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A cólera e a solidão de Vitor Araújo

Pianista pernambucano lança no próximo sábado (22) o novo álbum A/B, dentro do festival Coquetel Molotov, no Teatro da UFPE

Publicado em 20/09/2012, às 06h12

Pianista traz em A/B dualidade entre a solidão e a ira / Tiago Calazans/Divulgação

Pianista traz em A/B dualidade entre a solidão e a ira

Tiago Calazans/Divulgação

Renato Contente

Talvez a melhor definição para o pianista Vitor Araújo na época de seu primeiro álbum, Toc (2008), seja a que Tibério Azul escreveu no texto de apresentação do novo disco do amigo e parceiro na banda Seu Chico. Sobre quem dizia que o talento flamejante do pernambucano se tratava de um “arroubo juvenil”, Tibério contra-argumenta: “Vitor não pisava simplesmente no piano, ele mergulhava no instrumento como um casal adolescente descobre pela primeira vez a vontade de se perder no outro. (...) Raiz de toda concepção artística, ele dizia muito mesmo sem saber ao certo”.

Com A/B, álbum que é lançado no próximo sábado (22) dentro do festival No Ar Coquetel Molotov, Vitor reaparece com um produto mais domado e refinado, com o qual demonstra nutrir domínio quase senhorial sobre a própria arte. “Vivi muitas coisas desde 2008, coisas que entortaram com força minha cabeça, como o convívio com grandes mestres e com a cena alternativa pernambucana”, lembra o pianista, reverenciando Caetano Veloso, o encenador José Celso Martinez e o cineasta Cláudio Assis, com quem contribuiu, de corpo nu, para a poética marginal de Febre do Rato. Da cena local, os laços com Tibério Azul, China e os integrantes da Mombojó ajudaram o rapaz a delinear novos anseios artísticos, e também a trafegar seu eruditismo em plataformas cimentadas pelo pop.

Clique aqui para conferir o clipe de Baião, novo single de Vitor Araújo

A/B, concebido em duas partes, traz no nome a polaridade que apresenta em toda sua extensão. No lado A, sombrio e melancólico, o ouvinte se depara com uma solidão inflamada, mas contida, repartida em quatro: Solidão nº1, nº2, nº3 e nº4. O mote para as peças clássicas, diz Vitor, foi a consciência de estar só. “São quatro partes de um único sentimento, pontuado pela angústia de perceber que somos sós; só um cérebro, só um coração”, explica.

Sobre o processo de criação da suíte, o pianista explica que recorreu a personagens domados pela angústia, “a ponto de endoidarem”. “Fui buscar substância em Raskolnikov, de Crime e castigo de Dostoievski; Roquentin, d’A náusea de Sartre; até filmes como Últimos dias, de Gus Van Sant, ou Clube da luta, de David Fincher”, lista.

O lado B, raivoso e irascível, como bem define o autor, é a reviravolta. Em quatro faixas, Vitor conta com participações especiais para descavar o grito contido no lado A. “Queria conceber quatro músicas que se conectassem de alguma forma, e conto com um artista diferente em cada uma para sempre trazer uma nova informação. Queria que o B fosse, aos poucos, se sujando”, destrincha.

Baião, single que já foi encorpado com um clipe, abre a segunda parte do jogo de sentimentos contrapostos. O som nervoso do piano, que no final apresenta uma interferência de samplers de Yuri Queiroga, anuncia a tsunami de ansiedade que vem em seguida. Jongo, peça de Lorenzo Fernandez, traz um rock experimental ligado a raízes ancestrais em bela parceria de Vitor com Naná Vasconcelos (“possivelmente a maior honra que já tive na carreira”) e, na sequência, Veloce, de Claude Bolling, numa interpretação com Rivotrill. No ato final, Macaco Bong empresta sua densidade para Pulp, peça que Vitor concebeu baseado nos livros de Bukowski e no cinema de Robert Rodriguez.

O disco será disponibilizado para download logo depois do show de estreia, e contará, no site do músico, com o suporte de um filme-arte produzido por ele, os diretores de vídeo Pedro Escobar e Pedro Maia e o designer Raul Luna. Este último, além disso, também assina a arrojada concepção gráfica do novo trabalho, que traz “pedaços” flutuantes de Vitor para dialogar com a densidade do álbum, seja através da frieza do A ou da cólera atiçada de B.

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