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Biografia

Caetano Veloso ganha biografia que passou 11 anos na gaveta

Autores levaram duas décadas pesquisando sobre o cantor

Publicado em 01/08/2017, às 08h30

Caetano Veloso, biografia não autorizada / foto: reprodução
Caetano Veloso, biografia não autorizada
foto: reprodução
JOSÉ TELES

É irônico que uma das primeiras biografias de um medalhão da cultura brasileira seja, exatamente, a de Caetano Veloso, cuja produtora e ex-mulher, Paula Lavigne, tanto se esforçou para que não se permitissem biografias sem a aquiescência dos biografados, com idas e vindas à Brasília, acompanhada por artistas que comungavam dos mesmos propósitos aglomerados no "grupo" Procure Saber. É irônico também que Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, autores de Caetano - Uma Biografia (Seoman, 530 páginas, R$ 47), por conta de uma lei, revogada em 2015, foram obrigados a engavetar os originais durante onze anos.

Sem chegar a ser um livro de fã, como a biografia Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo César Araújo, Caetano - Uma Biografia, mesmo quando os autores ousam enveredar por terrenos movediços, ao relatar episódios da vida pessoal do biografado, fazem-no dourando a pílula e pisando em ovos. Como por exemplo, ao narrar o início do relacionamento de Caetano Veloso com Paula Lavigne, ele prestes a completar 40, casado, com filho, ela com 13 anos e virgem. Ou então ao abordarem os muitos relacionamentos extraconjugais do cantor, boa parte com adolescentes, sempre belíssimas, a carioca Vera Zimmerman ou a baiana Cristina Mandarino, com quem manteve breves e tórridos (segundo os autores) romances, que inspirou as canções Vera, a Gata, a primeira, e Você É Linda, a segunda.

Reconheça-se que a dupla caiu em campo para realizar vinte anos de pesquisas sem a certeza se teriam autorização para publicar o livro. Nos bastidores de um show em homenagem a Vinicius de Moraes, em 2004, eles conversaram com Caetano Veloso, que elogiou e até teria se emocionado com trechos do livro, chegando a escrever à mão suas impressões sobre o que leu, encorajou as pesquisas, com esta espécie de salvo-conduto, mas não autorizou nada. É provável que tenha extravasado emoções com os capítulos iniciais, que se ocupam de sua infância e parte da adolescência em Santo Amaro.

Assim como na citada e proibida biografia de Roberto Carlos, de Paulo César Araújo, a parte mais consistente da história de Caetano é exatamente a infância. A fonte dos autores é formada por pessoas que conviveram com o biografado muito antes da fama e concedem depoimentos sem se importar se ele gostará ou não, até porque, raros deles, ainda privam da sua amizade. Na fase pós-fama, poucas pessoas com acesso ao círculo íntimo do artista, produtores e ex-namoradas, atrevem-se a fazer revelações. O que contam são amenidades, ou episódios que podem ser conferidos em jornais e revistas.

PESQUISA

A pesquisa de Drummond e Nolasco foi longa e não deixa passar quase nenhum dos acontecimentos que marcaram a trajetória pública de Caetano Veloso. É recheada de detalhes sobre gravação de discos, origem de canções, intimidades de bastidores. Um bom exemplo é o bate-boca entre Caetano e Gil, durante a gravação de um programa tropicalista produzido pela TV Globo, com direção de Zé Celso Martinez (os autores não citam o nome do programa, que se chamava Direito de Nascer e Morrer do Tropicalismo - Tropicália ou Panis et Circenses). Gil argumentavam que estavam pegando pesado, queria largar o barco: "Caetano queria ir às últimas consequências e aplicou um esporro homérico em Gil. A bronca deu resultado, e ele participou da gravação, mas a o clima não ficou o mesmo".



Para os que não acompanharam a carreira do baiano do início, a biografia reúne bastante informações (até porque são pouquíssimos os livros sobre um dos artistas mais importantes da MPB). Tantas as informações que, a partir dos anos 80, quando Caetano engata uma carreira internacional e elastece seu raio de ação no território nacional, é preciso que suas múltiplas ações sejam resumidas. Não apenas as profissionais, como também os vários barracos em que o temperamental biografado se meteu com outros artistas, com intelectuais (célebre a briga com o jornalista Paulo Francis), e os esporros distribuídos às plateias, país afora, nos anos 70 (sobre os quais os autores tocam superficialmente).

Há as falhas, como o desentendimento entre Maria Bethânia e o empresário Guilherme Araújo, "que quase acabou em briga". Quase, não. Acabou em briga, e Bethânia detalhou o entrevero numa antológica entrevista ao semanário O Pasquim. Quando lembra a vinda de Gilberto Gil, com o mesmo Guilherme Araújo, ao Recife em 1967, entende-se que não pesquisaram jornais pernambucanos ou conversado com os músicos que tocaram com Gil no Teatro Popular do Nordeste, a exemplo do pianista Sérgio Kyrillos. Ao citar os CPCs tampouco parecem saber que eles surgiram inspirados no MCP (Movimento de Cultura Popular), e que em Pernambuco não havia CPCs. Mas isto são pecadilhos.

O que incomoda no livro são digressões desnecessárias e comentários pueris, feito este sobre Maria Bethânia: "Aos 17 anos ainda era uma adolescente". Qualquer pessoa com esta idade é adolescente. "Aos 22 anos, Paula continuava jovem". Idem, com 22 anos todo mundo é jovem. O mesmo para quando comentam a doença e morte do seu Zezinho, pai de Caetano: "Braços e pernas estavam cansados. O corpo também já não respondia como antes". Braços e pernas fazem parte do corpo, pois não? Citam Euclides da Cunha e a surrada frase, elogiando seu Zezinho, "O sertanejo é antes de tudo um forte". Só que o pai de Caetano nasceu e viveu no fértil e verde Recôncavo baiano, onde não se carecia de tanta fortaleza assim para se sobreviver.

Tem ainda repetição de comentários estereotipados. Na primeira turnê de Caetano e banda ao Japão, saem-se
com esta: "No Japão, ficaram zonzos com tanta mulher parecida". Mas nada que um revisor mais severo não tivesse evitado. Caetano - Uma Biografia, mesmo assim, é recomendado aos que desejam saber sobre o músico, afinal é a única biografia dele, ao menos, com distribuição nacional, e tão abrangente. Assim com as redundâncias acima citadas, desnecessária, e até constrangedora, a saudação ao biografado que encerra o livro: "Vida longa e próspera a Caetano Veloso"!


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