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Poesia oral

Poesia oral do Pajeú em documentário de Petrônio Lorena

Filma mostra riqueza e importância de glosadores e repentistas

Publicado em 14/03/2018, às 08h08

Severina Branca e Jorge Filó, abrindo o documentário / foto: divulgação
Severina Branca e Jorge Filó, abrindo o documentário
foto: divulgação
JOSÉ TELES

O Silêncio da Noite é que Tem Sido Testemunha das Minhas Amarguras, documentário de Petrônio Lorena, teria um título muito longo, não fosse ele um mote glosado por Severina Branca, poetisa, e personagem lendária de São José do Egito, no Sertão do Pajeú. Uma região onde surgiram alguns dos mais importantes nomes da poesia oral do Nordeste.

O enfoque do documentário (financiado por edital do Funcultura), que estreia amanhã no Cinema da Fundação/Museu, é uma panorâmica sobre este fenômeno ainda sem explicação definitiva. Por que essa região, em que Pernambuco e Paraíba se avizinham, é celeiro inesgotável de poetas do improviso desde o século 19?

O músico, poeta e declamador Antonio Marinho descendente da nobreza da cantoria de viola do Pajeú (seu nome é o mesmo do bisavô, célebre cantador, falecido em 1940) apresenta sua versão diante das câmeras. A cantoria surgiu de influências portuguesas e árabes, então como negros analfabetos, alguns escravos, estão entre os primeiros grandes poetas do repente?

O doc não se aprofunda na procura dessa incógnita poética, até porque ele é centrado pessoas que vivem em São José do Egito, a Prata e Ouro Velho, onde quem não tem o dom do improviso, sabe de cor os versos dos conterrâneos privilegiados: “Briga de quem é mal casado/ suporta o labacé de mau vizinho/ ir de pé pro motel dormir sozinho/ ouvir missa de pra amancebado/ beber cana e depois dormir pelado/ com um tarado querendo me alisar (...), o que a vida me põe para fazer/ são as coisas que faço sem gostar”, quem declama os versos é o barbeiro de São José do Egito.



A lista de poetas, e declamadores nos créditos do doc é extensa, o diretor deve ter usado de muita diplomacia para selecionar quem entraria no filme. Alguns obviamente são presenças obrigatórias, caso de Zé de Cazuza, que inteira 90 anos em dezembro, e continua com uma memória prodigiosa, fiel depositário de centenas de poemas de dezenas de poetas. Ele aparece várias vezes no filme, assim como Nõe de Job (filho de Job Patriota, um dos grandes da história do repente), Didi Patriota, e a citada Severina Branca, glosadora, boa de cachaça e de poesia que, dizem, foi mulher bela e conviveu com os grandes da cantoria (ela, com o poeta Jorge Filó, abrem o filme).

BOÊMIA

Não por acaso, as ruas da cidade acabam quase sempre num bar, ou em alguma farra (Petrônio usou imagens da Festa de Louro – Lourival Batista, em janeiro de 2015). Num sarau, em praça pública, a poetisa Graça Nascimento declama duas odes fesceninas ao membro viril do seu amado: “No prazer de entregar e possuir/num só ato a delícia de existir/de senti-lo me regando com a vida”, a estrofe final de uma delas.


Do fescenino para o lírico, num improviso de Lourival Batista: “Meus filhos são passarinhos/ que vivem dos meus gorgeios/ eu para encher seus papos/ cato grãos em chãos alheios/ e só um grão no meu/ quando vejo os deles cheios”. A poesia oral que o filme mostra é espontânea, não tem a formalidade dos improvisos nos desafios de cantadores, que trocaram o bom humor e a malícia pela rima perfeita. Na terra da cantoria, poesia é diversão e deleite. “Sentir poesia tem muito a ver com cachaça”, afirma Didi Patriota, enquanto Nõe de Job, entre baforadas, verseja: “Respira fundo e acende um baseado/ a poesia é metal pesado/ e a vida uma ferida aberta”.

 O filme termina com o mote do poema que lhe deu o título, declamado pela poetisa Marina Telles. Petrônio Lorena com o grupo As Criaturas interpretam canções do diretor (o filme também tem intervenções do artista plástico Lourival Cuquinha, neto de Lourival Batista). Doc oportuno, que direciona os holofotes sobre uma arte que, fora do seu habitat, circula apenas em pequeno nichos de apologistas.


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