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SOLO

Felipe S, da Mombojó, abre seu baú de canções em 'Cabeça de Felipe'

Com estúdio montado em casa, o vocalista da Mombojó produz como nunca e lança disco inteiramente realizado por ele mais participações de outros pernambucanos

Publicado em 23/01/2017, às 09h01

'Cabeça de Felipe' é lançado pelo selo Jóia Moderna, do DJ Zé Pedro, que tem voltado atenção para os pernambucanos / Foto: Luan Cardoso/ Divulgação
'Cabeça de Felipe' é lançado pelo selo Jóia Moderna, do DJ Zé Pedro, que tem voltado atenção para os pernambucanos
Foto: Luan Cardoso/ Divulgação
GGabriel Albuquerque

Em 1985, o artista plástico pernambucano Maurício Silva realizou sua primeira exposição individual com a série Cabeças de Olinda. Uma dessas peças era Cabeça de Felipe, que tem uma impressão em pedra litográfica da mão de Felipe Souza, seu filho, na época com dois. Mais de 30 anos depois, Felipe S retorna àquela obra do pai e a transforma na capa e título de seu primeiro álbum solo: Cabeça de Felipe, lançado hoje pelo selo Joia Moderna, do DJ Zé Pedro.

Em 2015, o vocalista da Mombojó lançou o single Concreto, uma parceria com Rodrigo Sanches inspirada no barulho de uma obra que acontecia ao lado de sua casa, em São Paulo. Na ocasião, Felipe afirmou que a música não era um anúncio de uma carreira solo. Mas ele foi praticamente levado a fazer um disco quando montou um pequeno estúdio em casa, ao se mudar do bairro de Perdizes para a Vila Madalena.

“Montei um estúdio nos quarto dos fundos e minha produção aumentou muito. Posso montar meus equipamentos e gravar tudo. Comecei a ver que agora poderia fazer minhas próprias coisas também e não só esperar alguém gravar as minhas músicas”, conta ele. “Comecei a fazer o disco em julho, seis meses depois de me mudar, e ficou tudo pronto muito rápido”.

O álbum apresenta um enquadramento pessoal da visão musical de Felipe. Além da Mombojó, ele já passou pelo Maquinado, Trio Eterno, 3 na Massa e outros projetos. Mas desta vez é o seu universo particular. São dez canções escritas e produzidas pelo próprio, gravadas em casa e com pequenas participações dos amigos, tanto em voz e instrumentos quanto composição – Vitor Araújo, Alessandra Leão, Tibério Azul, Sofia Freire, Juliano Holanda, Publius, China, entre outros.

“É um recorte da minha proatividade como músico, produtor e compositor”, resume Felipe. “Tenho cerca de 60 músicas gravadas com o Mombojó, mas tô sempre mandando músicas para outros artistas. Santo Forte eu fiz para Mart’nalia. Sabe Quando eu fiz por encomenda para Filipe Catto. Esse espaço surge muito para abrigar essa produção porque com o Mombojó a gente cria junto, do zero”.

Anedota Yanomami, a faixa que abre Cabeça de Felipe, foi concluída, em 2015, sob o impacto da tragédia em Mariana (MG) em que um rompimento da barreira de dejetos da mineradora Samarco jogou 62 milhões de metros cúbicos de lama tóxica no Rio Doce.

“Aquilo me marcou muito”, assume. “Escrevi ela como fosse um sentimento, um devaneio. E lembrei de um sonho que já tive de um índio conversando comigo numa língua que eu não entendia”. Ele canta: “Isso é uma arma no bolso do moço/ Não é aventura é desilusão/ Tudo é uma passagem para o infinito/ Ai de quem não ouvir”.

A inspiração para Nova Bandeira também foi trágica. “Em 2013, fui bastante nas manifestações da Paulista. E depois delas (de um ato) uma cena me marcou: um cara com estereótipo do skinhead e com bandeira do Brasil estava quase brigando com um amigo meu porque ele era nordestino. Eu pensei: a gente tá no extremo da convivência entre nós e acho que a tendência é piorar – os lados não vão tolerar um ao outro e os que seriam os tolerantes só se tornam mais intolerantes”, reflete.

Apesar dessas duas faixas, o disco é leve como uma brisa de verão e tem um clima otimista, esperançoso – especialmente na trinca Calçada Proibida, Santo Forte e Da Capoeira Pro Samba. “Eu canto bem alto a cada dia para comemorar/ O meu santo é forte/ E não na sorte quero acreditar”.

Felipe diz que fará apresentações com o repertório do álbum em diferentes formatos. Ele tem uma apresentação marcada no Recife para o dia 19, no primeiro andar do Edifício Texas, onde terá um cenário e participação de Homero Basílio, responsável por algumas percussões do álbum. Outros músicos pernambucanos também devem ser convidados até o show.

CRÍTICA: INTERPRETAÇÃO QUEBRA O RITMO DO DISCO

Cabeça de Felipe é um disco sem muitos rebuscamento, tanto na produção musical quanto nos arranjos mínimos – no geral, são apenas violões, vozes e teclados acrescidos da percussão de Homero Basílio (da Joinha Records). 

Essa escolha sonora ressalta a beleza singela das letras, como o sonho luminoso de Nova Bandeira em frente ao acirramento ideológico no País (“Vou fazer uma nova bandeira/ Inteira verde e lilás/ Com uma porta bandeira e uma pitombeira/ De bonsai”). Ou o clima escuro e misterioso de Anedota Yanomami.

Mas a voz de Felipe é um complicador para o conjunto do álbum. Na verdade, não é exatamente a voz, mas a sua interpretação monocórdica que atrapalha. Felipe diz que selecionou as faixas do disco de modo a gerar uma possibilidade de “interpretar diferentes personagens”. Entretanto, ele canta todas as faixas com o mesmo tom de preguiça e descontração praieira. Às vezes a impressão é de que Papapa, do Mombojó, está tocando em looping por 36 minutos.

Além das músicas soarem parecidas entre si, a diversidade lírica é enfraquecida pela forma como Felipe interpreta as dez faixas, sempre em voz amansada e de pouco impacto.

Não é à toa que a melhor faixa do disco é Vão, encaixa perfeitamente no contraste da voz dele com o tom seco e ardente de Alessandra Leão. Eles cantam: “Se uma vez eu fui vidro e fui navalha/Outra vez serei ferro e grão de areia”. Esta é a única letra que não é de autoria de Felipe. Trata-se de uma composição “lado b” de Juliano Holanda e Publius gravada apenas pelo Mestre Ferrugem há dois anos

O positivo da empreitada solo de Felipe S é a servir como um cartão de visitas de sua produção enquanto compositor. Departamento do Amor, Calçada Proibida e Nova Bandeira, por exemplo são letras e melodias com um brilho cativante e que poderiam ficar na gaveta por tempo indefinido, esperando que alguém as gravasse – Mart’nália e Filipe Catto acabaram não gravando Santo Forte e Sabe Quando, por exemplo. Mas o disco, em seu resultado final, ainda precisa de uma injeção de ânimo.

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