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Johnny Cash, um mito americano, no tempo da Sun Records

Caixa reúne todos seus discos na lendária gravadora de Memphis

Publicado em 16/07/2017, às 10h27

Johnny Cash, na Sun Records / foto: divulgação
Johnny Cash, na Sun Records
foto: divulgação
JOSÉ TELES

A Rádio Jornal usa como uma das vinhetas de sua programação um comentário de Raimundo Fagner sobre Caboclo Sonhador, de Maciel Melo. A composição, do início dos anos 90, é considerada pelo cantor cearense um divisor de águas na música nordestina, por reformular o modelo de canção estabelecido por Luiz Gonzaga no final dos anos 40, e tornar-se ela mesma modelo para os novos autores da região.

 Esses marcos culturais, geralmente, têm sua importância despercebida quando acontecem. Felizmente, passado algum tempo, quase sempre, vem a constatação, como no caso citado de Fagner com a música de Maciel Melo, ou como o crítico e escritor americano Greil Marcus (no antológico livro de ensaios Mistery Train) em relação ao papel  de Elvis Presley, em sua fase na gravadora Sun, de Memphis, em meados dos anos 50. Elvis, no entanto, não foi o único no rock-a-billy, como foi batizado um estilo musical forjado em ligas de country & western e blues.

 Ele foi o mais bem talhado para o sucesso, entre os que gravaram, na época, na gravadora de Sam Phillips Phillips, certamente não se importava com história, quando gravou Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Roy Orbinson, Carl Perkins e Johnny Cash (e pelo menos mais uma dezenas de nomes influentes, como Charles Rich, ou blueseiros lendários, como Howlin Wolf). Porém, entendia de música e sabia que o jovem caubói Johnny Cash não era apenas mais um cantor de rock-a-billy.

 Não se importava, mas fez história, e um capítulo importante dela é contada na caixa Johnny Cash - The Original Sun Albuns - 1957-1964 (Charly Records (UK), que reúne, pela primeira vez, sete álbuns de Johnny Cash, com gravações realizada na Sun Records, mais um disco de raridades. Sam Phillips vendia relativamente muito bem para o tamanho da empresa, um pequeno estúdio, hoje um dos pontos turístico de Memphis.

 As gravações eram feitas sem muitos takes. O pessoal chegava bem ensaiado, a pequena sala onde aconteciam as sessões era dotada uma acústica especial, natural. Jamais se conseguiu os mesmos efeitos de eco, por exemplo, das gravações da Sun. Rock-a-billy é uma música de estilistas. A maneira com que se tocavam as cordas dos contrabaixos de pau, os solos curtos e precisos nas guitarras semi-acústicas, a percussão econômica dos bateristas (quando tinha baterista) são copiados, mas nunca igualados. Estes álbuns de Johnny Cash ratificam isto.

 Cash esteve pouco tempo na Sun Records, pouco mais de três anos, mas só lançou álbum em 1957, Johnny Cash With His Hot And Blue Guitar. O segundo veio no começo de 1958, Johnny Cash Sings The Songs That Made Him Famous, uma coletânea lançada enquanto ele estava trocando de casa, contratado pela CBS, onde gravaria durante 25 anos.



O cantor foi intensamente prolífico no seu pouco tempo na Sun. Os oito discos (numa embalagem tipo livro) trazem 83 fonogramas, algumas repetições. São 23 faixas extras, com versões alternativas e canções saídas apenas em compactos (singles). Com o guitarrista Luther Perkins e o baixista Marshall Grant, Johnny Cash criou uma sonoridade única. Luther Perkins foi um dos grandes do rock-a-billy, forma uma trinca de superguitarristas com Scotty Moore (que tocava com Elvis Presley), e James Burton (que tocou com Ricky Nelson, e com Elvis).

 Quando Johnny Cash (depois de voltar da Alemanha, onde prestou serviço militar nas forças de ocupação) formou uma banda, Luther Perkins comprou uma guitarra Esquire usada, com problemas no controle do volume. Passou a tocar apenas nas três últimas cordas (G, B, E), um estilo que foi batizado de "boom chicka boom". O toque especial para o som da Sun Records, além da sala/estúdio, gerava o eco que conseguia dosar, evitando que todos seus contratados soassem padronizados. Mas Sam Phillipscontava com dois fatores. O primeiro, a sorte de estar no lugar certo, na hora certa. O segundo foi o talento e a personalidade de cada um dos seus artistas. Muitos deles geniais.

 Curiosamente, o que parecia menos dotado no início era exatamente Johnny Cash. A voz, depois tão elogiada, não se encaixava no que cantava. Por sua vez, tanto Marshall Grant quanto Luther Perkins não eram tecnicamente bons músicos. Mas o trio era formado por caubóis que não deixavam passar cavalos selados. Pra pegar a montaria, valeram-se de estilo para superar a falta de técnica. Luther Perkins, falecido tragicamente em 1968 (num incêndio na própria casa), é cultuado até hoje, enquanto Johnny Cash é um mito americano.

SEGREGAÇÃO

 The Original Sun Albuns - 1957-1964 celebra os 85 anos que Cash faria em 2017 e os 60 anos do primeiro álbum. A música híbrida que ele, e seus ilustres companheiros de gravadora faziam na época, não apenas criava um novo gênero como quebrava barreiras raciais no Sul dos EUA, trazendo para o mesmo disco culturas que não deveriam se misturar numa região que ainda praticava a segregação pela cor da pele.

 Não por acaso, o surgimento do rock-a-billy, por volta de 1954/55, coincide com o início do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos. No Tennessee, aceitava-se, de início com relutância, é certo, que Elvis Presley, um branco, cantasse e se vestisse feito um negro. Ou que um caubói, Johnny Cash, se infiltrasse no country com sua mistura impregnada de blues, que seria batizada, por um branco, Allan Freed, com uma expressão negra, “rock and roll”.


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