo de Eduardo Cunha que o escritor paulista Ricardo Lísias lançou seu livro mais recente, Diário da Cadeia. Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e semifinalista do Oceanos – que ganhou em 2006 –, ele está no Recife hoje palestrando às 11h, na Fenelivro, sobre a temática da representação e de seu livro A Vista Particular. O escritor conversou por email com o Jornal do Commercio sobre arte e literatura no Brasil contemporâneo, censura e sua vinda à capital pernambucana.

Confira a entrevista:

JORNAL DO COMMERCIO – Sua obra e seu nome são, muitas vezes, tidos como polêmicos. Seja pelas temáticas abordadas em seus livros, ou pelo fato de sua escrita desafiar o leitor ao ponto dele não saber o que pode ser real e o que é ficcional. Por que você acha que muita gente se incomoda com isso?
RICARDO LÍSIAS - Não acho que eu tenha nada de polêmico. A questão é que procuro lidar com temas que me pareçam relevantes, o que naturalmente envolve algum grau de risco. Uma parte razoável do público da literatura em geral ainda espera narrativas que “representem a realidade”, que façam algum tipo de mimesis. Tenho me afastado disso já há algum tempo, o que então causa estranhamento. Como prefiro interferir na realidade, parece-me normal que isso cause incômodo. Muitos leitores preferem não ser retirados de sua zona de conforto e receber textos cuja formatação lhes seja de algum modo clara e neutra. No Brasil, uma sociedade que tradicionalmente reluta em protagonizar qualquer tipo de conflito, acho que isso acaba causando mais incômodo ainda.

JC – Li em uma entrevista que você deu em 2015 que, na sua opinião acerca, a literatura contemporânea brasileira ela estava acomodada. Como você enxerga agora o cenário?
LÍSIAS –Acho que há sinais de reação sim, aqui e ali. Mas das artes em geral, parece-me que em sua maior parte ela ainda está se sentindo muito bem em seu ambiente protegido. Vou dar um exemplo simples: nas últimas semanas as artes em geral voltaram a ocupar grande espaço na discussão nacional. Nesse debate estiveram inúmeras obras de artes plásticas e uma peça de teatro. O filme de Kleber Mendonça Filho já vinha de causar também ruído. É interessante notar que, dos processos que respondi na justiça, recebi mais solidariedade de artistas de outras áreas e de críticos literários. De ficcionistas, quase nenhuma...

JC – Você está vindo ao Recife para falar, na Fenelivro, sobre o tema “intervenção”. O que o leitor pode esperar dessa sua fala?
LÍSIAS – Pretendo justamente tratar da questão da “representação”: o que acontece quando um livro deixa de “representar” a realidade para procurar se relacionar com ela de outra forma? Vou mostrar as minhas inquietações para o público e espero ouvir as dele.



JC – Sua participação na Fenelivro será também para falar do seu livro A Vista Particular, no qual a arte e a violência urbana são abordadas ironicamente, fazendo uso de personagens reais, como Luiz Felipe Pondé e Maria Rita Khel. Existe uma linha tênue entre humor, ironia e deboche?
LÍSIAS – Para mim, não. Mas não quero intervir nos sentidos que cada leitor pode construir. Assim, cada um pode interpretar o uso dos nomes na narrativa como achar mais conveniente. Quero apenas dizer que se estou precisando lançar mão por exemplo no nome de um jornalista importante, não vejo motivos para inventar qualquer nome diferente do de um jornalista importante. A propósito, muitos autores fazem isso: Michel Houllebecq por exemplo tomou alguns políticos franceses contemporâneos como suas personagens. Philip Roth também nos Estados Unidos. Não compreendo porque isso causa tanta discussão no Brasil.

JC – Seus trabalhos permeiam tanto o romance quanto o conto e a crônica. Há algum gênero literário com o qual você mais se identifica e gosta de trabalhar?
LÍSIAS – Eu trabalho com os gêneros ligados à prosa. Embora leia diariamente, não tenho aptidão nenhuma para a poesia.

JC – Casos recentes no cenário cultural brasileiro – como o encerramento da mostra QueerMuseu, em Porto Alegre – vem mostrando a força de grupos conservadores. O que casos como esse têm a dizer sobre nossa sociedade?
LÍSIAS – Acho que é preciso observar com cuidado a situação. Não são apenas grupos conservadores que praticam a censura. Muita gente que se enxerga como “de esquerda” também propõe censura. Aconteceu comigo, inclusive. Ultimamente a situação se tornou mais ruidosa. O Brasil tem no seu cerne a violência, e a censura é uma de suas formas. Como vivemos tempos institucionalmente muito delicados, ela parece rondar com mais perigo. Por outro lado, é bom que a arte esteja incomodando. É assim que deve ser. Uma peça foi proibida por um juiz de São Paulo, mas outro do Rio Grande do Sul deu uma sentença favorável ao espetáculo que é além de tudo uma enorme aula de tolerância e liberdade de expressão. As coisas só estarão perdidas quando começarmos a ter medo. Eu não vou ter medo de falar o que eu quiser e da forma que eu achar mais adequada para o meu projeto artístico.


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