Jornal do Commercio
Violão

Henrique Annes preserva a memória do violão em Pernambuco

Primeiro concerto solo de Anne aconteceu há 50 anos

Publicado em 18/03/2017, às 07h10

Henrique Annes, em 1967, a estreia solo. / foto: JC Imagem
Henrique Annes, em 1967, a estreia solo.
foto: JC Imagem
JOSÉ TELES

Uma tarde, quase meio século atrás, Brivaldo Franklin, radialista, jornalista, apresentador, e comediante (fazia o popular personagem Zé do Gato) desceu do ônibus em Jardim São Paulo, bairro onde morava. Voltava da TV Jornal do Commercio, onde trabalhava. De uma casa, em frente à parada do coletivo, escutou um violão. Foi ao portão, bateu palmas, apareceu um senhor. Brivaldo lhe perguntou quem estava tocando. O senhor respondeu que era o filho dele. Zé do Gato quis conhecê-­lo. Elogiou o jovem violonista, e prometeu que o levaria para tocar no programa Quando os Violões se Encontram, da Rádio Jornal do Commercio.

 No domingo, Henrique José Pedrosa Annes, 14 anos, estava no estúdio da Rádio Jornal do Commercio, em meio aos músicos que tanto admirava e cujo programa era retransmitido pelos alto-­falantes que havia numa praça em Jardim São Paulo.

 Realizado em 2013, no Teatro Boa Vista, um concerto daquele garoto, agora o celebrado violonista Henrique Annes, que completava 50 anos de carreira, está prestes a finalmente se tornar DVD, com lançamento marcado para janeiro de 2018, no Teatro de Santa Isabel: "A Globo gravou as imagens, um show bonito, com convidados tocando músicas minhas, mas foram três anos correndo atrás de patrocínio", comenta Annes.

 Tanto tempo que dois dos convidados do concerto já faleceram, o percussionista Naná Vasconcelos e o violonista Lalão (Esdras Mariano Rodrigues). Turíbio Santos, Nenéo Liberalquino, Sebastião Tapajós, Beto do Bandolim, Vinicius Sarmento, Nonato Luis e Marcus Tardelli, alguns dos talentos que prestaram homenagem a Henrique Annes naquela noite memorável.

 Este ano ele completa outra data redonda, que comemora daqui a mais alguns meses. Há meio século Henrique Annes deu o primeiro concerto solo de violão. A apresentação aconteceu no Teatro Popular do Nordeste (TPN), que funcionava na Conde da Boa Vista (em frente à Fafire). Depois do concerto de Annes, o palco do TPN recebia o musical Memória de Dois Cantadores, com Edy Souza (depois Edy Starr), Teca Calazans, Geraldo Azevedo, Marcelo Melo e Naná Vasconcelos, que começaria a desvendar o berimbau a partir deste espetáculo.

DE OUVIDO

 Arnaldo Pedrosa, tio de Henrique Annes, tocava flauta, convivia com músicos, entre os quais o saxofonista Felinho (Félix Lins de Albuquerque, autor das variações em Vassourinhas). Annes conta que, influenciado pelo parente, quis aprender flauta, mas acabou ganhando do tio um cavaquinho. Aprendeu pegando as músicas de ouvido. Lembra bem de uma delas, Boneca, do flautista fluminense Benedito Lacerda (parceria com Aldo Cabral), uma valsa lançada por Silvio Caldas, em 1935. Foi gravada também pelo virtuoso bandolinista recifense Luperce Miranda, cujo irmão, Romualdo Miranda, era um dos integrantes de Quando os Violões se Encontram.

Conseguiu dominar o cavaquinho em pouco tempo. Tocava Pixinguinha e Dante Santoro: "Tenho um ouvido muito bom, quando começava a tocar uma música sabia onde ela ia, as modulações", comenta Henrique Annes, que ganhou um violão de presente da mãe. Aí então pode tirar músicas de violonistas feito Dilermando Reis, cujo LP Abismo de Rosas, foi um grande sucesso de vendas em 1961: "Mas ninguém em casa queria que eu fosse músico. Queriam que fizesse engenharia", conta Henrique Annes, cuja vida seria marcada por aquele primeiro violão, da modesta marca Rei dos Violões.

VIOLÕES

 "Está no ar Quando Os Violões se Encontram, programa que constitui uma cortesia sentimental da Rádio Jornal do Commercio aos seus ouvintes de todo o Brasil. Um programa que reúne Conceição Dias, Miro, Tozinho, Henrique Annes e o brilhante violonista Francisco Soares, o Canhoto". A introdução de abertura, na voz de Geraldo Liberal. Antes a colega locutora Carmem Dolores definia o programa como "uma mensagem amena de poesia".

O pouco lembrado Quando os Violões se Encontram é um dos capítulos mais ricos da história do instrumento no país. Teve participações de violonistas lendários, além dos citados, Zé do Carmo, Ernani Reis, Aníbal Carneiro (irmão do embolador Minona Carneiro) e Chocho (Otaviano do Monte), que, em 2017, aos 93 anos, continua nos palcos.

 Entre essas feras caiu o adolescente violonista que, na estreia, teve direito a tocar quatro músicas, mas não no seu Rei dos Violões. "Quando viu no que eu ia tocar, Romualdo Miranda disse que meu violão não prestava, ainda por cima com cordas de aço. Perguntou por que eu não usava de nylon. Eu nem sabia o que era nylon. Toquei com um Di Giorgio dele. O violão brasileiro deve muito ao Nordeste. Daqui saíram nomes importantíssimos como João Pernambuco, Quincas Laranjeiras, Meira, próprio Luperce Miranda, que fizeram muito chorinho. Nosso choro é bem diferente do carioca. Eles fazem um choro mais sincopado, cheio de ornamentações. O da gente é diferente, tem muito de frevo", comenta Annes, que estreou em gravações participando em 1968 do LP de estreia de Canhoto da Paraíba, Único Amor, com selo Mocambo/Rozenblit.

 Quando começou a carreira no rádio, Annes não tinha dúvidas de que viveria do violão. Nenhuma dúvida também de que programas como o Quando os Violões se Encontram estavam com dias contados. A bossa nova e o iê-­iê-­iê eram a música que predominavam no rádio e na TV. Decidiu, pois, procurar os mestres que naquele tempo não eram poucos no Recife: "Estudei violão clássico com Amaro Siqueira, teoria e solfejo com Severino Revoredo, fui aluno de José Maria Carrión, professor de muita gente boa, Brasil afora. Devo quase tudo que sei a ele. Aos sábados ia pra casa de Carrión, que me dava aulas de graça". Um aprendizado que se estendeu aos Estados Unidos. Estudou violão na escola de música da Universidade da Georgia, na cidade de Athens.

 Uma longa história que passa pelo Conservatório Pernambucano de Música, que ajudou a fundar e do qual foi professor. Mais uma breve passagem pelo Movimento Armorial ­ foi um dos solistas no concerto inaugural da Orquestra Armorial de Câmara, em 21 de agosto de 1970 ­ foi sondado por Ariano Suassuna para tocar no Quinteto Armorial, mas não se integrou no movimento. Apesar da amizade que o unia ao maestro Cussy de Almeida, que lhe ofereceu oportunidades, como a de ensinar no conservatório, Henrique Annes nunca esteve ligado também a facções musicais. Participou de grupos como a Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco e criou a Oficinas de Cordas. Tornou­se uma referência no violão brasileiro pelo seu trabalho individual.

 BAGAGEM

 Depois de décadas de atuação na música pernambucana e brasileira como músico e professor, Henrique Annes chegou aos 70 anos e se aposentou. Quer dizer, como ele mesmo, diz, pensou que ia se aposentar. Foi por pouco tempo: "Deixei de dar aulas desde 2004, uma coisa que fiz a maior parte da minha vida. Acho que tenho uma bagagem grande e muita coisa a repassar para os jovens. Então resolvi voltar a ensinar", diz Annes, que está dando aulas de violão clássico na Academia Musical Santa Terezinha, na Torre".

 A bagagem de Henrique Annes não se resume ao muito que sabe de violão. Nela está também um dos maiores acervos particulares do instrumento no Brasil, que lhe permitiu gravar um disco inteiro com peças do violonista Zé do Carmo, aliás, o seu LP de estreia, Henrique Annes Toca Zé do Carmo, lançado em 1978: "Acho que tem umas oito mil fitas. Estão guardadas na minha casa. Considero o maior acervo do violão do Brasil, não apenas do violão. Tenho, por exemplo, gravações do Coral São Pedro Mártir, de Elizeth Cardoso, dos Carioquinhas, que vieram aqui tocar no Projeto Pixinguinha, com Rafael Rabello e a irmã dele Luciana, ainda bem garotos", conta Annes.

 De Canhoto da Paraíba tem horas de gravações, muitas composições inéditas: "Fiquei muito amigo de Canhoto. Ele me ensinou as músicas dele, tocamos muito juntos. Comecei a andar com ele, ia à casa dos outros violonistas com Canhoto, estava sempre com ele, sendo bem mais novo que ele", diz Annes, vinte anos mais jovem do que o violonista paraibano, também chamado de Chico Soares pelos amigos.

 O programa onde ele começou a tocar na adolescência marcou tanto Henrique Annes que ele vai rememorá­ lo reunindo alguns dos mais importante violonista do país no Teatro de Santa Isabel, em setembro de 2018, uma semana inteira, conforme adianta o produtor Pedro Castro, que está trabalhando com Annes: "Cada dia haverá concertos de três violonistas de diferentes Estados, com concertos de variados estilos ­ clássico e popular. Além dos concertos, haverá master class que acontecerá no Conservatório Pernambucano de Música".

 

 Alguns dos nomes congitados para a celebração: Maurício Carrilho (RJ), Marcelo Fernandes (MS) e Marcus Tardelli (RJ), Yamandu Costa (RS), Joao Lyra (Al), Nenéu Liberalquino (PE) e Vinicius Sarmento (PE). Além dos concertos, haverá uma homenagem aos violonistas Zé do Carmo e Romualdo Miranda. "Faremos uma exposição no hall do teatro de Santa Isabel com material desses dois músicos", confirma Pedro de Castro.

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