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MÚSICA

Crítica: Kendrick Lamar, um rapper barroco diante de si mesmo em 'Damn'

Novo álbum do californiano mostra as angústias íntimas de um artista alçado ao posto de porta-voz de uma geração

Publicado em 19/04/2017, às 10h24

Kendrick, que teve música adotada em protestos e foi elogiado por Obama, faz no disco uma espécie de versão pessoal das 'Confissões' de Santo Agostinho / Foto: Kevin Winter/ AFP/ Getty Images
Kendrick, que teve música adotada em protestos e foi elogiado por Obama, faz no disco uma espécie de versão pessoal das 'Confissões' de Santo Agostinho
Foto: Kevin Winter/ AFP/ Getty Images
JC Online

“Vivemos um tempo em que excluímos um componente principal disso tudo que é chamado de vida: Deus. Ninguém fala disso porque é quase um conflito com o que está acontecendo no mundo quando você fala sobre política, governo e sistema”, disse Kendrick Lamar durante uma entrevista ao The New York Times no estúdio em que preparava o sucessor de To Pimp a Butterfly, seu aclamado álbum vencedor de cinco prêmios Grammy. Questionado se com o novo disco o rapper iria se envolver diretamente com este conflito, ele respondeu sem rodeios: “É muito urgente”.

Os discos anteriores de Kendrick – Good Kid M.A.A.D. City (2012) e To Pimp a Butterfly (2015) – firmaram-se não apenas como clássicos instantâneos do rap, mas também como trabalhos de vasta importância social. O primeiro era uma narrativa cinematográfica sobre a formação das pessoas e a vida em Compton, na Califórnia, uma das cidades mais violenta e com maior taxa de homicídios dos Estados Unidos. O outro captou o zeitgeist do negro pouco antes dos assassinatos e subsequentes tumultos raciais de Fergusson – não à toa Alright foi adotada pelos manifestantes do Black Lives Matter e How Much a Dollar Really Cost foi citada por Obama como melhor música do ano. Porém, seu novo álbum, Damn. (com ponto final mesmo), vai na contramão: é sobre o conflito pessoal de Kendrick, e sobre assumir seus medos, anseios e inseguranças ao ser alçado ao posto ambivalente de pop star e porta-voz de uma geração.

Na verdade, essa dúvida é a base de todo o trabalho de Kendrick, que poderíamos chamar de rap barroco – os contrastes de luz e sombras, as formas tumultuosas, o conflito entre alma e corpo. Em Faith, faixa de seu EP auto-intitulado, de 2009, ele apresenta três longos versos, interconectando pequenos contos sobre pessoas cuja crença em Deus sucumbe diante da crueldade da vida. Good Kid. abre com uma oração: “Senhor Deus, eu venho até você como um pecador e humildemente me arrependo de meus pecados”. Ao longo de todo To Pimp..., ele narra uma batalha particular contra Lucy, uma alegoria de Lúcifer e suas tentações. Damn. é a intensificação dessa cruzada cristã do rapper de 29 anos. 



MEDO E FARDO

Fear talvez seja a faixa chave para entender o conceito do álbum e absorver seu simbolismo. Ele canta sobre três momentos de específicos em sua vida – aos 7, vivendo em um ambiente de violência doméstica; aos 17, cercado de gangues; e aos 27, com o medo de perder tudo que já conquistou –: “Eu estou falando do medo de perder minha criatividade, Eu estou falando do medo, medo de perder a lealdade e o orgulho/ Porque meu DNA não vai me deixar envolver na luz de Deus/ Eu estou falando do medo, medo que minha humildade se vá/ Eu estou falando do medo, medo que o amor não viva aqui mais”. Lealdade, orgulho, Deus, humildade são os temas das demais faixas do álbum, condensadas nesta única estrofe de Fear. Há ainda um verso ao contrário, em que ele expõe abertamente o seu complexo de mártir: “A dor em meu coração carregando o fardo para a luta”.

O lançamento de Damn. foi inicialmente programado para o dia 7 de abril, mas foi adiado para o dia 14, Sexta-Feira da Paixão, quando Cristo foi crucificado. Somando isto com outros fatores – como a referência à Santa Ceia do clipe de Humble –, os fãs montaram uma teoria de que ele lançaria ainda um outro álbum no Domingo de Páscoa. Damn. representaria a sua morte (na faixa de abertura, Blood, Kendrick é “morto” por uma cega na rua) e o segundo seria a sua ressurreição. O primeiro foi feito com batidas do tipo trap e bangers, comuns ao rap mainstream. O outro viria carregado de experimentalismos e letras sociais.

Mas o segundo CD não veio. E apesar de sua arrasadora apresentação no festival Coachella, na madrugada de domingo para segunda-feira (17), o rapper não é Deus. Como já cantou antes, ele é apenas um “normal man”. Ainda assim, ele foi destinado a carregar uma cruz e assumir grandes responsabilidades. Em Feel, ele repete fatidicamente: “Não há ninguém rezando por mim”. Damn. é um disco sobre solidão e vulnerabilidade. É Kendrick cantando sua versão das Confissões de Santo Agostinho.


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