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Tributo

Mr.Tambourine Man Não Tocará Para Mais Ninguém

Bruce Longhorne, que inspirou a canção de Dylan, morreu na sexta-feira

Publicado em 17/04/2017, às 13h51

Bruce Longhorne, ou Mr.Tambourine Man / Foto: Reprodução
Bruce Longhorne, ou Mr.Tambourine Man
Foto: Reprodução
JOSÉ TELES

Deu no New York Times, em matéria de página inteira, o necrológio do músico Bruce Langhorne (1938/2017). Um famoso “Quem?” que a morte ajuda a localizar entre os muitos iguais na história da música popular, e cuja importância pode enfim ser reavaliada. Langhorne, para começo de conversa, é o Mr. Tambourine Man, da música psicodélica de Bob Dylan, que se inspirou nele quando o viu chegar para uma sessão de gravação com um enorme  pandeiro turco cheio de sonoras platinelas. "Hey Mr.Tambourine Man, play a song for me", canta Dylan no começo de uma de suas canções mais conhecidas.

Bruce Langhorne, que faleceu sexta-feira, aos 78 anos, em Venice, na Califórnia, é o principal responsável por formatar a sonoridade dos primeiros discos de Dylan, sobretudo do álbum Bringing it All Back Home de 1965 (a guitarra em Maggie's Farm é impagável). Um som que ninguém conseguiu emular. Nem Poderia. Ninguém tocava como Langhorne. Aos 12 anos, brincando com fogos de artifício, ele perdeu dois dedos da mão e parte de um polegar. Ao aprender violão criou uma técnica única.

Em meados dos anos 60,  foi dos mais requisitados instrumentistas de estúdio durante o revival da música folk. Inclua-se aí o próprio Dylan, com quem gravou, desde 1963,(está no álbum The Freewheelin Bob Dylan), Joan Baez, Mimi Fariña (irmã de Joan Baez), Richie Havens, ou Odetta. Seu trabalho mais cultuado, no entanto, aconteceria anos mais tarde, quando fez a trilha sonora do filme The Hired Hand, de 1971, de Peter Fonda. Por conta destas sandices tipicamente brasileiras, aqui o filme (no original Matador de Aluguel) foi rebatizado de Pistoleiro sem Destino, pegando uma carona no ainda recente Sem Destino, título que não tinha a ver com o original Easy Rider. Até porque os dois motociclistas do filme viajavam com destino certo: New Orleans.

Bruce Langhorne participaria de outras trilhas, entre estas a de Pat Garrett & Billy the Kid (1973), de Sam Peckinpah, outro também pouco visto, mais lembrado pela participação de Bob Dylan, que fez Knocking on Heaven’s Door para o filme. The Hired Hand, extremamente hermético, foi um fracasso de bilheteria. Somente em 2004, a trilha foi lançada em disco. No entanto o álbum ficou mais conhecido quando foi relançado em vinil em 2012.



DISCO

No início deste mês a trilha de The Hired Hand chegou às lojas num álbum duplo, um tributo idealizado pelo também músico Dylan Golden Aycock, da Scissor Tail Records, responsável pelo relançamento em vinil (até então só lançava cassetes),e pelo tributo. Aycock arregimentou músicos da nova cena contemporânea do folk americano, ou que transitam pelo experimental, para regravar a música feita por Bruce Langhorne para o filme de Peter Fonda.

Langhorne, na trilha original, fugiu a clichês de filmes de faroeste, usou piano, órgão Farfisa, dulcimer, ocarina, como instrumentos principais, numa coleção de temas evocativos, experimentais, que dão um colorido particular ao filme, e têm vida própria fora das telas. Os músicos que fizeram o tributo seguem mais as ideias de Longhorne, do que simplesmente regravam sua música.

Em The Hired Hands: A Tribute to Bruce Langhorne está a música do filme, e temas inspirados por ela, ou pelo trabalho de Langhorne, cujo disco com a trilha original tem apenas onze faixas. A maioria dos nomes que participa do tributo é pouco conhecida fora do nicho que habita musicalmente, com exceção de Lee Ranaldo, ex-Sonic Youth. Assim como o filme, e a trilha original, o tributo a Bruce Langhorne não é fácil. A música é reinterpretada livremente.

O tema Dead Girl, da trilha do filme, por exemplo, ganha mais um título, Graveyard, originalmente com 37 segundos, passa a ter 4 minutos, 17 segundos, na versão de Eugene Chadborne, que a transforma num canção montanhesa. Voz e banjo, com um violão tocando os bordões no contraponto, aos poucos vão entrando outros instrumentos. Chris Corsana em For Bruce Langhorne cria texturas, que vão sendo acrescentadas, com ênfase na percussão, no drone de um teclado que emite um acorde alongado, numa das faixas mais experimentais de um álbum que faz justiça à memória de Langhorne. O disco aliás foi feito para ajudar ao músico, que sofrera um derrame em 2006, e não conseguia mais tocar.


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