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Crítica: Um show de elegância para um público nem sempre elegante

Paulinho da Viola e Marisa Monte estiveram impecáveis no seu grande encontro. Mas conversas em tom alto insistiam em quebrar o clima

Publicado em 03/09/2017, às 08h40

Marisa Monte e Paulinho a Viola estiveram em perfeita sintonia / Leo Aversa/Divulgação
Marisa Monte e Paulinho a Viola estiveram em perfeita sintonia
Leo Aversa/Divulgação
Romero Rafael

A voz discreta, a postura mansa e a existência cuidadosa de Paulinho da Viola abriram o show em que ele encontra Marisa Monte, sexta, no Classic Hall. Há uns anos escrevi, num texto ­– em parcela – nonsense, que gostaria de ter o cantor e compositor como avô. É que a calmaria que emana dele embala a gente com a ternura de um encontro com nossos progenitores. Depois, talvez, porque ele, com sua música, aos 74 anos, cumpra um tipo de guardião do samba; aquele que traz consigo a ancestralidade do gênero musical brasileiro considerado o mais original entre todos.

Na companhia de oito músicos, num palco tão preenchido quanto requer uma roda de samba, Paulinho da Viola abriu a apresentação com Tudo se Transformou, um samba sobre a tristeza do fim de um amor, e seguiu cabisbaixo com Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues, e Ainda MaisPecado Capital, na sequência, deu uma levantada nos ânimos da noite, puxando cordão de grandes sucessos: Onde a Dor Não Tem RazãoCoração Leviano e Roendo as Unhas. Marisa Monte apareceu, então, num longo vermelho, com capa que dava movimento, batom combinando, cabelos pra trás, e uma juventude que não esmaece, aos 50 anos.

Naquele palco, como uma lapela vermelha a decorar ternos claros de uma velha guarda de samba, Marisa Monte mais do que enfeitou. Cantaram, de primeira, Para Ver as Meninas, música dele regravada por ela em 2000, no CD Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, por sugestão dele. “É uma imensa alegria esse encontro maravilhoso com meu amigo e mestre Paulinho da Viola”, saudou. Marisa, daí em diante, seduziu o público com a gentileza da sua voz de formação lírica posta a serviço da música popular, com agudos tirados sem esforços aparentes e um gestual que sinaliza para a grande intérprete que é.

O evento Paulinho da Viola e Marisa Monte juntos no mesmo palco é de uma raridade que a turnê, mais longa do que eles previam, deveria ganhar registro audiovisual, e num teatro, do tamanho da delicadeza dos dois. Trata-se da união de dois elegantes da música, da parceria entre a nobreza da composição e a da interpretação; e ainda do encontro-espetáculo de um mestre, que guarda o passado, com sua discípula, que o renova.



Do miolo para o fim da turnê, batizada como Paulinho da Viola Encontra Marisa Monte, a relação entre eles, costurada com a linha do samba, evoca o documentário O Mistério do Samba, produzido por ela e lançado em 2008. É quando os dois, sentados, conversam sobre sambas e bambas da Velha Guarda da Portela. As histórias, mesmo roteirizadas, são trazidas à cena com cumplicidade. Notava-se, pelos telões do Classic Hall, o sorriso de Paulinho, realizado, ao reviver e compartilhar aqueles causos já de uma vida toda. Parte do púbico, ao menos nos camarotes, ficou sem escutá-los bem, devido ao som ou à acústica da casa, e ainda por causa do barulho fora de hora de pessoas.

 Antes do bloco dedicado à Velha Guarda, Marisa Monte brilhou cantando, junto com Paulinho da Viola, Dança da SolidãoPara um Amor no RecifeUniverso ao Meu RedorDe Mais NinguémCarnavália, dos Tribalistas, e Preciso me Encontrar, de Cartola. Já caminhando para o fim, ela solou Carinhoso, repetiu a canção e seguiu com o parceiro em Talismã – música dele letrada por ela e Arnaldo Antunes –, TimoneiroPassado de Glória e Esta Melodia, samba de cantar de boca cheia e olhos brilhando.

O bis trouxe Paulinho da Viola com Argumento – “Tá legal, eu aceito o argumento/ Mas não me altere o samba tanto assim” – e encerrou com Marisa Monte alterando total o repertório daquela noite, com o rock Comida, dos Titãs, que abre o primeiro disco dela, MM, de 1989. A discípula avisou: cantou a pedido do mestre.

FORA DO TOM

 Em medida oposta à elegância dos anfitriões estava parte do público ­– nos camarotes, pelo menos. Ao que pareceu, havia quem estivesse ali só pra beber, farrear. Fizesse no bar, ora. Indiferentes ao palco, conversando e rindo alto, mais pareciam latifundiários de seus pequenos espaços; “reis do camarote” em nenhuma sintonia com os demais. A um “psiu!”, um deles gritou: “Isso aqui não é teatro pra ficar calado!”, finalizando com um xingamento. Infelizmente não era mesmo um teatro, que, no entanto, seria insuficiente para a quantidade de gente interessada. Mas é certo que o encontro de Paulinho da Viola e Marisa Monte seria mais bem admirado num espaço intimista, com todo o público afinado à proposta do espetáculo: delicadeza pura; e elegância, sempre.

 


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Comentários

Por Mari,05/09/2017

Estava nas cadeiras e o clima lá embaixo foi de total respeito. Todos sentados admirando e cantando junto. Como fala na reportagem, "rei de camarote", ter o rei na barriga, as vezes torna a pessoa egocêntrica e sem nenhum altruísmo.

Por Cláudio,04/09/2017

Nem todo espetáculo é pra ser feito numa casa de espetáculo. Ao menos não em tamanha dimensão. Não fui. Achei caro pra ficar longe, ver pouco e, decerto, ainda me deparar com esse tipo de infortúnio. Há de se repensar o local. Que se faça mais shows na mesma cidade, como a própria Marisa faz em suas turnês. Vai quem gosta dela, da música e não quem gosta de estar em qualquer evento badalado.

Por Pedro,04/09/2017

Lugar de bêbados deviria ser em uma boite ou em um boteco qualquer, não no show destes dois que são os maiores representantes da fina flor da MPB.

Por Carmen Albuquerque,04/09/2017

Infelizmente um show de tamanha qualidade, realizado em um espaço pouco apropriado. Quanto à falta de elegância do público, sem comentários! Lamentável!

Por Roberto Costa,04/09/2017

Prefiro esperar o dvd a ir ver um show desses neste tipo de espaço desconfortável. Vou ver Trinca de Ases em Fortaleza, sentadinho num teatro. Em Recife será no Itaipava 14, com bêbados falando alto . Fuiiiii



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