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MCs mulheres entram no bregafunk e afrontam o machismo em suas músicas

No universo do bregafunk, no qual a voz masculina ainda prepondera, as mulheres estão dando o recado e resistindo ao preconceito

Publicado em 10/09/2017, às 09h00

MC Gabi, Maya MC e Van Van: vozes femininas na cena / Fotos: Leo Motta (JC Imagem)/ Divulgação/ Felipe Jordão (JC Imagem)
MC Gabi, Maya MC e Van Van: vozes femininas na cena
Fotos: Leo Motta (JC Imagem)/ Divulgação/ Felipe Jordão (JC Imagem)
GG ALBUQUERQUE

“Eu sou muito boa amando, mas sou melhor me vingando”, ataca Van Van na música Tenta Acompanhar, com participação da paulista MC Bella. No clipe, lançado em fevereiro, as duas convocam as amigas, algemam e vendam um galanteador musculoso, transformando-o em objeto sexual: “Malandro fica babando, tenta acompanhar”. Ao final do vídeo, Van Van empurra o homem na piscina e se despende mandando um beijo para a câmera.

No livro Ninguém é Perfeito e a Vida é Assim, o pesquisador Thiago Soares observa que o brega é ancorado em dois tipos de performatividade. De um lado, temos a “diva bregueira”, que canta com sobre romances e separações intensas – nomes como Musa, Kitara, Michelle Melo. Do outro lado, há o “gangsta” do bregafunk, aproximando-se da “estética da masculinidade e do cafuçu”, ostentando dinheiro, carros, bebidas e colocando seu corpo como provedor de prazer – os MCs Sheldon, Tróia, Cego e Metal. Tenta Acompanhar é símbolo de embaralhamento e complexificação destas disputas de gênero na música periférica do Recife, com as mulheres assumindo uma postura sexualizada ativa e afirmam autonomia e poder.

Van Van, 24 anos, diz que busca quebrar “a barreira da submissão”. “Ainda existe um preconceito grande, mas eu tento quebrar isso de que a mulher tem que ser a que aguenta tudo calada ou a coisa de que a mulher tem que ser um objeto sexual. Não é porque a mulher sai com uma roupa curta que ela tem que ser assediada ou que ela está afim de alguma coisa. É porque ela se sente bem com aquela roupa, se sente bonita”, destacando que escreve suas próprias músicas.

Atriz desde os sete anos, ela ganhou destaque quando entrou no elenco do programa Papeiro da Cinderela e orgulha-se de ter vindo de uma “família de classe média baixa, sem berço de ouro” e conquistado tudo sua vida “através dos meus esforços, do meu mérito, do meu talento”. “Não sei se isso é ser um pouco feminista, mas eu valorizo muito a imagem da mulher independente, que tem seu carro, paga seu aluguel, compra suas roupas, trabalha que nem uma condenada para se sustentar. É porque eu me vejo assim. Eu passo isso que eu sou nas minhas músicas”.

A MC Gabi, 19 anos, começou cantando funk, mas decidiu passar para o bregafunk do Recife quando também percebeu a pouca presença das mulheres. Lançou a música Talentinho, produzida por Dany Bala, o produtor mão de ouro do estilo, e acaba de soltar Sem Parar, em parceria com o MC Dread. “Faz uma diferença a gente poder entrar e ter o seu espaço na música. O que eu mais quero é mostrar que as mulheres também podem cantar nesse estilo, não só música romântica em banda. Fora (de Pernambuco) tem os MCs e tem as meninas MCs. Acho que aqui também tem que ser assim. E a mulher pode sensualizar, sim, porque ela tem potência para isso. No show, elas gostam de ter aquela exaltação para si”, destaca Gabi.

Autora de Desafio do Bumbum e Violenta, Maya MC, 23 anos, enxerga a presença das mulheres como uma resposta ou embate ao discurso dos MCs. “As músicas do bregafunk particularmente não falam valorizando a mulher e o quanto ela é poderosa. Quando decidi entrar no bregfunk foi para fazer músicas mostrando nosso poder, nossa sensualidade. Mas não nos menosprezando, não permitindo que o homem faça o que quer”, pontua.



As palavras de Maya reverberam a postura de outra nova cantora, Marcelly Ferrari na música Tu Vai Ter Que Rebolar, que avisa: “Para me conquistar tu vai ter que rebolar/ Não sou dessas piriguetes que você só quer usar”. Ela lançou ainda Marombeira, uma parceria com o cantor Nego Max. A MC Cleópatra, por sua vez, celebra a solteirice e ostenta sua sensualidade: “Vou deixar bem claro que não quero boy otário/ Na sentada eu te esculacho e na cama tu gama fácil”.

União para enfrentar machismo

O documentário Sou Feia, Mas Tô na Moda(2005), de Denise Garcia, mostra como como Tati Quebra Barraco, Deize Tigrona e Valesca Popozuda subverteram a sexualização do funk em forma de empoderamento – a antropóloga Adriana Facina nota ainda como “A buc*** é minha”, verso/grito de guerra de Valesca, “traduziu” o slogan feminista “Meu corpo, minhas regras” para o contexto do funk. As MCs pernambucanas acionam o seu corpo e performam a sensualidade em movimento análogo de auto-afirmação.

Por outro lado, parece haver contradições e tensões mais complexas. Na dissertação My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro, Mariana Gomes, ao analisar o trabalho de Valesca, observa que a “a cantora afirma o corpo como espaço de liberdade, mas ele pode ser uma prisão”. Assim, a pesquisadora problematiza a “relação perigosa” entre feminismo e erotismo: “É possível que o erotismo nas letras de funk seja um fator mercadológico”.

Van Van sente essa contradiçaõ e dubiedade na pele. “Como eu envolvi muito a sensualidade no meu trabalho, eu tô querendo desmistificar isso aí para que as pessoas não me vejam só com o corpo, com o desejo. Que isso fique como terceira ou quarta opção, não como uma coisa principal. As pessoas confundem muito. É difícil quando você é mulher. Eu queria muito que as pessoas se aproximassem dizendo: ‘Ela canta bem ou ela é boa atriz’”, afirma, contando que está mudando de estilo, deixando o bregafunk de lado - inclusive trocando o nome artístico para Vanessa Porto, seu nome de batismo - por não se identificar tanto o estilo.

Apesar de letras relativamente distintas, todas estas mulheres do bregafunk são unânimes ao citar sua referência estética: Anitta e Ludmilla – nenhum nome local. Todas também celebram a entrada, participação e crescente visibilidade das mulheres como uma forma de modificar a própria cena da cidade e atacar (silenciosa ou explicitamente) o machismo. “Aqui no Recife existe um machismo muito grande que diz que não é legal a mulher rebolar, usar roupa curta, não pode beber. Isso tem que ser quebrado porque a mulher é independente, trabalha a semana inteira, às vezes até horas a mais, para poder chegar no final de semana e curtir. Isso não significa que ela é vulgar ou ‘fácil’. Em São Paulo já é mais comum e mais aceito. Aqui as pessoas julgam muito e esquecem de olhar para o próprio umbigo”, conclui Van Van.


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