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João Neto, um guitarrista com muita estrada e histórias

Das bandas de baile, a com nomes feito Dominguinhos e Belchior

Publicado em 17/07/2017, às 11h28

João Neto, do Cantoria Agreste / foto: Divulgação
João Neto, do Cantoria Agreste
foto: Divulgação
JOSÉ TELES

O quarteto Cantoria Agreste tem em sua formação uma trinca de músicos bem conhecidos, Marcelo Melo (Quinteto Violado), Sérgio Andrade (Banda de Pau e Corda) e Gennaro (Trio Nordestino), mais João Neto que, para muita gente, é um iniciante entre veteranos. Quem o viu, quarta-feira, no Teatro de Santa Isabel, na estreia da banda em palcos do Recife, aprovou seu talento na viola, mesmo ignorando que ele tem tantas estradas e histórias quanto os outros integrantes do grupo.

Garanhuense, João Netto tocou guitarra durante 12 anos na banda do conterrâneo Dominguinhos, andou pelo país com o cearense Belchior por cinco anos. Seu currículo vai de Nando Cordel à paraguaia Perla e às duplas sertanejas. Mal deixou de usar calças curtas, João Neto empunhava uma guitarra no conjunto os Mirins, do Sesc, em Garanhuns. Tocava tão bem que, aos 14 anos, estava na Super Oara, de Arcoverde - A banda de baile formada pelas iniciais de Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, fundada em 1958, uma lenda da música brasileira e tema de elogiado documentário, dirigido, em 2016, por Sérgio Oliveira: "Passei uns quatro anos na orquestra. Meu pai só permitiu porque era colega de Beto da Oara na Secretaria da Fazenda.

A orquestra era muito requisitada, viajei muito - Piauí, Maranhão, Alagoas, estes Estados todos. Quando tocava na região, depois do baile eu voltava para Garanhuns, continuava morando na casa da minha família", conta Neto. Suas primeiras influências vinham de guitarristas gringos: Jimi Hendrix, Carlos Santana e John McLaughlin, sobretudo este último, um virtuoso inglês do jazz fusion: "Eu gostava de Hendrix, tocava as músicas dele, de Santana, mas quando escutei McLaughlin fiquei fascinado. Curioso é que a minha outra grande influência foi o The Pop’s, o grupo instrumental. Aquele som da guitarra me pegou e até hoje é atual", diz João Neto, que continuou a saga do músico de baile, aquele que, como cantou Milton Nascimento (que também tocou bailes), vai até onde o povo está. Fez parte de Os Inseparáveis, o mais bem sucedido grupo do gênero de Garanhuns.

João Neto diz que nunca se imaginou tocando pela vida afora, mas quando se deu conta encontrava-se cruzando o País, revezando-se na direção com Dominguinhos, varando a noite em longas conversas para afastar o sono. Soube que o sanfoneiro precisava de um guitarrista e foi até ele oferecer seus serviços. Foi aceito. Além de terem nascido na mesma cidade, os dois têm temperamentos parecidos, são de falar pouco e observar muito: "Tinha aquela coisa com ele de não viajar de avião. Então quando o show em outro Estado, numa cidade distante, a banda ia na frente voando, e Dominguinhos de carro. Costumava me convidar pra ir com ele. O que tornava menos cansativa a viagem é que ele só andava em carros confortáveis, Mercedes, Land Rover. Adorava viajar. Quando não tinha viagem, ele inventava. Eu tenho uma teoria de que aquele problema de pulmão dele foi agravado por estas viagens. Quando a gente pegava rodovias muito movimentadas, o carro ficava atrás daquele monte de caminhões, a gente aspirando aquela fuligem que eles soltavam no ar.

Dominguinhos gostava de viajar com as janelas do carro abertas. O para-brisa às vezes ficava com uma crosta de fuligem dos caminhões". João Netto veio para o Recife depois da experiência com os bailes interioranos, passou aos bailes na capital. Tocou em grupos como os Alcanos, de muito sucesso começo dos anos 80 (Nádia Maia e Marrom Brasileiro também cantaram lá), numa época em que dançar era a maior diversão. Concorrendo com o Alcanos havia grupos como Gota d?Água, Skorpions, e Os Karetas (do hit Vento Norte, de Saulo Douglas): "Passei frequentar o estúdio Estação do Som, que ficava ali na Madalena, toquei em disco de muita gente, até que conheci Nando Cordel. Foi o primeiro o artista com quem toquei fixo", lembra João.

Disco só lançou um LP, no início dos anos 90, Yasmine, o título (nome de sua filha): "Aproveitei uma viagem de Tovinho para a Europa com Alceu Valença e usei o estúdio dele, o Estação do Som, para fazer meu disco. Não aconteceu, banquei a prensagem, vendi de mão em mão". Foi um período conturbado da vida de João Neto, que montou com o iniciante saxofonista Spok, o baterista Paulo Daniel, o tecladista Léo Saldanha e o baixista Luigi Lagioia, o Krakatoa, uma banda de jazz fusion, que não decolou.



SERTANEJOS

Nos anos 90, o guitarrista foi morar em São Paulo. "Uma das melhores épocas pra mim financeiramente foi quando toquei com sertanejos, Daniel, Fernando e Sorocaba, vários deles. Os caras são muito profissionais. Daniel me convidou tocar com ele num final de semana. Na segunda, a gente já estava ensaiando, das nove da manhã às nove da noite. O estúdio montado como se já fosse o show, quando chegava no palco tudo estava pronto". Financeiramente, confessa que não teve do que se queixar: "Ganhei dinheiro para botar as contas em dia. Não permaneci com os sertanejos porque não era a minha praia, ganharia dinheiro, mas a minha música perderia. Todo show eram as mesmas coisas. Fiz algumas parcerias, mas os caras queriam ouvir primeiro o refrão. O refrão tinha mais interesse pra eles do que a música".

Quando João Neto era o menino prodígio da música garanhuense, sempre que artistas de fora vinham se apresentar no auditório da Rádio Difusora de Garanhuns (hoje Rádio Jornal, do Sistema Jornal do Commercio), ele era chamado para acompanhá-los. "Ronaldo White, da rádio, não sei porque, achava que eu tocava baixo. Acompanhei com o baixo um bocado de gente famosa: Evaldo Braga, Perla, que era bem jovem naquele tempo, com uma cabeleira comprida. Mas para ver como é o destino, muito tempo depois, eu morava em São Paulo, fui convidado para tocar na banda de Perla, que nem se lembrava mais de mim. Passei dois anos trabalhando com ela. Viajei muito, fomos várias vezes ao Paraguai. Uma coisa que me surpreendeu é que Perla é muito culta, de ler muito, e uma pessoa muito gentil".

A paraguaia Ermelinda Pedroso Rodríguez D"Almeida, Perla, fez muito sucesso no Brasil no início dos anos 1970, principalmente com versões de hits do ABBA. De ler muito também era Belchior, com quem João Netto tocou nos cinco anos que antecederam o "desaparecimento" do cantor e compositor cearense: "Eu estava na banda de Dominguinhos quando me convidaram para tocar com Belchior. Até me espantei, nunca mais tinha ouvido falar nele, não sabia mais nem que ainda estivesse fazendo shows. Mas me enganei mesmo. Ele tinha agenda cheia, era sempre convidado para festivais, a fama dele como estrela da MPB ainda contava muito".

João comenta que fazia tantos shows com Belchior que suscitou ciumeira em Dominguinhos: "Só viajava com Belchior se Dominguinhos estivesse sem shows, mas Belchior tinha agenda cheia. Quando Dominguinhos tinha um show me ligava e falava com aquele jeito tranquilo dele: ?João, olha, se você não tiver nenhum show com Belchior, pode tocar comigo na sexta?". O guitarrista deslocava-se entre extremos. Com Dominguinhos, que não fumava, raramente bebia, e não era dado aos livros, e Belchior, que fumava, bebia e, segundo João, viajava mais com livros do que com roupas:

"E ainda tinha a diferença de um nunca andar de avião, e o outro, mesmo cantando uma música chamada Medo de Avião, ser viciado em voar", comenta.

Belchior saiu de cena e ele continuou com Dominguinhos até 2013, quando o sanfoneiro faleceu: "O tempo em que toquei com ele me marcou. Depois da morte dele, voltei para o Recife, mas continuo fazendo trabalho de estúdios. O pessoal me pede de São Paulo, gravo aqui e mando. Quando toco com algum sanfoneiro, às vezes fecho os olhos e viajo, como se estivesse tocando novamente com Dominguinhos.


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