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MÚSICA

Os sons da música eletrônica brasileira: dos anos 1970 ao presente

A coletânea 'Outro Tempo' resgata os primórdios das produções eletrônicas dos anos 70 e 80, enquanto novos nomes aparecem nas compilações 'Tormenta' e 'Depósitos Noturnos'

Publicado em 19/06/2017, às 12h56

Três tempos da eletrônica brasileira: Priscilla Ermel, Antiline e Bad$ista / Fotos: Felipe Gabriel/ Reprodução/ Bruno Rosolem
Três tempos da eletrônica brasileira: Priscilla Ermel, Antiline e Bad$ista
Fotos: Felipe Gabriel/ Reprodução/ Bruno Rosolem
GG ALBUQUERQUE

“Enquanto o Brasil enfrentava os últimos anos de ditadura militar e transição para a democracia, uma geração de músicos com mentalidade de vanguarda desenvolveram uma visão alternativa da música e da cultura brasileira. Eles abraçaram métodos de produção eletrônica tradicionalmente evitados e fundiram sua música com elementos de ambient music, jazz-fusion e minimalismo. Ao mesmo tempo, referenciaram as formas musicais e a espiritualidade das tribos indígenas da Amazônia”.

As palavras são a introdução de John Gómez, pesquisador espanhol radicado em Londres, para a recém-lançada coletânea Outro Tempo: Electronic And Contemporary Music From Brazil 1978-1992, que resgata mais de uma década de produções nacionais marcadas pelo jazz e pelo minimalismo, quase esquecidas à época. Lançada em vinil duplo pelo selo Music From Memory, a compilação remonta o período das primeiras experimentações com elementos eletrônicos, quando músicos como Priscilla Ermel, Os Mulheres Negras, Maria Rita, Nando Carneiro, Marco Bosco e outros incorporam sintetizadores e programações às suas músicas.

“Eu pensei que era muito interessante politicamente porque parecia ser uma década esquecida”, explica John Gómez após o concerto Outro Tempo, que reuniu os artistas da coletânea no palco do lendário Teatro Oficina, em São Paulo – o show foi parte do festival RedBull Music Academy, no início do mês, e teve direção musical de Kassin.

“Minha impressão após minha pesquisa e conversar com os artistas é de que você tinha um inimigo em comum (a ditadura militar), mas nos anos 1980 a paisagem política muda gradualmente e isso muda um pouco. Não é que houve uma crise de identidade, mas houve um redefinição da identidade”, comenta Gómez, que até aprendeu português para contatar os músicos.

“O que aconteceu é interessante: de um lado, você tem uma globalização no Brasil. Em outro, você tem muito interesse e pressão internacional na floresta e em populações indígenas. Então, de certa forma, os problemas começaram a ser redirecionados para algo diferente, como a preservação da Floresta Amazônica e também as vozes das populações indígenas. Antes de 1988 no Brasil, quando a Constitutição foi reescrita, nenhum população indígena na Amazônia tinha direitos civis. Nenhuma! Era um momento muito importante”, completa, lembrando que músicos como Priscila Ermmel, Marlui Miranda e Egberto Gismonti (que incentivou Nando Carneiro a estudar “computer music” e lançou seus álbuns pelo selo Carmo) foram à Amazônia e incorporaram suas técnicas musicais de povos indígenas em suas composições.

As faixas da coletânea não são homogêneas, seguindo uma diversidade de estilos que vai do samba à new wave. Gómez explica que não está tentando afirmar que a cena musical do Brasil naquele momento era de música eletrônica e reafirma a diversidade.
“É interessante porque nenhum dos artistas pensou que eles estavam fazendo música eletrônica. Então quando eu falei algo de eletrônica, eles disseram que não, porque pensam que música eletrônica é a batida 4x4, uma música rígida… Era muito difícil para mim explicar o que eu queria dizer. O que eu dizia é que o que nós temos aqui são elementos eletrônicos, não música eletrônica. São elementos eletrônicos que são trazidos para a música acústica. Nando Carneiro, por exemplo, dizia que ele não estava fazendo música eletrônica. Ele usava computadores, mas de uma forma que ele esperava ainda ser ‘humanizada’. A combinação com o violão e piano ajudaria a humanizar seus computadores. Há uma expressão em inglês chamada ‘trial and error’ (tentiva e erro), em que você testa algumas coisas, às vezes não funciona e às vezes sim. Acho que este é um período onde isso estava acontecendo. As pessoas estavam tentando coisas pra ver o que funcionava”.

Ainda que toda essa música estivesse disponível, a coletânea – e o seu show emblemático no Oficina – é importante por abrir brechas, mostrando nomes, estéticas e ideias que passaram despercebidas da história oficial. Nas palavras sucintas de Kassin: “Esses discos estavam por aí há tantos anos. As pessoas até podem conhecer alguns dos artistas, mas o fato de colocá-los juntos nesta compilação e apresentá-los novamente, tentando uma corrente estética, uma narrativa, isto é o que a faz tão especial”.

NOVOS TEMPOS

Se na década de 1970 e 1980 os músicos viviam o período de tentativa e erro com equipamentos eletrônicos e ainda os concebiam dentro do binarismo homem x máquina, hoje o som eletrônico é de uso comum – e a pluralidade de estilos e combinações só aumentam.

Outras duas coletâneas recentes sintetizam bem a música eletrônica brasileira contemporânea. Uma é Tormenta Hits Vol. II, que mostra como DJs brasileiros podem sintetizar funk e outros ritmos populares com bass, dance music minimalista e pop. Pernambucano radicado em São Paulo, Pininga mixa a batida do arrocha com a sensualidade elegante do Portishead em Arrocha da Glória. Já a Bad$ista (nome artístico da produtora Rafaela Andrade) faz um mashup do hit Last Night, de P. Diddy e Keyshia Cole, com o tamborzão do funk.

A outra compilação que representa bem a produção atual é Depósitos Noturnos, lançada pelo selo curitibano Meia-Vida. Aqui a sonoridade é mais agressiva e sombria, próxima das paisagens pesadas do techno e do industrial. Como diz a apresentação do disco: “A festa acabou, é hora de depósitos noturnos”.Thingamajicks explora o caráter textural do som em Avril's Mock-Stern Expression. Antiline brinca com a percepção do tempo empregando um beat repetitivo que se desmancha e reconstrói a todo momento em Hiss. O Hojer Yama cria uma nuvem de ruído e distorção por cima de sua batida frenética em Elevador.

Da Outro Tempo ao Hits Tormenta e Depósitos Noturnos, as sonoridades, as intenções e influências e contextos mudaram completamente. O escopo da música eletrônica no Brasil, contudo, só amplia vertiginosamente. O espaço está aberto para a inventividade dos DJs/produtores.



CONHEÇA ALGUNS EXPOENTES DA ELETRÔNICA BRASILEIRA:

Jocy de Oliveira
Pioneira, a compositora curitibana foi parceira de ícones como John Cage e criou inovadoras óperas multimídias e instalações com música eletrônica.
Ouça: Estórias Para Voz, Instrumentos Acústicos e Eletrônicos (1981)

Maria Rita Stumpf
Suas composições misturam percussões africanas, cânticos indígenas e elementos eletrônicos. Sumiu dos palcos nos anos 1990, mas está sendo redescoberta por uma nova geração de DJs – como o selo paulistano Selva, que relança seu álbum de estreia em vinil e streaming.
Ouça: Brasileira (1988)

Priscila Ermel
Multiinstrumentista, toca cítara, flauta, viola, kalimba africana, flautas indígenas e outros. Gravou cinco álbuns independentes entre 1985 e 1995 e atuou em trilhas de novelas da Rede Manchete como O Guarani e Amazonas.
Ouça: Campo de Sonhos (1992)

Os Mulheres Negras
Formado por André Abujamra e Maurício Pereira, a “terceira menor big band do mundo” incorporou samples, bateria eletrônica e sintetizadores e reinterpreta os chavões do mundo pop.
Ouça: Música e Ciência (1988)

Cesrv
Criador do selo Beatwise Records, seu som é influenciado pelas batidas ultra aceleradas do footwork, jungle e drum n’ bass.
Ouça: BR$L (2016)

Luisa Puterman
Trabalha com instalações e audiovisual, mas também cria músicas inspiradas na paisagem sonora urbana e com múltiplas camadas de som.
Ouça: Mantra Marcha (2015).

Objeto Amarelo
Projeto do músico e artista visual Carlos Issa, cria uma música de pista ruidosa e distorcida.
Ouça: Lado de Fora (2015)

G Paim
Co-fundador do selo Meia-Vida e membro de várias bandas de anarcopunk, Gustavo também faz um som ligado às repetições do techno e à sonoridade industrial.
Ouça: Sharpest Knife (2017).

Raquel Krugel
Ilustradora e designer de som, faz som com poucos recursos – um software de edição, um controlador, bateria eletrônica e um pedal de efeito – e o resultado é uma crueza punk.
Ouça: RK (2014).

Projeto Mujique
Fabiano Scodeler mistura a música popular das congadas e a percussão das religiões afrobrasileiras com beats eletrônicos e camadas de sintetizadores em seu projeto de psicodelia rural.
Ouça: Koongadada e Sarvará.

Mano DJ
Dos principais produtores do funk paulista, ele inovou ao usar fragmentos vocais na batida da música, beber de outros gêneros musicais, manipular as vozes dos MCs e usar efeitos sonoros complexos que trabalham a espacialização do som.
Ouça: Tchu Plin e Bonequinha (com MC Bin Laden).

Marginal Men
Expoentes do que alguns chamam de "favela bass" ou "brazilian bass", a dupla de DJs carioca aborda o funk a partir de uma perspectiva mais global da música eletrônica, mesclando com os graves da bass music tanto em produções próprias quanto em mashups. 
Ouça: Footworkzzzz (part. Omulu) e Um Otário, (A Warning), O Ritual


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