Espécie de Targifor encarnado em mulher, Jennifer Lopez (atriz, cantora, produtora,jurada,empresária, apresentadora) encerra hoje sua série de shows no Brasil trazendo as pedras fundamentais do pop contemporâneo: cabelão, bunda hiperbólica, coreografias, figurino de cristais, “Put your hands up in the air”. A turnê Dance again é uma exuberante síntese do que é altamente desejável no plano do baticum para as massas, a celebração de uma vida que, came on baby, é sempre brilhante e sexy, é uma enormidade de felicidade e às vezes, só às vezes, um pouquinho dramática.
J-Lo, como é chamada por íntimos e não-íntimos, conseguiu no entanto dar um toque pessoal nessa grande indústria da alegria turbinada. Ela ultrapassou a barreira do “exótico” que tanto engessa outras estrelas no reino de Hollywood (a exemplo de atrizes como Salma Hayek e mesmo Penelope Cruz). A maneira para superar a rígida hierarquia das celebridades norte-americana se deu justamente através do acionamento da tecla (pessoal) multifunção: o início de carreira como atriz de sitcom (Living color, na Fox) e dançarina de Janet Jackson poderia ser o máximo que uma garota do Bronx poderia almejar. Antes, nos anos 80, havia atuado em produções de baixo custo (My little girl), que só fizeram aguçar seus sentidos para o starsystem. Os pais preferiam que a filha seguisse um caminho “normal”, já que se dava incrivelmente bem nos esportes escolares.
J-Lo arrumou as mochilas compradas na periferia de NY e foi morar em Manhattan: era ali que iria mostrar aos pais que eles estavam errados. Atuou em musicais da Broadway, fez uma excursão pela Europa. Tudo muito legal, se ela não estivesse apenas ali, no coro, como mais uma menina bonita usando um maiô. Jenny (outro diminutivo) sabia que podia ganhar uns milhões a mais. Logo depois de Living colour, ela virou a garota que sempre estava nos filmes voltados para a imensa comunidade latina que reside nos EUA: em 1995, fez Viver em Los Angeles e O comboio de dinheiro, e, em 1996, em Sangue e vinho. A grande oportunidade veio com o convite para interpretar Selena (1997): sim, era outro papel latino, mas o potencial altamente dramático da personagem daria chance de Jennifer mostrar que não concentrava seu talento apenas no hoje famoso derrière. Recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz pela interpretação da cantora ranchera assassinada aos 23 anos e aí os milhões que ela almejava começaram a entrar aos jorros em sua conta. E aí ela mostrou aos pais que eles estavam errados.
Depois de Selena, vieram mais filmes, entre eles o constrangedor e engraçado Anaconda(1997) e os simpáticos Encontro de amor (2002) e A sogra (2005) (sua mais recente atuação, O que esperar quando você está esperando, acontece ao lado de Rodrigo Santoro, outro latino que também sofre com o status menos prestigiado dos latinos em solo hollywoodiano). Jennifer Lopez também alimentava a carreira como cantora: o primeiro disco,On the 6, veio em 1999: trazendo a cantora com um minúsculo shortinho na capa, ele foi parar nos 10 mais da Billboard. J-Lo veio em 2001 e seu lançamento foi animador: 272 mil cópias na primeira semana. Mas foi no com o terceiro, This is me... then (2002) que ela pôde finalmente dizer que sim, era rica, gostosa e a prova viva e torneada de que latinos podiam, na nova ordem da indústria das celebridades, alcançar o primeiro escalão da fama nos Estados Unidos.
O show de hoje à noite (dentro da primeira edição do Arte Music Festival, que ainda traz outra mulher-Targifor, Ivete Sangalo, e a banda Dexterz, com Junior Lima), ela surge gritando a própria glória através do figurino repleto de cristais assinado Zuhair Murad. Cercada por duas dezenas de bailarinos, Jenny deve abrir a apresentação, que no Rio e em São Paulo durou 1h40, com Get right. É um show que também traz o ápice da carreira dessa persona que há anos J-Lo vem lapidando: o mulherão que instrumentaliza o corpo para se inserir na arena do pop (no vídeo I'm glad, ela mostra que não está para brincadeira) ao mesmo tempo em que usa esse corpo para abrir uma nova trincheira na escala da fama. Nesse novo espaço, não há porque interpretar apenas os mesmos tipos ou dirigir-se a uma comunidade específica: em Jennifer Lopez, a “latinidade” deixou der ser um problema e uma prisão para transformar-se em precioso capital.
Serviço:
Ingressos vendidos no site Bilheteria Virtual (https://www.bilheteriavirtual.com.br) e nas lojas Chilli Beans. Camarote Open Bar: R$ 370; Front Stage (Área VIP): R$ 170; Pista: R$ 180, inteira, e R$ 90, meia-entrada (mais informações pelo telefone: 3038-6820)

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